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Dulce Menezes dos Santos, a mulher que foi raptada e violada pelo bando de Lampião

Vivendo hoje em Campinas, Dulce revelou como foi viver obrigada a interagir com cangaceiros que a sequestraram

André Nogueira Publicado em 21/01/2020, às 12h51

Dulce aos 96 anos
Dulce aos 96 anos - Divulgação/Youtube

Dulce Menezes dos Santos foi uma das muitas mulheres que tiveram suas vidas interferidas pelo bando de Virgulino Ferreira, mais conhecido como Lampião. Hoje, vivendo na periferia de Campinas aos 96 anos, ela passou a integrar ao cangaço após ter sido retirada de sua família e violentada por um dos integrantes do grupo.

Essa fase da vida de Dulce sempre foi escondida pela família, o que fez com que a idosa passasse a evitar visitas. "Infelizmente isso aconteceu contra minha vontade. Não fui porque quis ir”, deixou claro em entrevista ao Estado de Minas.

O trágico encontro entre Dulce e os mais famosos bandidos do Brasil ocorreu quando ela vivia com a irmã em Alagoas. Antes, morava na fazenda de algodão da família em Porto da Folha, Sergipe, mas ambos os pais morreram quando ela era criança.

Acontece que o rancho alagoano em que passou a morar era recinto de descanso dos cangaceiros que adentravam ao sertão. Lá, Dulce se deparou com aqueles estranhos homens adornados em couro, quando um dos cangaceiros, João Alves da Silva, vulgo Criança, notou a presença menina e pediu para compra-la de seu tio João Felix, que a trocou por joias.

Dulce em 1938 / Cr[edito: Divulgação/YouTube

 

Em negociação, Criança falou a João que levaria Dulce a uma festa organizada por Zé Sereno numa fazenda vizinha. Ao cangaceiro foi permitido acompanhar a criança, enquanto João e a esposa Julia assistiam de longe. Dulce afirmou que desde cedo já se sentiu assustada com a situação.

Criança então pegou a menina pelo braço e a obrigou a sair do salão onde estavam. Gritando de medo, ela ouvia o cangaceiro berrar: "Cala a boca, se não te sangro agorinha mesmo." Foi jogada no chão, em meio às pedras e cactos, e lá foi estuprada, com o assustador silêncio dos outros convidados.

No resto da noite, Dulce foi observada pelo cangaceiro, que a tratava como mercadoria. João Felix se sentia arrependido, mas também acuado pelo bandido armado.

"Fui a pulso, arrastada, se não morria. O apelido dele era Criança. Deus queria que eu estivesse aqui agora, conversando com vocês", afirmou Menezes. "[ele estava] com parabélum na mão. E [eu] com medo de morrer, acompanhei." Na época com 13 anos, ela era apaixonada por Pedro Vaqueiro, um rapa de Piranhas que, ao descobrir a violência, saiu com um desespero aterrador e desapareceu no sertão.

Bando de Lampião / Crédito: Benjamin Abraão Botto

 

Acontece que Criança pertencia a um dos subgrupos comandados pelo capitão Lampião que, em 1938, convocou seus homens para uma reunião na Gruta do Angico, Sergipe. Lá, Dulce conheceu Maria Bonita, a quem ela descreveu como “boa pessoa”.

Presenciou a cena por pouco tempo, afinal, aqueles grupos articulados por Virgulino agiam separadamente: “Se vivesse tudo junto, a polícia descobria pelo rastro. Agora, nesse dia estava todo mundo junto. Tinha de acontecer, graças a Deus”.

Naquela noite, conseguiu descontrair as tensões do sequestro ao encontrar Maria bonita e Sila numa conversa em que caminhavam pela escuridão da caatinga reconhecendo vagalumes. Pela primeira vez em muito tempo, conseguiu dormir tranquila.

Porém, a hora de acordar foi completamente conturbada. Não porque os cangaceiros voltariam a violentá-la, mas ao contrário: dessa vez era Criança que levava os tiros e corria desesperado, pois um grupo volante do Estado havia invadido a Gruta numa emboscada contra o bando de Lampião. Esse foi o famoso momento em que finalmente o Rei do cangaço fora capturado e executado.

Crédito: Domínio Público

 

Criança conseguiu escapar, mas Maria Bonita e Lampião morreram no local. Enedina também, e o tiro que abateu sua cabeça fez respingar miolos em cima de Dulce. "Era tiro demais. Gente caindo, entrando pelas pernas, passando em cima de cabeças. Escapou quem tinha de escapar, porque nunca vi tanto tiro na vida, meu filho."

Quando a noticia chegou a Piranhas, a família foi checar se a cabeça da moça estava entre os troféus da volante. O grupo então se embrenhou no mato e fugiu, mas decidiram se entregar à polícia em troca de uma anistia concedida pelo ditador Getúlio Vargas. Com dois filhos, Criança e Dulce passaram a trabalhar numa fazenda do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Para ajudar Dulce, o dono da fazenda tornou o ex-cangaceiro o novo tropeiro do lugar, obrigando-o a se afastar da garota.

Dulce se casou com Jacó, o dono da fazenda, e com ele teve 18 filhos. Ela relata que esse momento de sua vida foi muito melhor do que a época em que estava sequestrada pelo bando de Lampião: "Foi o tempo que fui feliz. [...] Agora essa turma do Lampião, meu Deus do céu, quando queria pegar mulher, se não fosse, eles matavam”.

Quando Jacó morreu, Dulce decidiu mudar-se para o estado de São Paulo com a filha Martha, passando a residir em Campinas, onde não encontrou a maior felicidade: teve filhos e netos assassinados em meio à violência da cidade. 


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