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Em 2011, novela do SBT sobre a ditadura quase sofreu censura de militares

Autor declarou que pedido era demonstração de “desespero” de gente ‘que tem o rabo preso’

Fabio Previdelli Publicado em 02/04/2022, às 00h00

Cena da novela "Amor e Revolução" (2011)
Cena da novela "Amor e Revolução" (2011) - Divulgação/SBT

No dia 5 de abril de 2011, a novela “Amor e Revolução” estreou na grade do SBT. Ambientada logo no início do Golpe de 64, entre as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, a trama mostrava as consequências da ditadura militar no Brasil — que perdurou por 21 anos. 

“A intenção é narrar a história de personagens diretamente ligados ao tema da ditadura, seja a favor ou contra, como militares, guerrilheiros, torturadores, artistas, jornalistas, advogados e estudantes nos anos brutais da repressão”, declarou o autor Tiago Santiago, idealizador da novela, em material divulgado pela emissora na época. 

Considerada a primeira telenovela brasileira a abordar a ditadura militar no Brasil em seu trama central, a chamada do folhetim afirmava que “só o SBT tem a coragem de passar a limpo a história recente do nosso país".

Embora a atitude da emissora tenha se tornado também ousada ao exibir depoimentos de vítimas da Ditadura ao fim de cada capítulo, a Associação Beneficente dos Militares Inativos da Aeronáutica (ABMIGAer) não gostou nenhum pouco de como a trama estava sendo apresentada e chegou a levantar um abaixo-assinado para que a mesma fosse tirada do ar. 

O contexto da época e o abaixo-assinado

Quando a novela estreou, o Governo Federal acertava os últimos ajustes para a aprovação da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que tinha como objetivo investigar as graves violações de direitos humanos ocorridas durante a Ditadura.

Desta forma, segundo pedido indeferido por José Luiz Dalla Vecchia, membro da ABMIGAer, o Governo Federal teria feito um acordo com o SBT a fim de facilitar a aprovação da CNV. Com isso, o órgão anularia a dívida do Banco Panamericano, que tinha Sílvio Santos como dono. Veja abaixo, na íntegra, o documento escrito por Dalla Vecchia:

“É óbvio que o Governo Federal através da Comissão da Verdade, recém-criada, está participando do acordo em exibir a novela ‘Amor e Revolução’ no SBT. Parece-nos que se trata de um acordo firmado com o empresário Silvio Santos, visando o saneamento do “Banco Panamericano” do próprio empresário. As Forças Armadas não devem permitir, dentro da legalidade, que tal novela seja exibida, pelos motivos óbvios abaixo declarados. Convém salientar que as Forças Armadas já se manifestaram negativamente a respeito da novela Amor e Revolução. Texto do abaixo-assinado: Diante de o Governo Federal através da Comissão da Verdade, recém-criada, estar, como tudo indica, participando do acordo em exibir a novela ‘Amor e Revolução’ no SBT (trata-se de um acordo firmado com o empresário Silvio Santos, visando o saneamento do ‘Banco Panamericano’ do próprio empresário, envolvido em escândalo no sistema financeiro nacional). Sendo assim, o efetivo das Forças Armadas, tanto da ativa como inativos e pensionistas, vêm respeitosamente através deste abaixo-assinado, como um instrumento democrático, solicitar do digno Ministério Público Federal, representado acima, providências em defesa da normalidade constitucional, vista o cumprimenro da lei de anistia existente, conforme já decidiu o Supremo Tribunal Federal. Nestes termos pede deferimento em caráter urgentíssimo”.

Cena da novela "Amor e Revolução"/Crédito: Divulgação/SBT

Censura?

Em resposta, o autor Tiago Santiago declarou que o abaixo-assinado era “despropositado”, afirmando que "a novela é respeitosa com as Forças Armadas, mostrando herói militar e oficiais democratas, a favor da legalidade", conforme relatado pelo Correio do Brasil.

Santiago ainda apontou que as acusações sobre o saneamento do banco PanAmericano também eram inverídicas: "A proposta partiu de mim para o SBT e não vice-versa. Comecei os trabalhos antes de saber que havia qualquer problema com o banco e antes de saber também que a presidente Dilma Rousseff [responsável pela aprovação da CNV] seria eleita".

Ao veículo, o autor ainda apontou que a tentativa de censura de sua trama interessa “apenas aos criminosos, torturadores e assassinos, que violaram as convenções de Genebra, nos chamados anos de chumbo da ditadura militar".

Ele ainda publicou uma nota oficial contra o documento: “Esse abaixo-assinado está mal escrito, está desinformado. A Comissão da Verdade nem foi aprovada ainda! E, de qualquer forma, a novela nada tem a ver com a Comissão da Verdade. É um projeto meu que já tem 15 anos, criado na época em que eu trabalhava com o Herval Rossano na TV Globo. Não podem dizer que estou denegrindo a imagem dos militares, o próprio herói é um militar democrata”.

Cena da novela "Amor e Revolução"/Crédito: Divulgação/SBT

“A novela tem esquerdistas, militares de direita, democratas... Eu não coloco todos os militares no mesmo saco dos torturadores, não. ‘Amor e revolução’ não é uma trama contra militares. É uma tentativa de censura, o que é inconstitucional. Isso é um protesto desesperado de gente que tem o rabo preso, gente que não quer ver esses depoimentos com medo de que algo aconteça a eles. Tirar a novela do ar só interessa a quem tem medo! A grande maioria dos militares está gostando da novela”, completou. 

O destino da novela

Em abril daquele mesmo ano, conforme reportado pelo O Globo, 2011, o Ministério Público Federal (MPF/DF) arquivou o pedido feito pela ABMIGAer. Segundo o então procurador da república, Peterson de Paula Pereira, a acusação não apresentava elementos suficientes para comprovar o pedido. 

O procurador concluiu que "conjecturar que a teledramaturgia será exibida em troca de negociatas, objetivando desqualificar a imagem das Forças Armadas, pode ser tão nocivo quanto censurar o folhetim, pois, efetivamente, tolhe-se direitos de envergadura constitucional, ferindo o princípio da liberdade de expressão".

Por fim, conforme matéria da Folha de São Paulo, pouco antes da decisão, em julho, os depoimentos finais acabaram sendo cortados da telenovela, sob a justificativa de que haviam apenas testemunhos contra o Golpe Militar. 

Embora tenha estreado com 7 pontos de audiência (com picos de 9), “Amor e Revolução” foi perdendo seu público aos poucos. Após os três primeiros meses, segundo o Terra, a narrativa optou por cortar as cenas de violência e tortura para focar mais na parte romântica da história. Por fim, a trama teve uma média geral de 4,75 pontos entre seus 204 capítulos,  uma das piores audiências da história das novelas originais do SBT.


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