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Esperança Garcia: a carta que revelou a história da primeira advogada do Piauí

Por meio de uma correspondência, Garcia reivindicou seus direitos e expôs os maus-tratos advindos da escravidão; infelizmente, muitos ainda não conhecem a sua incrível história

Giovanna de Matteo Publicado em 08/11/2020, às 10h00

Estátua de Esperança (à esqu.) e a carta (à dir.)
Estátua de Esperança (à esqu.) e a carta (à dir.) - Wikimedia Commons/Moacir Ximenes

Foi no ano de 1770, no Piauí, que uma mulher negra e escravizada escreveu uma carta que revolucionou a história do Brasil. O documento foi revelado em 1979, pelo historiador Luiz Mott, quando descobriu uma cópia no arquivo público do Piauí. Acredita-se que a carta original está em Portugal.

Atualmente, essa é considerada a primeira reivindicação, ou petição, de uma escravizada no Brasil que foi enviada a uma autoridade. Além disso, até agora esse é o primeiro documento encontrado no Piauí que levou a assinatura de uma figura feminina.

A mulher era Esperança Garcia, e hoje ela é reconhecida como a primeira advogada do Piauí. Na carta em que escreveu, a mulher denunciava os maus-tratos que ela, sua família, e seus colegas sofriam diariamente por serem vítimas da escravidão. 

A dura vida de Esperança

Esperança trabalhava em uma fazenda no Piauí, chamada Algodões, localizada na região de Oeiras, primeira capital do estado. Essa era uma área que ficou nas mãos do governo, pertencendo à Inspeção de Nazaré após a retirada dos jesuítas do local, que foi ordenada por Marquês de Pombal

Nesse momento, a mulher, que na época tinha 9 anos, foi levada como escravizada para a casa do capitão Antônio Vieira de Couto, onde começou a sofrer sérias violações. Não se sabe muito mais sobre a vida dessa moça, contudo, sua carta revelou as informações atuais. García relatou que era casada e engravidou do primeiro filho quando tinha somente 16 anos, tendo casado com o angolano Ignácio. Ao todo, ela teve 7 filhos.

Ela enviou ao presidente da Província de São José do Piauí daquela época, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, uma carta que descrevia sua situação desumana na nova fazenda.

Ao denunciar o seu feitor dos abusos físicos cometidos contra ela e seu filho, pediu que  pudesse voltar para Algodões e ter o direito de batizar sua filha ainda bebê. Desse modo, ela se tornou depois de anos um símbolo de resistência da escravidão.

Sua carta carregava os seguintes dizeres:

“Eu sou uma escrava de V.S.a administração de Capitão Antonio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões, aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não poço explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.S. pelo amor de Deus e do seu valimento, ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para a fazenda a onde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha. De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia

Conforme divulgado pelo site conhecaopiaui.com, a carta de Esperança Garcia de 1770 / Arquivo público do Piauí

 

Acredita-se que ela não tenha recebido respostas. Depois disso, Garcia escapou, e seu nome só reapareceu na história em documentos que datam uma relação de trabalhadores de 1778.

Ela é apontada como pioneira da advocacia no estado nordestino. A carta também é importante nas origens da literatura afro-brasileira. A data de seu envio, 6 de setembro, é comemorado o Dia Estadual da Consciência Negra. Ela também recebeu um memorial com o seu nome, que é dedicado à memória da cultura negra em Teresina.

Conforme afirmado pelo site da Instituição Esperança Garcia, 247 anos depois de sua correspondência ter sido enviada, a grande mulher recebeu do Conselho Estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PI), em solicitação da Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB-PI, o título de primeira mulher advogada do Piauí. 

Apesar de sua história ter sido reconhecida, nós ainda não sabemos qual desfecho ela levou. Informações sobre como ela aprendeu a ler e escrever ainda não foram descobertas, e ninguém sabe se ela conseguiu retornar com o filho à fazenda de Algodões, ou se ela reencontrou o marido e batizou a filha.

De qualquer modo, sua vida inspirou movimentos no país, e seu nome é importante na história como uma luta contra o racismo, uma consciência de direitos humanos para todos, e uma resistência contra a escravidão do período colonial.


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