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Matérias / Evita Perón

Evita Perón: Há 70 anos, a Argentina se despedia da ‘Mãe dos Pobres’

Evita se tornou uma das figuras políticas mais importantes da Argentina, lutando pelo sufrágio feminino e pelos mais pobres; por isso, foi alvo da ditadura até depois de sua morte

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 26/07/2022, às 11h54 - Atualizado em 30/07/2022, às 12h00

Evita Perón, a "mãe dos pobres" - Domínio Público via Wikimedia Commons
Evita Perón, a "mãe dos pobres" - Domínio Público via Wikimedia Commons

Há exatos 70 anos, a Argentina se despedia de Maria Eva Duarte de Perón, a Evita Perón, primeira-dama do país entre junho de 1946 até sua morte, aos 33 anos, em 26 de julho de 1952. Importante ativista e filantropa, por sua luta, Evita ficou conhecida como ‘Mãe dos Pobres’

Filha bastarda do estancieiro Juan Duarte com a humilde costureira Juana Ibarguren, Evita ascendeu na vida pública de forma meteórica, saindo do total anonimato até se tornar uma das figuras políticas mais importantes da Argentina, em menos de uma década. Apesar da morte prematura, o legado de Evita Perón se faz presente até hoje. 

O nascimento da ‘Mãe dos Pobres’

A importância de Evita Perón pode ser entendida pelo cenário político que a Argentina vivia: na década de 1940, o país passava por uma extrema instabilidade — causada pelos golpes e contragolpes que se intercalaram às tentativas de normalização institucional através de eleições regulares e periódicas. 

Fotografia de Evita Perón nas ruas de Buenos Aires / Crédito: Getty Images

“Como pano de fundo, o crescimento dos movimentos populares, exigindo maior participação política e na renda nacional. Esses movimentos reuniram um amplo espectro de organizações e de tendências políticas, que iam desde o sindicalismo reformista, até os comunistas, passando pela ala progressista da Igreja Católica”, aponta o Prof. Dr. Celso Ramos, do Centro Universitário Estácio de São Paulo, em entrevista exclusiva ao site do Aventuras na História.

Entretanto, do outro lado político havia os grupos conservadores, que compreendiam desde os grandes estancieiros até os industriais e banqueiros ligados ao capital internacional. 

Além do mais, naquela época, os valores morais da sociedade eram bem mais rigorosos e conservadores, visto que o país, ainda hoje, é predominantemente católico. Portanto, já é de se imaginar, boa parte da Igreja Católica estava alinhada com estes grupos, e que também contavam como apoio de amplos segmentos das Forças Armadas.

Nesse cenário, surgiu Juan Domingos Perón, que encabeçava o Partido Justicialista, de cunho reformista e populista. “Ou seja, não era um partido propriamente de esquerda por não ser contrário ao sistema capitalista na sua essência, mas entendia que o Estado deveria encabeçar reformas sociais e atuar de maneira decisiva em setores estratégicos da economia. E, desta forma, impediria que os comunistas ampliassem sua influência sobre as massas trabalhadoras”, explica o docente.

Eva e Juan se casaram em outubro de 1945. Cerca de quatro meses depois, em fevereiro do ano seguinte, ele foi eleito presidente da Argentina. Àquela altura, Evita já tinha grande notoriedade política, principalmente por ter liderado uma gigantesca mobilização popular pela libertação de Juan Domingos — que havia sido preso por razões políticas pouco antes de se casarem.

Eva Perón cumpriu muito bem este papel, digamos, assistencialista do populismo, ao criar em 1948 a Fundação Eva Perón. Através desta, e como Primeira-Dama, implementou amplos programas sociais: escolas públicas em bairros periféricos e em localidades no interior do país; atendimento médico-hospitalar popular e distribuição de medicamentos; e a luta pelo direito ao voto feminino”, aponta o Prof. Dr. Celso Ramos.
Evita em sua nomeação como vice-presidente da Argentina/ Crédito: Domínio Público

“Suas frequentes aparições em público eram sempre acompanhadas por multidões. Eloquente e sempre muito bem-vestida, seja nos comícios políticos, seja em visitas a locais carentes, não perdia oportunidade para falar diretamente como os seus ‘descamisados’ [os ‘sem camisa, maneira como ela se referia aos mais pobres]. Rapidamente ganhou o epíteto de ‘Santa Evita’, a ‘mãe dos pobres’”, completa. 

Sufrágio feminino e alvo político

Evita sempre lutou pela igualdade civil entre homens e mulheres, um ideal que muitos psicólogos e historiadores apontam que foi desenvolvido por conta de sua infância e adolescência, onde ela e sua mãe foram vítimas dos valores morais da época — pelo fato dela ser filha de uma ‘mãe solteira’, visto que seu pai jamais lhe reconheceu como filha e morreu quando ela ainda tinha nove anos.

Assim, quando Perón foi eleito, em fevereiro de 1946, ela enxergou a oportunidade ideal para tornar sua luta realidade e iniciou um movimento para a ampliação do direito ao voto das mulheres. 

“A bem da verdade, já existia um movimento neste sentido, porém organizado pelo Partido Comunista, e encampado por outros grupos de sufragistas e de feministas. Com o carisma e a popularidade que Evita emprestou à causa, o projeto de lei foi promulgado (no.13.010) em 23 de setembro de 1947”, conta o docente.

Ainda assim, Eva Perón foi alvo de críticas. Elas vinham no mesmo teor daquelas dirigidas ao populismo de forma geral: as bandeiras de lutas sociais ao serem empunhadas por representantes da elite, as esvaziam do seu caráter popular. Desta forma, as conquistas deixam de ser vitórias dos movimentos populares, e passam a ser divulgadas como “dádivas” dos poderosos. 

“Por exemplo, quando Evita se referia a Argentina, ela usava a expressão ‘lar dos argentinos’. Desta forma, ela esvaziava o caráter de classe da sociedade e passava a ilusão de uma grande família. Ou seja, foi um aspecto comum do populismo nos diversos países onde ele aconteceu, a exemplo do Brasil e da Argentina, as lideranças políticas carismáticas assumirem o papel de protagonistas das causas populares, no lugar das classes sociais. Inegavelmente, Eva Perón se enquadra neste perfil”, diz o Prof. Dr. Celso Ramos.

Evita e Juan Perón em 1947/ Crédito: Domínio Público/Archivo Gráfico de la Nación Argentina

Por conta de suas lutas sociais, Evita acabou sendo “demonizada” por seus adversários conservadores, pelo simples fato de ser mulher. Os padrões conservacionistas da época jamais poderiam aceitar que uma mulher exercesse um protagonismo político tão grande quanto ela. Além do mais, Evita tinha ‘contra si’ sua humilde origem social.

Era demais para o conservadorismo dos anos quarenta. Finalmente, sua liderança popular era indiscutível e nos seus discursos não deixava de dirigir críticas aos segmentos elitizados da sociedade. Em resumo, uma mulher de origem pobre, empoderando os ‘descamisados’, não iria gozar da simpatia de segmentos políticos da direita”, continua o docente. 

Morte e o roubo do caixão

No dia 9 de janeiro de 1950, Evita desmaiou em público e teve que passar por uma cirurgia apenas três dias após o ocorrido. Segundo o portal Medscape, embora tenha sido relatado que ela havia sido submetida a uma apendicectomia, Evita foi, de fato, diagnosticada com câncer de colo de útero avançado. Em poucos meses, ficou evidente que sua saúde se deteriorava rapidamente. 

Evita foi a primeira argentina a se submeter à quimioterapia; um tratamento novo na época. Segundo a BBC, por conta disso, ela perdeu muito peso, chegando a pesar apenas 36 quilos em junho de 1952. 

Evita Perón morreu às 20h25 de um sábado, 26 de julho de 1952. As transmissões de rádio em todo o país foram interrompidas com o anúncio de que "a Secretaria de Imprensa da Presidência da Nação cumpre seu triste dever de informar ao povo da República que às 20h25 faleceu a Senhora Eva Perón, Líder Espiritual da Nação".

Por seu simbolismo, o corpo de Evita foi embalsamado e colocado em exposição para visitação pública na sede da Central Geral dos Trabalhadores. Estima-se que mais de dois milhões de pessoas visitaram Evita até que seu corpo foi sequestrado em 23 de novembro de 1955 pelos militares que haviam deposto Perón, que estava no seu segundo mandato presidencial. 

“Depois de peregrinar pela cidade de Buenos Aires, pois os militares não sabiam ao certo o que fazer com o corpo de Evita, ele foi enviado para a Itália sendo enterrado em Milão em 13 de maio de 1957”, explica o docente. 

O corpo embalsamado de Evita Perón/ Crédito: Domínio Público

Em 1971, porém, o corpo de Perón foi exumado e restituído a Juan Domingos, que vivia no exílio em Madri. Somente quando ele foi novamente eleito presidente da Argentina, em 1973, é que o corpo retornou ao seu país natal. Até hoje ele está sepultado no cemitério Da Recoleta, em Buenos Aires.

“Essa história é pra lá de mórbida, foi protagonizada por parcelas dos opositores radicais do peronismo, não à toa os mesmos que iriam afundar a Argentina na ditadura mais sanguinária da América Latina. Aqueles mesmos que sequestravam os filhos bebês dos ‘subversivos’ e os entregavam para outras famílias para crescerem sem a influência do comunismo”, aponta o professor. 

Mas, de que se tratou isso? Em primeiro lugar um ódio muito grande pela pessoa que foi Evita. Não bastou ser seu adversário político até os últimos minutos da sua vida, foi preciso violar Eva Perón em morte. Ao mesmo tempo, ocultar o cadáver equivalia à tentativa de apagamento da memória de um tempo no qual os ‘descamisados’ puderam ao menos sonhar”, conclui.