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Furacão, cadáveres e atores drogados: o desastroso set de filmagem de Apocalypse Now

A produção da obra, que deveria ter durado 16 semanas, enfrentou tantos obstáculos que só acabou depois de 15 meses

André Nogueira e Pamela Malva Publicado em 27/03/2020, às 08h00

No set de Apocalypse Now, filme que teve o mesmo custo que Star Wars
No set de Apocalypse Now, filme que teve o mesmo custo que Star Wars - Getty Images

Francis F. Coppola, o diretor de O Poderoso Chefão, já tinha o roteiro de Apocalypse Now em mãos no começo de 1970. Ele estava esperançoso e animado com o longa que produziria, mas não esperava que o desafio seria tão grande.

No contexto dos Estados Unidos derrotados pelo Vietnã, o diretor foi obrigado a procurar todo tipo de financiamento para colocar sua obra de pé. Investidores, estúdios e distribuidoras foram acionadas.

No início, ele tinha 16 semanas para terminar as filmagens. A estreia, entretanto, teve de esperar 15 meses, graças à uma maré de azar que atingiu em cheio o set de gravações. No fim, o filme custou tanto quanto o primeiro Star Wars.

Lançado em 1979, Apocalypse Now era um longa extremamente ousado, com extravagantes cenas de explosão e um roteiro peculiar. Para o diretor de fotografia, V. Storaro, a obra refletia a “vontade que os americanos têm de transformar tudo em espetáculo”.

Foto tirada no set do filme, nas Filipinas / Crédito: Getty Images

 

O início de tudo

Em meados de 1965, procurando pelo set de filmagens perfeito, Francis recebeu um recado de Ferdinando Marcos, o ditador das Filipinas. Tudo estava decidido, eles poderiam gravar o filme no arquipélago — em troca, é claro, de uma certa quantia. 

De qualquer forma, o acordo foi fechado e Ferdinando chegou a oferecer equipamentos do próprio exército para as filmagens. Assim, helicópteros e fuzis filipinos, por exemplo, foram usados em cenas de combates e acidentes.

O problema da generosa oferta, entretanto, foi que, quando as frotas filipinas passaram a ser convocadas para batalhas reais contra a guerrilha, o diretor ficava sem máquinas. Assim, o filme era paralisado e a única opção era esperar pelo retorno dos soldados.

Entretanto, em grande parte das vezes que os figurantes armados voltavam, eles haviam trocado de posição durante o confronto. Dessa forma, os helicópteros voltavam com outros soldados e, assim, a cena era arruinada por erro de continuidade.

Coppola em reunião com Ferdinando Marcos / Crédito: Domínio Público

 

Tudo pode piorar

Para os protagonistas do longa, atuar em Apocalypse Now não era nada fácil. Isso porque, por mais que tivesse um roteiro base, Coppola não realmente investiu na construção e desenvolvimento das falas. Assim, todos eram obrigados a improvisar.

Como se não bastasse, o tufão Olga atingiu as Filipinas, em 1976. A força do desastre destruiu todo o cenário do filme, atrasando a produção mais uma vez. Visionário que era, Coppola tentou incorporar o fenômeno no longa, mas não foi tão simples assim.

Em pouco tempo, quando o diretor achava que nada mais poderia dar errado, o antagonista do filme, interpretado por Marlon Brando, trouxe mais problemas. No papel de coronel Kurtz, o ator chegou ao set sem ter lido o roteiro uma vez. Ele ainda pesava 130 kg e se recusava a interagir com Dennis Hopper.

Uma das cenas gravadas durante a produção do longa / Crédito: Getty Images

 

Com todas as óbvias adversidades, as filmagens foram adiadas mais uma vez. E, novamente, outros obstáculos surgiram. Certo dia, por exemplo, um cheiro forte de necrose dominou o set, vindo de uma pilha de cadáveres que estavam sendo guardados para uma das cenas.

Para Coppola, a chegada de policiais ao cenário pareceu uma brincadeira. Além de mal-cheirosos, os corpos fornecidos à produção haviam sido roubados de um cemitério. Isso abalou os produtores e o filme teve de ser adiado mais uma vez, para que os funcionários pudessem ser interrogados.

Pôster do filme / Credito: Wikimedia Commons

Uma vez seguidas as filmagens, a produção ainda teve de lidar com problemas de saúde dos próprios personagens. Em 1977, por exemplo, o ator Martin Sheen acordou no meio da noite com uma dor no peito.

Ele, então, saiu rastejando pelo acampamento e se arrastou por quilômetros, procurando ajuda. Quando soube do diagnóstico do protagonista — um ataque cardíaco —, Coppola também passou mal e foi vítima de um ataque epilético.

Durante os meses de filmagem, atores e funcionários apareciam drogados, a equipe teve que conviver com animais selvagens do Sudeste Asiático, sem contar as constantes chuvas e infiltrações. As únicas certezas eram que não dava mais tempo de desistir e que o filme tinha que ser encerrado.

“Éramos sujeitos com acesso a dinheiro demais e material demais, e pouco a pouco fomos ficando loucos. Meu filme não é sobre o Vietnã; meu filme é o Vietnã”, disse Coppola no Festival de Cannes. No final, apesar de todos os obstáculos, o filme arrecadou cinco vezes mais do que o homérico orçamento inicial.


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