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Herdeiro da FIAT na Segunda Guerra: A singular trajetória de Gianni Agnelli

Figura central no processo de reconstrução da Itália no século 20, o homem participou diretamente do conflito: ele lutou pelos dois lados

Ricardo Lobato Publicado em 22/08/2021, às 09h00 - Atualizado às 11h43

Fotografia de Gianni Agnelli em 1986
Fotografia de Gianni Agnelli em 1986 - Gorupdebesanez/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Como parte de seu projeto de colonizar as terras do Leste Europeu, Hitler reuniu em 22 de junho de 1941 um exército de mais de 3,5 milhões de homens na maior ação militar que o mundo já viu. Era o início da Operação Barbarossa, nome dado à invasão da União Soviética pelas forças do Eixo.

Neste contingente, havia uma parcela de homens formada pelo Corpo di Spedizione Italiano in Russia (Corpo Expedicionário Italiano na Rússia) ou CSIR — que, embora estivesse diretamente atrelado ao Exército alemão, era um projeto pessoal do ditador fascista Benito Mussolini de reviver o Império Romano. Mais de 235 mil italianos, dos quais a maior parte viria a perecer em solo russo, participaram da guerra na Frente Oriental. Um jovem oficial em particular chamava a atenção.

Dono de uma face marcante com traços dignos de um patrício da Roma Imperial, o que o destacava, porém, não era exatamente sua postura elegante (naqueles tempos, a aparência de um membro da elite romana era justamente o que um exército que buscava reviver as legiões de César desejava de seus comandantes). Carisma e prestígio — características almejadas em todo líder e que seriam sua marca registrada ao longo de sua vida — tampouco eram os principais elementos de destaque.

O que tornava aquele rapaz de apenas 20 anos uma figura digna de atenção naquele exército era o fato de ele ser Gianni Agnelli, L’avvocato (o advogado), membro de uma das famílias mais abastadas da Itália e herdeiro da legendária fábrica de automóveis FIAT, onde começou a trabalhar, na diretoria, em 1943.

Vinte e três anos depois, assumiu a presidência, permanecendo no cargo até 1996, quando se afastou e tornou-se presidente honorário. Ao contrário do que se possa pensar, para o italiano, participar da guerra do lado nazifascista não era uma “cruzada contra a ameaça vermelha”.

O que parecia mover o jovem Agnelli era tão somente um desejo de servir seu país, já que a ideologia nunca tenha sido um fator de destaque em sua trajetória. Vale lembrar que, anos mais tarde, já como presidente da FIAT, ele mantinha uma excelente relação, tanto com o Partido Comunista Italiano quanto com os soviéticos que combateu na Segunda Guerra — a empresa, inclusive, possuía uma fábrica na URSS.

Nessa época, ao ser perguntado em uma entrevista sobre a razão de ter combatido pelas forças de Mussolini, respondeu com um sorriso que esteve nos dois lados da batalha e emendou: “Quando seu país está em guerra e você é um jovem, você está entre aqueles que fazem a guerra e não entre aqueles que apenas ficam parados e observam.

Quando tínhamos 20 anos, entre 1940 e 1950, vivíamos um período que não desejo a ninguém. Vimos um mundo caótico, a Europa em desordem”. E aquele conturbado início do século 20, que teria como consequência o conflito que mudou o mundo, é exatamente o tempo em que Gianni nasceu e cresceu.

Fotografia de Gianni Agnelli com seu avô em 1940 / Crédito: Dgtmedia - Simone/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Herdeiro de um império

A Itália no pós-Primeira Guerra era uma prova clara da “Europa em desordem”, citada por Agnelli, cuja atmosfera era um misto de orgulho ferido e fervor revolucionário. Mesmo parte da Grande Guerra ao lado da Inglaterra e da França, o país foi o menos beneficiado dentre os vencedores nos acordos de paz com a Alemanha e com a Áustria — o que acendeu um sentimento nacionalista na parcela conservadora da sociedade.

Enquanto isso, os proletários dos grandes centros urbanos, inspirados pelo sucesso da Revolução Vermelha de Outubro de 1917, constantemente realizavam greves e manifestações. No coração dessa maré de transformação estava Turim, capital da região de Piemonte, conhecida até hoje como o coração da indústria italiana.

Muito desse prestígio, aliás, vem da fábrica fundada na virada do século 19 para o 20, pelo avô de Gianni — e que se transformou no império pessoal dos Agnelli: a Fabbrica Italiana Automobili Torino ou, simplesmente, FIAT.

Foi em Turim que Giovanni Agnelli, ou “Gianni”, apelido que recebeu para diferenciá-lo do avô, também Giovanni, nasceu, em 12 de março de 1921. Filho do industrial Edoardo Agnelli e da princesa Virginia Bourbon del Monte, teve uma infância relativamente tranquila, a despeito da situação política, econômica e social pela qual atravessava seu país. Em sua mocidade, seus pais preferiram que ele estudasse em um colégio público, algo incomum para os filhos da elite italiana da época.

Foi no Liceo Classico Massimo d’Azeglio — por onde também passaram o filósofo Norberto Bobbio e o escritor Primo Levi — que o jovem adquiriu o que ele mesmo viria a definir como “uma consciência de mundo”. Naquele ambiente moderno, compartilhando o desejo por novas experiências, Gianni começava a trajetória que iria influenciar não apenas o futuro de sua família, mas o de uma nação inteira.

Nos momentos em que não estava estudando, Gianni passava longas horas com seu avô na fábrica. Para o menino, que crescia entre as montagens de carros, as idas ao local eram vistas como um passeio e não como uma responsabilidade.

Até que, em 1935, tudo mudou, quando, com apenas 14 anos, o jovem perdeu seu pai, Edoardo, morto em um acidente de avião. Neste momento, o avô, que até então era permissivo e brincalhão, assumiu sua criação.

Com a morte do herdeiro imediato e tendo assumido a figura paterna para o neto, Giovanni Agnelli passou a ser um rígido disciplinador que, apesar de continuar amoroso, passou a representar a autoridade máxima na vida do rapaz.

Determinado a transformar o neto em seu sucessor e a expandir o império familiar, tornando a FIAT a maior indústria de automóveis da Europa, as idas à fábrica se converteriam em aprendizado. Anos mais tarde, Gianni comentaria que o avô fora para ele sua maior influência e a grande inspiração na vida.

No final dos anos 1930, quando terminou o Liceu, Gianni ingressou na Universidade de Turim, onde cursou Direito. Fazendo jus à tradição italiana de se dirigir a alguém com um título que mostre que ele ou ela foi aprovado em um exame, passaria a ser conhecido como L’Avvocato (O Advogado) — mesmo que nunca tenha exercido a profissão.

Somado ao tempo em que passava estudando e ao aprendizado para suceder ao avô — que incluía além das horas na fábrica, uma série de viagens para conhecer mais da indústria pelo mundo — havia a Escola de Cadetes de Pinerolo, nos arredores de Turim, onde treinava para ser um oficial do Exército Italiano.

O que deveria ser apenas o serviço militar obrigatório, seria outro divisor de águas em sua vida, pois Mussolini, que governava a Itália com punho de ferro, já dava mostras de seu ímpeto expansionista desde que invadira a Abissínia (atual Etiópia) em 1935. Ao passo que Hitler realizava uma série de conquistas na Europa Central.

Não tardaria para que uma guerra de grandes proporções atingisse novamente o continente. Ela veio em 1939, ano em que Gianni recebeu seu diploma em Direito. A Itália só entraria na guerra em 1940, e o jovem Agnelli iria então participar do maior conflito que o mundo já vira.

Fotografia de Gianni Agnelli / Crédito: Gorupdebesanez/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Das estepes russas ao deserto

Mesmo que inicialmente hesitante, como parte do Eixo, e vendo que após a invasão alemã a derrota da França era iminente, em junho de 1940 Mussolini colocou oficialmente a Itália na Segunda Guerra Mundial. O Estado Fascista buscava reviver as glórias dos Césares, e uma guerra na Europa era a oportunidade perfeita para isso.

Gianni Agnelli estava prestes a concluir seu treinamento como oficial de Cavalaria quando o país entrou no conflito. Embora sua pátria estivesse em guerra, por conta de seu trabalho na FIAT e das conexões políticas de seu avô, estava dispensado do serviço militar ativo. No entanto, sua posição era considerada “mão de obra vital para o esforço de guerra”. Então, contra o desejo do avô, o neto se voluntariou para o serviço ativo.

Gianni não achava justo que milhares de homens partissem para o front e ele ficasse para trás, além do vigor imaturo da juventude, comum naqueles tempos, que o fazia clamar por ação. Quando perguntado sobre a razão de ver de perto um combate a despeito de sua condição privilegiada, respondia em tom gracioso: “Um Agnelli deve ser corajoso, mesmo em uma guerra”.

A princípio atrelado à cavalaria montada, foi destacado para receber treinamento em uma unidade de carros blindados (muitos fabricados pela própria FIAT). O Exército Italiano estava experimentando as novas técnicas da guerra rápida com que seus aliados alemães haviam mostrado ao mundo na conquista da Europa continental, a Blitzkrieg.

Enquanto continuava seu treinamento, a Itália, porém, começava a colecionar uma série de derrotas em sua aventura na Segunda Guerra. A despeito do tamanho, suas Forças Armadas enfrentavam dificuldades logísticas e materiais. Mesmo assim, quando em junho de 1941 os alemães deram início à ofensiva contra a União Soviética, Mussolini fez questão de que seu Exército participasse da invasão.

L’Avvocato, agora com 21 anos, teve seu batismo de fogo no front russo, onde participou das primeiras fases da guerra contra o Exército Vermelho. As unidades italianas estavam atreladas ao chamado Grupo de Exércitos Sul das forças do Eixo, onde, apesar dos relativos sucessos iniciais, os combates eram uma constante. Tendo visto a ação de perto, Gianni foi ferido duas vezes, pois sua mostra de liderança fazia com que ele estivesse sempre “perto demais” da ação.

Em decorrência da enorme quantidade de baixas, sua unidade foi evacuada, mas esse não seria o fim de sua participação na guerra. Para ele, a Segunda Guerra estava apenas começando. Depois de recuperado dos ferimentos, foi designado para o comando de uma unidade blindada na África do Norte. Do frio das estepes russas, a guerra o levara diretamente para o calor escaldante das areias do deserto. Recordando sua participação na guerra ao lado do Afrika Korps, do marechal Rommel, dizia que desembarcara na África durante a Campanha da Tunísia em fins de 1942.

Lá, veria novamente os combates de perto, em ações principalmente contra as forças britânicas. Durante esse período foi ferido novamente, mas não em batalha. Dando provas do charme pelo qual também se tornaria conhecido no pósguerra, começou a cortejar uma jovem em um bar.

A moça também despertara a atenção de um oficial alemão que, bêbado, atirou no braço do italiano. Apesar do disparo, pelo barulho do local, ninguém se deu conta de que um tiro havia sido efetuado. E, num comportamento “cavalheiresco”, Gianni pediu licença e se retirou do bar. Naquela altura, a maré da guerra começava a virar.

O conflito entrava em uma nova fase para as forças do Eixo e momentos de descontração já eram raros. Em breve, a Itália seria invadida pelos Aliados e tudo seria diferente para a o país — e para Gianni.

Despedida de Gianni Agnelli / Crédito: Getty Images

 

A nova Itália

Em 1943, vencida a Campanha da África, os Aliados iniciaram a reconquista da Europa, começando pela invasão da Itália. O país que Mussolini deixava depois de ser deposto mais se parecia com a Roma que caiu decadente ante os bárbaros do que com o glorioso Império Romano. O país estava parcialmente destruído, com uma economia em frangalhos e um povo passando fome.

Para piorar a situação, o que era para ser o fim de uma guerra que se mostrava catastrófica para os italianos, ainda se prolongaria até 1945, pois os alemães ocuparam militarmente seu antigo aliado. Apesar de uma parte das Forças Armadas ter permanecido leal a Mussolini até a capitulação definitiva da Alemanha, boa parte do Exército italiano mudou de lado e passou a combater junto aos Aliados. Dentre os que optaram por lutar contra o nazifascismo estava Gianni Agnelli.

Àquela altura, Gianni não era mais um garoto. Depois de ter experimentado os horrores dos combates em mais de um teatro de operações, o anseio pela ação havia sido substituído pela vontade de libertar seu país.

Nunca lutara uma guerra ideológica, sempre deixara isso claro. Lutava por sua pátria, e a Itália agora se via às voltas com a ocupação alemã. Como era fluente em inglês (sua avó materna era dos EUA), virou intérprete das forças norte-americanas e britânicas até o fim do conflito. O término da Segunda Guerra, aliás, foi um momento de profunda reflexão. Gianni, como muitos italianos, partilhava de um sentimento misto.

Por um lado havia a alegria de ter sobrevivido à guerra, por outro o país encontrava-se destruído e o número de baixas havia sido enorme. Tragédias pessoais eram uma realidade da qual quase todos os italianos partilhavam. Quando Gianni retornou a Turim, seu avô já não era mais o todo-poderoso da FIAT.

Com o apoio dos Aliados, o Comitê de Liberação Nacional (CLN) — principal grupo da resistência italiana — havia forçado Giovanni a renunciar do comando da fábrica por ter colaborado com o esforço de guerra do Eixo. Giovanni morreu meses depois do fim do conflito, mas ainda conseguiu se encontrar brevemente com Gianni.

Apesar de afastado, conseguiu garantir que seu homem de confiança, Vitorio Valletta, assumisse o comando da fábrica até que o jovem estivesse apto para tal. Prestes a falecer, porém, o velho Agnelli deu um conselho para o neto: antes de se dedicar ao trabalho, aproveite a vida.

Como muitos de sua geração, a guerra havia roubado sua mocidade. Elegante, culto, bon vivant, amante de esportes e cercado de belas mulheres, Gianni materializava o sentimento que a sociedade italiana do pós-guerra mais prezava: a paixão pela vida.

Mais do que apenas se reerguer das ruínas, era preciso dar um sentido para uma nação derrotada. Sabia que o compromisso com seu país não acabara. A FIAT se converteria em um motor fundamental da reconstrução e Agnelli estaria à frente do processo. Não à toa, por inspirar esperança e personificar o desejo de uma nação pós-guerra — cuja tradição de imperadores e de papas resistia no imaginário da população até mesmo numa democracia social —, Gianni Agnelli ficou conhecido como “o rei não coroado da Itália”.


Ricardo Lobato é sociólogo, mestre em economia, oficial da reserva do exército brasileiro e analista-chefe de política e estratégia da equilibrium — consultoria, assessoria e pesquisa.


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