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A tragédia da Apollo 1: a missão que resultou na morte dos astronautas

Um horrendo acidente quase levou ao fim da NASA e do programa espacial dos EUA

Alana Sousa Publicado em 07/08/2020, às 09h00

Os astronautas antes do malfadado teste
Os astronautas antes do malfadado teste - Divulgação/NASA

O nome oficial da missão era AS-204. E seu propósito era modesto: um teste em órbita baixa dos equipamentos que levariam o ser humano à Lua. A NASA anunciou a seleção da tripulação em 21 de março de 1966, seriam eles: Comandante Piloto Virgil Ivan “Gus” Grissom, Piloto Ed White, e Piloto Roger B. Chaffee.

Com lançamento previsto para 21 de fevereiro de 1967, a missão nunca sairia do solo. O teste começou às 13h, quando os três astronautas, vestidos em trajes espaciais, entraram, fecharam a porta, pressurizando a cápsula, e se postaram em seus assentos, prendendo seus cintos.

A ideia era fazer uma simulação de lançamento e, ao fim da tarde, por problemas de comunicação, o teste ainda não tinha terminado. Às 18h20, quando o problema com o rádio foi resolvido, a contagem permaneceu parada e os astronautas passaram a usar o tempo para rever sua lista de procedimentos. 

“Fogo”!

Às 18:30:04.7, na contagem exata da Nasa, ouviu-se pelo rádio: “Fogo!”. Dois segundos depois: “Tem fogo no cockpit!”. E, após quase 7 segundos de silêncio, uma gritaria difícil de interpretar, “Eles estão enfrentando um fogo grave – vamos sair – abram ela!”. Ou “Temos um fogo grave – vamos sair – estamos queimando”. Ou ainda: “Estou reportando um fogo grave – estou saindo!”. A seguir veio um grito. E mais nada. 

Ninguém saiu. A cabine era programada para só abrir quando a pressão interna fosse igual ou menor que a externa – para não se abrir no espaço. E, no teste, ela tinha mais pressão que o exterior. Às 18:31:19, menos de 30 segundos após o primeiro aviso, as labaredas apareceram do lado de fora. 

Foram 5 minutos para que a cápsula pudesse ser aberta e, dentro dela, implacavelmente, só fossem encontrados astronautas carbonizados, infernalmente misturados com material derretido. Para tirá-los, seriam preciso mais 90 minutos.

A armadilha mortal foi criada pela falta de preparação do local para emergências, porque não consideravam o teste como perigoso. Haviam três partes envolvidas na escotilha: uma interna removível, na parte de dentro da cabine; uma escotilha externa articulada, parte do escudo de calor da espaçonave; e uma tampa de escotilha externa, servia como uma cobertura protetora que envolvia todo o módulo de comando para protegê-lo do aquecimento aerodinâmico. Nenhuma delas foi capaz de ser aberta por conta da alta pressão da cabine no momento da tragédia.

O relatório da autópsia confirmou que a causa de morte dos três astronautas foi parada cardíaca causada por altas concentrações de monóxido de carbono. Acredita-se que as queimaduras de terceiro grau sofridas pelos três membros da missão não sejam fatores importantes, e concluiu-se que a maioria delas ocorreu após a morte. Por causa dos grandes fios de nylon que fundiram os astronautas ao interior da cabine, a remoção dos corpos demorou quase 90 minutos.

A causa do incêndio foi atribuída a uma falha na eletricidade. E o fogo se espalhou rapidamente devido aos materiais de nylon, e a alta pressão da atmosfera de cabine de oxigênio puro. A abundante presença de velcro também ajudou na distribuição do fogo pela cabine.

A simulação de lançamento tripulada, na qual o acidente ocorreu, seria fundamental para determinar se a nave espacial operaria na energia interna enquanto desconectada de todos os cabos e umbilicais.

A quase morte da Nasa

Em uma das revelações que vieram a público após o ocorrido, estava o conteúdo da reunião que envolveu os três membros da Apollo 1, e o gerente do Escritório do Programa de Espaços Espaciais da Apollo, Joseph F. Shea. No encontro em agosto de 1966, a tripulação expressou preocupação com a quantidade de material inflamável (nylon e velcro ) na cabine. Shea deu ordens à sua equipe para remover os produtos inflamáveis da cabine, mas não supervisionou o assunto pessoalmente. Concluindo-se mais tarde que a ordem não foi atendida.

Três dias após o acidente, o Diretor de Operações da Nasa fez um pronunciamento oficial. “Nós estávamos muito fissurados [gung-ho] com os prazos e nos negamos a ver todos os problemas que encontramos a cada dia no noso trabalho. Todo elemento do programa estava com problemas e também estávamos nós.” O escândalo foi imenso e, durante as investigações dos congressistas, não faltaram sugestões de fechar a Nasa. Ela só sobreviveu pelo entusiasmo do presidente Lyndon B. Johnson em fazer valer o desejo de seu antecessor, o falecido John Kennedy, que havia prometido enviar o ser humano à lua em uma década em 1962. 

A missão fracassada era a terceira parte do programa Apollo, que já havia mandado as missões não-tripuladas AS-201, AS-202 e AS-203, duas delas com veículos espaciais. A pedido das viúvas, a Nasa rebatizou postumamente a missão de Apollo 1 e a próxima missão, o teste não-tripulado do foguete Saturn V, em 9 de novembro de 1967, seria a Apollo 4.


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