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Clássico expressionista: Por dentro da obra O Grito

A obra mais famosa de Edvard Munch, e primeiro quadro expressionista da história, surgiu de um ataque de ansiedade do artista

Izabel Duva Rapoport Publicado em 14/09/2019, às 04h00

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- Edvard Munch

Em 1863, nascia o pintor norueguês Edvard Munch. No mesmo ano em que O Piquenique no Bosque, de Édouard Manet, era exposto no Salão dos Rejeitados, chamando a atenção para um movimento que ainda estava surgindo: o impressionismo. A principal proposta do novo estilo era quebrar com as técnicas convencionais do realismo, deixando-as para a fotografia, e trazer justamente o que ela não podia mostrar: as sensações. 

No entanto, Munch (que também era fotógrafo) achava a linguagem dos impressionistas superficial e científica, discreta demais para expressar tudo o que sentia. E não era pouco, considerando a trágica história da família: o norueguês perdeu a mãe e a irmã  mais velha ainda na infância e a irmã caçula passou a vida em asilos psiquiátricos.

Tornou-se artista sob forte oposição do pai, que morreu quando Munch tinha 25 anos, deixando-o na pobreza. Além disso, sempre viveu na boemia, entre bebedeiras, brigas e romances passageiros, tornando-se amigo do filósofo niilista Hans Jaeger, que acreditava que o suicídio era a forma máxima da libertação.

Fruto de suas obsessões, O Grito não foi sua primeira tela, mas a que o tornaria célebre. Sua inspiração, ao que tudo indica, veio de um ataque de pânico, que ele escreveu em seu diário um ano antes do quadro: “Estava andando por um caminho com dois amigos – o sol estava se pondo – quando, de repente, o céu tornou-se vermelho como o sangue. Eu parei, sentindo-me exausto, e me encostei na cerca – havia sangue e línguas de fogo sobre o fiorde azul-negro e a cidade. Meus amigos continuaram andando, e eu fiquei lá, tremendo de ansiedade – e senti um grito infinito atravessando a natureza”.

Ali nasceria um novo movimento artístico: O Grito seria a obra fundadora do expressionismo, a principal vanguarda artística alemã dos anos 1910 aos 1930.

O Grito / Crédito: Edvard Munch

 

O Grito

Edvard Munch produziu quatro versões deste quadro, entre 1893 e 1910. A retratada aqui é a de 1893, mas não a primeira. A versão em giz-pastel no Museu Munch, bem mais simples, foi feita poucos meses antes. Há também dezenas de litogravuras em preto e branco, impressas pelo artista nos anos 1890.

Os dois homens que caminham na ponte parecem indiferentes ao desespero da figura central (isso se revela porque não aparecem distorcidos). Estes são os dois amigos de Munch que o acompanhavam e que o deixaram para trás, sem perceber o que acontecia.

Assim como os dois homens ao fundo, a estrada não é distorcida, dando um contraste entre o desespero do pintor e a indiferença da realidade externa. O local foi identificado como a Estrada Valhallveien, que passa pela Colina Ekberg, na região sul de Oslo.

Na capital norueguesa, as condições climáticas às vezes fazem o céu ficar vermelho. Mas existe uma explicação ainda mais curiosa: em 1883 e 1884, a explosão do vulcão Krakatoa, na Indonésia, fez o pôr do sol ficar vermelho por meses na Europa inteira. Ainda que o quadro tenha sido feito anos depois, a memória pode ter servido de inspiração.

Outro contraste na figura é dado pela tranquilidade dos barquinhos no fiorde de Oslo. A estrada é uma atração turística com vista para um dos pontos recreativos mais aprazíveis da capital norueguesa.

Os gritos podem ter sido literais. Em Ekeberg havia dois prédios sombrios: o matadouro principal de Oslo e o asilo psiquiátrico (onde a irmã do artista ficou internada por anos). De lá, se ouviam os gritos dos animais e também dos pacientes com transtornos mentais.

A figura central da obra curva com a distorção da paisagem. Não é um autorretrato. Segundo especialistas, a inspiração pode ser uma múmia peruana, de um guerreiro chachapoya, exibida na Exposição Universal de Paris em 1889. Ela foi enterrada em posição fetal, com as mãos no crânio, sugerindo um grito.