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Há 326 anos, Dandara dos Palmares preferia morrer à submeter-se aos horrores da escravidão

A famosa esposa de Zumbi lutou arduamente contra o sistema servil, e acabou se lançando contra um abismo para não ser levada por seus algozes

Alana Sousa e André Nogueira Publicado em 06/02/2020, às 10h40

Dandara dos Palmares
Dandara dos Palmares - Wikimedia Commons

Zumbi dos Palmares é certamente a liderança negra mais citada nos livros tradicionais de história. Mas tão relevante quanto ele na defesa do Quilombo dos Palmares foi sua companheira, Dandara, que além de dominar técnicas de capoeira, participava ativamente na elaboração de estratégias de resistência do quilombo.

As pesquisas realizadas até hoje levam os historiadores a crer que ela nasceu no Brasil e chegou a Palmares ainda na infância, tendo se juntado, ainda menina, a grupos de luta contra o sistema escravocrata.

A vida de Dandara dos Palmares é repleta de mistérios e nosso conhecimento sobre ela é lacunar, não só porque pouco material foi produzido sobre ela, mas também seu legado foi intencionalmente abalado por seus inimigos escravistas. Além disso, muito do que se fala sobre ela é colocado à sobra de Zumbi.

Porém, a antropóloga Maria Lourdes Siqueira, da Universidade Federal da Bahia, acredita ser possível afirmar que ela tinha ascendência da comunidade africana de Jeje Mahin. Muito se discute sobre a origem dessa mulher.

Dandara teve um papel importante na condução do quilombo de Zumbi e na integração da sociedade de maneira harmônica. Ela fazia parte integrada das atividades produtivas cotidianas do lugar, principalmente na produção de gêneros agrícolas diversos, como a mandioca, o milho, a cana e a banana.

Além de plantar e trabalhar na produção de farinha, Dandara também aprendeu a caçar e teve atuação relevante na posição de caçadora. Para defender o quilombo, pegava em armas liderando forças femininas e masculinas que atuavam na defesa do quilombo contra os ataques portugueses.

Segundo se fala sobre Dandara, cuja documentação sobre é bastante escassa, ela teria sido de suma importância na mudança de rumo que seu quilombo passou em termos de política com os vizinhos no final do reinado de Ganga Zumba.

Zumbi, esposo de Dandara / Crédito: Wikimedia Commons

 

O líder que antecedeu Zumbi tentava manter relações amigáveis com os portugueses e holandeses que sustentavam o sistema escravista colonial na colônia brasileira, e Dandara teria sido relevante no desenvolvimento da personalidade política de Zumbi, que rompeu com Ganga Zumba e assumiu uma posição mais dura com o governo de Pernambuco.

Veementemente contrária à escravidão, o que não era consenso entre os negros livres que se opunham a Portugal, Dandara nunca aceitou o acordo feito por Ganga com os colonos europeus, que previa a libertação dos palamarinos capturados em troca do retorno de escravos fugidos a Pernambuco, pois esse trato não previa o fim do sistema servil.  

Com Zumbi dos Palmares teve três filhos. sua vida ainda é envolta de mistérios e especulações, nem seu rosto é conhecido.

Dandara teve um fim trágico e honrado: em 6 fevereiro de 1694 ela se jogou de uma pedreira ao abismo, uma decisão extrema para não se entregar às forças militares que subjugaram o quilombo e voltar para a escravidão. Dandara é símbolo da resistência à escravidão e dos sacrifícios feitos e preferidos por aqueles que lutaram contra ela com todas as forças.

Em Palmares chegaram a viver 30 mil pessoas distribuídas em aldeias. Sua existência ainda hoje é vista como o maior ato de resistência contra o regime escravocrata. Atualmente, Dandara é aclamada oficialmente como Heroína da Pátria. Decisão foi feita em 2019, através da Lei de número 13.816.


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