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Marquês de Sade: O homem libertino que deu origem ao termo sadismo

Conheça a vida e a obra de Marquês de Sade, o homem que criou conceitos filosóficos cujas ideias eram revolucionárias em seu tempo

Giovana Sanchez Publicado em 06/10/2019, às 09h00 - Atualizado às 14h33

Capa do filme “Contos proibidos de Marquês de Sade”, dirigido por Philip Kaufman
Capa do filme “Contos proibidos de Marquês de Sade”, dirigido por Philip Kaufman - Reprodução/Quills

O local era o ermo castelo Silling, em meio à Floresta Negra. Quatro nobres e quatro prostitutas lá se enclausuraram para praticar atos vistos abomináveis e indizíveis, que poderiam levá-los à forca. Mas não praticar entre si: o objeto de suas afeições eram 36 jovens, torturados dia a dia. Até serem sacrificados e descartados ao final. 

Esses atos brutais existiram apenas na mente de Donatien-Alphonse-François de Sade. São Os 120 Dias de Sodoma.

Esses e outros livros, pornográficos e libertinos, tiveram papéis contraditórios na vida de seu autor. Por um lado, o transformaram, muitos anos após sua morte, em um gênio precursor de correntes filosóficas e autor de obras consideradas à frente de seu tempo. Mas, por outro, são responsáveis pela confusão que se faz entre sua vida e sua obra.

A vida

Marquês de Sade / Crédito: Wikimedia Commons

 

Não que Sade fosse santo. O homem que deu origem à palavra sadismo e passou um terço de sua vida preso teve, sim, suas experiências sexuais um tanto incomuns. Mas não fez diferente de outros nobres de sua época.

“Libertinagem é uma palavra típica do século 18 e ‘libertino’ é um tipo social da época”, afirma Eliane Robert Moraes, professora de Estética e Literatura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “O libertino era um aristocrata que desafiava os valores dos homens e de Deus”, diz Eliane, que é autora de, entre outros, Lições de Sade: Ensaios sobre a Imaginação Libertina.

Sade tampouco fez o que escreveu. Sua literatura deu abertura para uma série de mitos construídos sobre si. Como o de que, por exemplo, teria passado seus últimos dias encarcerado solitário, escrevendo com sangue e com as próprias fezes para substituir a pena que havia sido tirada dele, como mostra o filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, de 2000.

Na verdade, ele passou o fim da sua vida – tão obeso que os movimentos eram prejudicados – em um manicômio, mas ao lado da mulher e de uma amante, e escrevendo muito.

Sade era, antes de tudo, um nobre. Filho de um conde diplomata e militar, ele nasceu em junho de 1740 no palácio de La Coste, em Paris. Seguiu a carreira militar e, aos 16 anos, lutou na Guerra dos Sete Anos, na qual a França e a Áustria disputaram com a Inglaterra e a Prússia territórios e destinos comerciais.

Quando voltou do conflito, foi obrigado pelo pai a casar-se com Renée-Pélagie de Montreuil. Filha de uma família de nobreza recente e com influência na corte, Renée tinha dois problemas, que se tornariam as perdições da vida de Sade: uma mãe muito poderosa e uma irmã mais jovem e mais bonita.

Escândalos

O primeiro escândalo na vida do marquês ocorreu cinco meses após o casamento. Em outubro de 1763, foi acusado pela prostituta Jeanne Testard de obrigá-la a renegar Deus e a realizar atos de sacrilégio com imagens cristãs enquanto mantinham relações sexuais.

Acabou preso, mas, graças à influência da sogra, ficou na cadeia menos de um mês. A sogra ainda o livrou da forca em 1772, quando Sade intoxicou uma prostituta – em uma festa, ofereceu à infeliz um bombom com um licor afrodisíaco e ela quase morreu.

Sua esposa sabia de suas traições, mas, mesmo assim, manteve-se a seu lado por 27 anos, além de dar-lhe três filhos. Um deles, Donatien-Claude-Armande, queimou quase todos os manuscritos e correspondências do pai após sua morte. Se Renée fechava os olhos para as escapulidas do marido, o mesmo não fazia sua mãe.

De protetora, a sogra passou a perseguidora quando Sade revelou que mantinha um caso com a cunhada, Anne-Prospère. O casal fugiu para a Itália. Ela conseguiu localizá-los e pediu ao rei da Sardenha em pessoa, Carlos Emanuel III, que expedisse uma ordem de prisão contra o marquês – embora sem acusação alguma.

A sogra ainda se incumbiu das despesas de seu cárcere forçado na fortaleza de Miolans, em Savóia, entre a Itália e a França. Em abril de 1773, o marquês conseguiu fugir.

Em 1775, outra confusão. Uma orgia envolvendo empregados do castelo, Sade e a própria mulher, Renée, veio à tona. O processo foi aberto pelo pai de uma das criadas que participaram da festa – além de enfrentar o marquês nos tribunais, ele deu dois tiros em Sade, que se salvou graças à má pontaria do atirador.

Em janeiro de 1777, a sorte do nobre mudou. A sogra conseguiu que o rei emitisse uma carta de prisão, chamada lettre de cachet. Dessa vez, por 13 anos. E também sem um crime propriamente dito.

A obra

Ilustração do seu livro Juliette, 1800 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Até então, Sade era apenas um cara com uma vida amorosa apimentada. Na prisão, isso mudou. Lá – onde, ao todo, passou quase um terço da sua vida lendo muito –, produziu toda sua obra. Em 1784, foi transferido para a Bastilha, onde escreveu contos e novelas (cerca de 50) e produziu seu primeiro romance, Os 120 Dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem, concluído em apenas 37 dias.

Em 2 de julho de 1789, 12 dias antes da tomada da Bastilha, Sade foi transferido para o Sanatório de Charenton sem poder levar nada. Morreu sem saber que seus manuscritos foram achados por um guarda e publicados – mesmo que apenas em 1935.

Se existe uma coisa que o autor Sade não faz é poupar seus leitores. Inspirado nas sociedades do amor formadas pelos aristocratas de sua época para satisfazer desejos sexuais, o marquês escreveu a história de uma comitiva que realiza em um castelo as mais bizarras experiências sexuais. Grande parte da obra é dedicada à pedofilia e à descrição de práticas coprofílicas.

Em 1790, Sade foi anistiado pela Revolução e deixou o manicômio. Foi quando Renée o abandonou. Dias depois, porém, o francês conheceu a mulher que seria sua companheira pelo resto de seus dias, Marie-Constance Renelle. E, com seus bens confiscados pela Revolução, envolveu-se na política: virou comissário para a administração de hospitais de um distrito de Paris.

Três anos depois, voltou à prisão. A acusação agora era a de se recusar a punir e a condenar os réus: o marquês era malvisto pelos radicais revolucionários por sempre procurar o meio-termo e ser contra a pena de morte. Em liberdade, publicou A Filosofia na Alcova.

No livro, conta a história de Eugénie, jovem que tem aulas de libertinagem em uma orgia entremeada por discussões filosóficas. Nele, faz uma irônica denúncia aos revolucionários. Acusado de moderatismo, escapou da guilhotina em julho de 1794.

Ilustração o livro Justine / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em março de 1801, com a França sob a batuta de Napoleão, Sade foi levado ao manicômio de novo – e nunca mais o dei­xou. Aos 74 anos, obeso, morreu em sua cela. Foi enterrado no cemitério de Charenton. Sua cova não tinha nenhuma inscrição, apenas uma cruz.

O legado

Apesar de produzir uma obra extensa – da qual apenas um terço foi publicado –, Sade foi um escritor pouco lido em sua época. “Ele sabia que o que escrevia não seria vendido na esquina livremente. Sempre foi um autor clandestino”, afirma Eliane Moraes. Assim ele permaneceu durante todo o século 19.

Em 1834, uma edição do Dicionário Universal inaugura o termo sadismo, com o significado de “aberração horrível do deboche; sistema monstruoso e anti-social que revolta a natureza”. O nome só se torna famoso, porém, quando usado pelo psiquiatra alemão Richard Freiherr von Krafft-Ebing, num catálogo de psicopatias sexuais, em 1886.

Os livros de Sade chegaram a ser julgados pelos tribunais franceses em 1950, sob a alegação de afronta à moral e aos bons costumes. Aos poucos, artistas como Salvador Dalí e André Masson começam a se inspirar nas imagens sadianas de crueldade para compor suas obras.

Para a filosofa e escritora Simone de Beauvoir, a filosofia radical de liberdade de Sade precedia o existencialismo em mais de um século. Há quem o veja, ainda, como um precursor do estudo do foco da sexualidade que permeia toda a psicanálise de Sigmund Freud. Após mais de dois séculos de sua morte, o marquês recebeu dos surrealistas o apelido de divino, entrando para o hall de gênios da literatura e da filosofia.

“Ele coloca uma questão fundamental: como lidar com nossas paixões mais cruéis para encontrar um ponto de superação e de civilização”, afirma Rodolfo García Vázquez, um dos fundadores da Companhia de Teatro Os Satyros, que interpreta Sade desde a década de 1990. Ainda hoje o pensamento do marquês é provocador. Não fosse assim, não seria Sade.