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Museu de Stalin em Khoroshevo: A instituição que exalta o ditador como herói

Sustentado na memória da Segunda Guerra, o museu localizado na Rússia tenta remontar um possível momento de glória do antigo tirano

Jânio de Oliveira Freime Publicado em 08/08/2019, às 10h00

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- Crédito: Reprodução

Nos últimos tempos, a memória do povo russo em relação a Stalin vem tendo uma guinada positiva. Após o colapso da URSS, a retomada de sua figura ocorreu em massa nas instituições políticas do Estado e, hoje em dia, mais de 51% da população russa declara positiva sua visão sobre o antigo líder. 

Isso ficou perceptível em 2015, quando uma pequena casa na cidade de Khoroshevo, onde Stalin se refugiou num bunker para discutir estratégias militares em 1943, foi transformada em um museu em sua homenagem e em comemoração aos 70 anos da Guerra. A casa, de dois cômodos, foi a localidade da única viagem de Stalin ao front de guerra durante o combate à invasão alemã.

O museu nasceu em um momento da Rússia em que o país era marcado pelo isolamento geopolítico e pela complicação econômica, fazendo sentido que o governo apelasse para um momento de conquistas passadas, sobre uma época em que a economia soviética era positiva. Este foi um dos maiores tributos ao líder georgiano desde a retirada de seu corpo do mausoléu de Lênin.

Estátua de Stalin no museu / Crédito: Russian Guard Service

 

A instalação pode ser acessada a três horas de carro saindo de Moscou e inclui a série de intervenções culturais feitas no oblast de Tver pela Sociedade de História Militar, sendo subsidiada e coordenada pelo Ministério da Cultura. Entre outras coisas, o feito colabora com o fomento da identidade coletiva russa e de uma visão positiva e orgulhosa do passado. No entanto, essa visão tem sido combatida pelo grupo Memorial, organização em prol dos direitos humanos na Rússia.

O circuito do museu inclui estruturas da época da Segunda Guerra e monumentos em sua lembrança - o projeto é centrado na vitória soviética apelidada de Grande Guerra Patriótica contra os nazistas, o maior feito de Stalin. Lydia Kozlova, diretora do museu, reforça que a instituição não segue a cartilha ocidental deturpada da figura do líder, colocando que a “finalidade do museu é guardar a nossa história, proteger os fatos”.

A organização Memorial, em combate ao projeto representado por esse novo museu, está reunindo documentos sobre os expurgos stalinistas e trabalhando para repercutir a memória das vítimas da repressão.

No dia 30 de outubro de 2015, data em que se comemorava o Dia da Memória das Vítimas da Repressão Política, foi aberto um museu público sobre os gulags no centro de Moscou, no entanto, isso ocorreu no mesmo ano em que um importante museu no gulag Perm-36 foi fechado, acusado de ser um agente do exterior.

O museu é mantido por uma equipe de mediadores culturais / Crédito: Reprodução

 

"Evidentemente, começamos a enxergar Stalin sob uma ótica mais favorável", explica Sergei Zaborovsky, na época, operador de tours a serviço da Sociedade de História Militar em comunicado. "Por que neste momento? Talvez porque a nossa situação no mundo não esteja ótima agora. Precisamos de força. Precisamos de alguma coisa que nos una."

Muitos cidadãos de Khoroshevo encaram de maneira positiva a existência da instituição. Ao mesmo tempo em que Stalin é visto como responsável pela paz interna na URSS, outros sentem orgulho em ter uma instalação em homenagem ao líder que governou a Rússia entre 1927 e 1953.