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“A História nunca é simples”: a saga do Barão de Cotegipe, o inimigo da Lei Áurea

Em entrevista exclusiva à Aventuras na História, o historiador Bruno Antunes, revelou a inesperada história do político

Pamela Malva Publicado em 02/12/2020, às 17h30 - Atualizado em 13/05/2021, às 10h04

Retrato de João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe
Retrato de João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe - Museu Histórico Nacional, via Wikimedia Commons

Considerado um dos personagens mais emblemáticas do Brasil Império, Barão de Cotegipe ficou conhecido por ocupar vários cargos de alto poder. Descendente de Gaspar Nieuhoff van der Ley, o capitão da cavalaria dos Países Baixos, Cotegipe cresceu entre a elite da época.

Nascido no dia 23 de outubro de 1815, na Villa da Barra, na antiga capitania de Pernambuco — atual município de Barra, na Bahia — o homem foi batizado de João Maurício Wanderley.

Ao longo dos anos, o Barão assumiu uma personalidade conservadora e escravista. Contudo, o que poucas pessoas sabem é que o personagem, na verdade, era negro.

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, o renomado historiador brasileiro, Bruno Antunes, revelou a verdade por trás da conflituosa imagem do Barão de Cotegipe.

Inimigo da Lei Áurea

Um dos traços mais marcantes da personalidade do Barão de Cotegipe foi sua posição em relação aos escravizados. “O personagem foi o último primeiro-ministro do Império [que era um] escravagista radical”, explicou Bruno.

Representação de alguns políticos do Império / Crédito: Alfredo Rigaud / Domínio Público, via Wikimedia Commons

 

Em Live transmitida pelo Instagram do site Aventuras na História, o historiador contou que Cotegipe “defendia, de fato, que se prolongasse a escravidão”. Nesse sentido, ele chegava a “cozinhar a Princesa Isabel em banho maria” para que ela estendesse o regime.

“Ele falava 'Vossa Alteza, não se preocupe, [a escravidão] é coisa de 3 ou 4 anos’”, narrou Bruno. “Quer dizer, em pleno 1888, o Barão queria esgarçar uma coisa que já tinha sido esgarçada até então”, a fim de impedir a implementação da Lei Áurea.

Uma narrativa modificada

Acontece que, hoje em dia, as pessoas imaginam que o Barão de Cotegipe tinha esse pensamento por ser mais um político “branco de olhos azuis”, como classificou o historiador. Só que, segundo Bruno, as coisas não eram bem assim.

Por mais que as pessoas imaginem “que havia uma classe senhorial branca de olhos azuis massacrando os escravizados, que eram negros e índios”, explicou o especialista, “os dirigentes não eram assim. Isso é um delírio”. 

Retrato de João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe / Crédito: Azevedo / Galeria de Ministros das Relações Exteriores do Brasil, via Wikimedia Commons

 

“Se você for racializar a história e os personagens do século 19, o Barão de Cotegipe era negro”, problematizou Bruno. “Se colocar nos termos atuais, ele era um baiano, ou mulato, como se dizia na época, que foi embranquecido em pinturas e fotografias.”

Um político controverso

Mesmo sendo herdeiro de um homem que veio para o Brasil durante a invasão holandesa em Pernambuco, o Barão de Cotegipe viveu e cresceu na Bahia. Logo que terminou o ensino básico, ele se formou na Faculdade de Direito de Olinda, em 1837.

Depois da graduação, retornou para a província onde nasceu e deu início à sua carreira como político. Foi assim que Cotegipe ocupou cargos como juiz municipal, juiz da Fazenda em Salvador e curador geral dos órgãos.

Já considerado um escravagista, o Barão foi nomeado presidente da província da Bahia pelo próprio Dom Pedro II, entre 1852 e 1855. Depois disso, ainda foi senador, ministro da Marinha, ministros das Relações Exteriores e Ministro da Fazenda do Império.

Política ingrata

Com tamanho currículo, era de se esperar que o escravista desejasse impedir qualquer avança contrário aos seus ideais. Assim, ele foi um dos cinco senadores do Império que votaram contra a aprovação da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, em 1888.

Retrato da Princesa Isabel / Crédito: Insley Pacheco (1830-1912) / Domínio Público, via Wikimedia Commons

 

Reza a lenda que, logo que a princesa promulgou a nova legislação, Cotegipe foi cumprimentar Dona Isabel. "A senhora acabou de redimir uma raça e perder o trono!", ele bradou, insatisfeito. Em resposta, a nobre afirmou: "Se mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para a libertação dos negros".

Após a assinatura da Lei Áurea, Cotegipe foi escolhido para se tornar o presidente do Banco do Brasil. Ele permaneceu no cargo até sua morte, que veio no dia 13 de fevereiro de 1889, no Rio de Janeiro. Na época, o político tinha 73 anos. 

História e lados

Para Bruno Antunes, que escreveu o livro "Alegrias e Tristezas", sobre a Princesa Isabel, é importante pontuar as diferentes formas como as personalidades foram narradas com o passar do tempo. “Se você for ver, a coisa era muito mais complexa”, contou.

“Se a gente tinha ministros de estado, conselheiros de estado, senadores do império, deputados gerais que eram mulatos ou, no termos atuais, negros”, Bruno explicou, “então você fica chocado com essa informação”.

De acordo com o historiador, que ainda estudou diversos aspectos do século 19, “as pessoas [na época o Império] eram negras e mestiças e, ainda assim, eram escravistas e escravocratas”. Por fim, ele pontuou, didático: “A História nunca é simples”.


+Assista a live completa com Bruno Antunes, disponível no perfil da AH:

 
 
 
 
 
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