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Inimigo da Lei Áurea: A verdade por trás do Barão de Cotegipe

Em entrevista à AH, o historiador Bruno Antunes conta que, apesar de escravista, o personagem era bem diferente do esperado

Pamela Malva Publicado em 02/12/2020, às 17h30

Retrato de João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe
Retrato de João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe - Wikimedia Commons

Descendente de Gaspar Nieuhoff van der Ley, um capitão da cavalaria dos Países Baixos, o Barão de Cotegipe foi uma das imagens mais emblemáticas do Brasil Império. Nascido em 23 de outubro de 1815, ele ocupou diversos cargos de poder.

João Maurício Wanderley, como foi batizado, veio ao mundo na Villa da Barra, na antiga capitania de Pernambuco — atual município de Barra, na Bahia. Herdeiro de uma família proeminente, então, ele cresceu entre a elite do Império.

Com o passar dos anos, João assumiu uma personalidade conservadora e escravista, bastante comum aos políticos da época. O problema com a narrativa de Cotegipe, segundo o historiador Bruno Antunes, no entanto, é que o personagem era negro.

Representação de alguns políticos do Império / Crédito: Wikimedia Commons

 

Inimigo da Lei Áurea

Um dos traços mais marcantes da personalidade do Barão de Cotegipe foi sua posição em relação aos escravizados. “O personagem foi o último primeiro-ministro do Império [que era um] escravagista radical”, explica Bruno.

Em Live transmitida pelo Aventuras na História, o historiador contou que Cotegipe “defendia, de fato, que se prolongasse a escravidão”. Nesse sentido, ele chegava a “cozinhar a Princesa Isabelem banho maria” para que ela estendesse o regime.

“Ele falava 'Vossa Alteza, não se preocupe, [a escravidão] é coisa de 3 ou 4 anos’”, narra Bruno. “Quer dizer, em pleno 1888, o Barão queria esgarçar uma coisa que já tinha sido esgarçada até então”, a fim de impedir a implementação da Lei Áurea.

Lei Áurea ao lado de retrato da Princesa Isabel / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma narrativa modificada

Acontece que, hoje em dia, as pessoas imaginam que o Barão de Cotegipe tinha esse pensamento por ser mais um político “branco de olhos azuis”, como classificou o historiador. Só que, segundo Bruno, as coisas não eram bem assim.

Por mais que as pessoas imaginem “que havia uma classe senhorial branca de olhos azuis massacrando os escravizados, que eram negros e índios”, explica o especialista, “os dirigentes não eram assim. Isso é um delírio”. 

“Se você for racializar a história e os personagens do século 19, o Barão de Cotegipe era negro”, problematiza Bruno. “Se colocar nos termos atuais, ele era um baiano, ou mulato, como se dizia na época, que foi embranquecido em pinturas e fotografias.”

Um dos poucos retrados do Barão de Cotegipe / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um político controverso

Mesmo sendo herdeiro de um homem que veio para o Brasil durante a invasão holandesa em Pernambuco, o Barão de Cotegipe viveu e cresceu na Bahia. Logo que terminou o ensino básico, ele se formou na Faculdade de Direito de Olinda, em 1837.

Depois da graduação, retornou para a província onde nasceu e deu início à sua carreira como político. Foi assim que Cotegipe ocupou cargos como juiz municipal, juiz da Fazenda em Salvador e curador geral dos órgãos.

Já considerado um escravagista, o Barão foi nomeado presidente da província da Bahia pelo próprio Dom Pedro II, entre 1852 e 1855. Depois disso, ainda foi senador, ministro da Marinha, ministros das Relações Exteriores e Ministro da Fazenda do Império.

O Barão de Cotegipe em seu gabinete / Crédito: Wikimedia Commons

 

Política ingrata

Com tamanho currículo, era de se esperar que o escravista desejasse impedir qualquer avança contrário aos seus ideais. Assim, ele foi um dos cinco senadores do Império que votaram contra a aprovação da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, em 1888.

Reza a lenda que, logo que a princesa promulgou a nova legislação, Cotegipe foi cumprimentar Dona Isabel. "A senhora acabou de redimir uma raça e perder o trono!", ele bradou, insatisfeito. Em resposta, a nobre afirmou: "Se mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para a libertação dos negros".

Após a assinatura da Lei Áurea, então, Cotegipe foi escolhido para se tornar o presidente do Banco do Brasil. Ele permaneceu no cargo até sua morte, que veio no dia 13 de fevereiro de 1889, no Rio de Janeiro. Na época, o político tinha 73 anos. 

Retrato colorizado da Princesa Isabel / Crédito: Wikimedia Commons

 

História tem diversos lados

Para Bruno Antunes, que escreveu o livro Alegrias e Tristezas, sobre a Princesa Isabel, é importante pontuar as diferentes formas como as personalidades foram narradas com o passar do tempo. “Se você for ver, a coisa era muito mais complexa”, conta.

“Se a gente tinha ministros de estado, conselheiros de estado, senadores do império, deputados gerais que eram mulatos ou, no termos atuais, negros”, Bruno explica, “então você fica chocado com essa informação”.

De acordo com o historiador, que ainda estudou diversos aspectos do século 19, “as pessoas [na época o Império] eram negras e mestiças e, ainda assim, eram escravistas e escravocratas”. Por fim, ele pontua, didático: “A História nunca é simples”.


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