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Insalubridade, castigos e uma refeição diária: os horrores das senzalas brasileiras

Em uma situação desumana, homens e mulheres vindos da África enfrentavam as maiores adversidades para realizarem suas práticas religiosas e culturais às sombras

André Nogueira Publicado em 04/04/2020, às 08h04

Essa era a infeliz realidade ainda no século 19
Essa era a infeliz realidade ainda no século 19 - Domínio Público

“Negras Mulheres, suspendendo as tetas negras. Magras crianças, cujas bocas pretas regam o sangue das mães”. É com as palavras de Castro Alves que se inicia a descrição das atrozes senzalas, espaços dedicados ao confinamento cotidiano dos negros escravizados nos engenhos de açúcar do Brasil, lugares que tentavam reproduzir a mínima salubridade necessária para a sobrevivência da mão de obra, mas desgastante o suficiente para que facilitasse o poder dos feitores.

Para começar, esqueça a imagem clássica das senzalas turísticas: debaixo da casa grande, havia um local de confinamento especial, quase que de castigo; mas a grande massa de escravizados ficava em edificações diferentes e minimamente distanciadas da casa do colonizador (afinal, é mais estratégico em caso de levantes). Aos montes, essas residências menores abrigavam, em casos de engenhos mais ricos, milhares de cativos.

Os escravos domésticos eram separados dos da lavoura, criando uma hierarquia virtual que os desunia, e havia um esforço por parte da administração em misturar povos de etnias, culturas e idiomas diferentes entre os setores das senzalas, para impedir maior articulação e prática de idiomas ou ritos não-cristãos.

Senzala que virou museu no Ceará / Crédito: Wikimedia Commons

 

Porém, fato é que existem muitas dificuldades em compreender as condições da vida cotidiana dos homens e mulheres das senzalas, o que envolve lacunas que normalmente são superadas pela arqueologia. “Em relatos históricos, geralmente impregnados de eurocentrismo, não são incomuns menções à insalubridade das casas pobres, retratadas como insuportavelmente sujas, empoçadas e enfumaçadas, [...]."

"As descrições do interior das senzalas são mais raras, já que só eventualmente preocupavam-se os cronistas em descrever seu interior”, afirma Marcos André Torres de Souza, arqueólogo do Museu Nacional no artigo intitulado A vida escrava portas adentro: uma incursão as senzalas o Engenho de São Joaquim, Goiás, século XIX.

Nos poucos relatos escritos sobre senzalas no século 19, o jornalista francês Charles Ribeyrolles trouxe uma impressão pouco surpreendente: os locais eram marcados por falta de higiene, e marcadas por infecções e insalubridades. Porém, tudo isso era, de alguma maneira, contornado pelos habitantes que, sendo seres humanos, cuidavam da saúde e realizavam práticas culturais na medida em que conseguiam, resistindo à vida cativa.

Gravura encontrada em senzala em Ouro Preto, Minas Gerais, onde retrata-se pessoas trabalhando em pilão africano / Crédito: Philipe Passos/Arquivo pessoal

 

“Os itens de mobiliário são raros”, lembra Souza, mas muitos objetos encontrados em sítios coloniais provam que os escravizados nunca deixaram de coexistirem com atividades de cunho cotidiano, e até religioso, de matrizes africanas.

Homens e mulheres mantinham rituais às escondidas, muitas vezes mudando danças e liturgias para que passassem despercebidos (como é o caso da capoeira, lida como arte, e atividades religiosas com orixás, descritas inteligentemente como “brincar, folgar, cantar em todos os tempos que quisermos sem que nos empeça e nem seja preciso licença” em uma exigência num tratado de paz após uma greve de escravos ocorrida no Engenho de Santana, Bahia, em 1789.

As senzalas costumavam ser ambientes sem janelas ou camas, e os escravos dormiam no chão de terra ou em esteiras de tábua. Por isso, costumava-se acender uma fogueira no seu interior, para aquecimento e iluminação.

Pela falta de cômodos, pouca privacidade havia, e muitas vezes momentos íntimos e relações sexuais ocorriam em meio à multidão confinada. O mais próximo de um banheiro que havia era uma latrina no fundo do barracão, o que fazia o interior ter um cheiro desconfortável.

Era realizada, em geral, uma refeição por dia, com comida insuficiente para uma boa nutrição (normalmente, os escravos comiam restos). A carne era rara e também tornou-se corriqueiro que, recebida a ração, ela passava novamente por um processo de cozimento num panelão manipulado por escravas, para que se tornasse mais tragável.

A falta de condições saudáveis era uma estratégia de dominação das pessoas, que eram maioria nos engenhos, o que se somava ao medo, pois na frente das senzalas sempre havia uma equipe bem armada de feitores fazendo guarda.

Maquete de senzala de engenho do Rio de Janeiro / Crédito: Wikimedia Commons

 

Por fim, fica a reflexão apontada pelo estudo já citado de Torres de Souza. Segundo ele, “os espaços das senzalas eram determinados pelo proprietário. Era ele o responsável por definir as características de cada residência, incluindo sua localização, limites, forma e aspecto. O mesmo, no entanto, não pode ser dito sobre sua vida interior. Embora limitados por um ambiente altamente normatizado, os escravos foram capazes de estruturá-lo de modo a atender suas necessidades, lançando mão, para isso, de referenciais por eles forjados”.


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