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Irmã Dorothy, uma vítima da sangrenta disputa de terras no Brasil

A religiosa veio para o Brasil na década de 70 e por aqui ficou, colecionando admiradores por seu trabalho com a comunidade, mas também inimigos perigosos

Caio Tortamano Publicado em 29/04/2020, às 18h00

Irmã Dorothy Stang, ativista e missionária
Irmã Dorothy Stang, ativista e missionária - Divulgação

Dorothy Mae Stang, uma missionária americana que caiu nas graças da população brasileira nasceu em Ohio, nos Estados Unidos. Dorothy entrou na vida religiosa com 19 anos, e passou de 1951 até 1966 como professora em escolas de sua congregação na sua terra natal.

Dois anos depois de se formar, em 1966, iniciou seu ministério em terras brasileiras, mais precisamente na cidade de Coroatá, no Maranhão, mas seria na Amazônia que as suas ações missionárias em prol do bem-estar social ficariam reconhecidas em grande proporção.

Chegou à Amazônia no início da década de 1970, e realizava trabalhos juntamente com trabalhadores rurais da região do Xingu (um dos cursos de água do Rio Amazonas), ou seja, nas regiões mais distantes do Brasil.

Sua pastoral ficou marcada pela busca de geração de empregos e renda na região por meio de projetos de reflorestamento, especialmente nas áreas mais degradadas do país. Os beneficiados com os projetos eram os trabalhadores rurais que construíram a rodovia Transamazônica — rodovia federal que cruza o país do litoral até a Amazônia —, e buscava minimizar os conflitos decorrentes das disputas de terra na região, algo marcante em locais do Brasil com grandes extensões de propriedade privada.

Irmã Dorothy era muito próxima dos movimentos sociais do Pará. Quando começou com o projeto de desenvolvimento sustentável na pequena Vila de Sucupira, que estava a 500 quilômetros de distância da capital Belém, com certeza não imaginava que o seu impacto seria do tamanho que foi.

As passeatas em prol da redistribuição de terras e maior conscientização quanto ao desmatamento da Amazônia tomaram grandes proporções, e levou Dorothy a uma posição de liderança que foi reconhecido em todo o país — e fora do Brasil também. 

O diálogo constante com lideranças do campo, da política e de instituições religiosas buscava uma reforma agrária para os trabalhadores da Transamazônica, sempre tratando de soluções pertinentes, que mudariam a condição social das pessoas.

Em 1975, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) fundou a Comissão Pastoral da Terra (CPT), uma pastoral que pudesse discutir e organizar lutas pelos trabalhadores rurais nas áreas mais remotas do país — como era o caso de Vila de Sucupira.

Desde o momento de sua fundação, Dorothy entendeu que essa seria a luta pela qual dedicaria a sua vida — e pela qual viria a morrer, como foi comprovado mais tarde.

A irmã acreditava na educação como forma primordial de se conseguir uma sociedade mais justa, muito por conta de sua formação pedagógica e de ter lecionado em escolas ainda nos Estados Unidos. Por isso, ela ajudou a fundar a primeira escola de formação de professores em toda Transamazônica, chamada de Escola Brasil Grande.

Porém, a luta de Dorothy não angariou somente admiradores e fãs. Por tratar de um assunto tão delicado da região, especialmente por envolver pessoas influentes e abastadas, o combate pela redistribuição de terras é marcada historicamente por mortes marcantes, como a de Chico Mendes.

Isso não abalava a mulher, que ao ser questionada sobre temer pela própria vida afirmou: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”.

A ideologia nobre de Dorothy acabou custando sua vida, depois de anos de luta, em fevereiro de 2005, a irmã foi brutalmente assassinada pela manhã. Sua morte aconteceu em uma estrada alternativa, de difícil acesso. Ela recebeu seis tiros de um homem, um na cabeça e outros cinco espalhados pelo corpo.

Uma testemunha conta que antes de matá-la, o assassino perguntou se ela portava uma arma, ao que a religiosa respondeu “essa é minha arma”, e apontou para a bíblia que carregava junto a si.

Túmulo de Dorthy, em Anapu (PA) / Crédito: Wikimedia Commons

 

A morte só viria a ter culpados em 2019, quando a Polícia Civil do Pará prendeu o fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão como o mandante do assassinato. Em 2020, o homem suspeito de ter efetivamente matado a religiosa foi preso no interior de São Paulo, em Itapetininga. O nome do preso não foi divulgado, e a polícia chegou até ele por meio de uma denúncia anônima — atualmente o criminoso cumpre 25 anos de pena.


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