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Li Zhisui, o médico que revelou a monstruosa face oculta de Mao Tsé-Tung

Oriundo de uma longa linhagem de médicos, Li Zhisu ficou extremamente honrado quando foi alocado para servir Mao, no entanto, os 22 anos de serviço se tornaram memórias horrendas do revolucionário chinês

Fabio Previdelli Publicado em 07/01/2021, às 10h28

Li Zhisui ao lado de Mao Tsé-Tung
Li Zhisui ao lado de Mao Tsé-Tung - Arquivo Público

Responsável por liderar a Revolução Chinesa e por ser o fundador da República Popular da China, Mao Tsé-Tung tornou-se governante do país em 1949, permanecendo nessa função até sua morte, em 1976. 

Sob sua liderança, o país asiático passou por profundas transformações, com as primeiras medidas de Mao mirando a recuperação econômica da China. Para isso, um de seus planos de reforma agrária foi a tomada de terras dos senhores feudais e a distribuição aos camponeses mais necessitados. 

Durante anos, a visão que as pessoas tinham de Mao — de um grande revolucionário modernizador e salvador nacional — se tornou insustentável, com muitos o passando a enxergar como um ser tragicamente falho e inescrupuloso. Muita dessa visão, no entanto, só foi possível graças aos relatos de Li Zhisui, médico pessoal do líder comunista.  

Mao Tsé-tung proclamando a fundação da República Popular da China / Crédito: Wikimedia Commons

 

Os relatos do médico foram registrados no livro “A Vida Provada do presidente Mao”, publicado em 1994. Partes de seus relatos foram repercutidos no ano seguinte, em matéria publicada no The Independent.  

O médico

Descendente de uma longa linhagem de médicos, o jovem Li Zhisui desejava atuar como cirurgião. Assim, ofereceu seus trabalhos à emergente República Popular da China, extremamente feliz quando foi alocado para servir Mao

Porém, seus relatos desses 22 anos passaram de um sonho para uma história de terror, que terminou quando o revolucionário deu seu último suspiro.

A morte de Mao foi um alívio para Li, pelo menos até certo ponto, já que ele tinha medo de que, na atmosfera cheia de intrigas do palácio, alguns daqueles que disputavam o poder pudessem acusá-lo de ter causado a morte do líder. 

Em 1957, Li Zhisui (primeiro da direita) tirou uma foto com Mao Tsé-Tung quando o líder chinês visitou a União Soviética / Crédito: Arquivo Público

 

A serviço de Tsé-Tung, Li se sentiu afrontado com as crenças e hábitos pessoais do governante chinês, que acreditava que poderia ganhar a longevidade ao se deitar com o maior número possível de mulheres — tendo uma certa preferência por camponesas pouco sofisticadas, que eram recrutadas para seu séquito.  

A pesquisa do médico explica que ele costumava nadar com certa frequência na piscina anexa ao seu pavilhão de Zhongnanhai. Com isso, se recusava a tomar banho. Porém, a realidade não era bem essa, já que a única coisa que Mao provinha para elas eram doenças venéreas. 

Outro ponto que ressalta a falta de seus cuidados pessoais era que o revolucionário não escovava os dentes, os ‘limpando’ apenas quando ingeria chá chinês e mastigava folhas com seus dentes esverdeados e cobertos de placas.  

Mao também sofria de insônia durante seus longos períodos de inatividade, porém, de acordo com o médico, dormia muito bem quando se empenhava em planejar a queda de alguém próximo.  

Crenças 

Em seu livro, Li registra a crença irreal que Mao tinha de que o “espírito” do homem poderia superar todas suas impossibilidades físicas e econômicas. Este pensamento, inclusive, causou a morte de milhões.  

Zhisui também registra sua própria inquietação na festa em Zhongnanhai, durante a grande fome em que milhões morreram nos "anos amargos", que se seguiram ao colapso do Grande Salto Adiante, a criação das Comunas e o enorme desperdício de metal e combustível nas milhares de fornalhas de quintal que Mao ordenou que fossem criadas. 

Chineses famintos durante a Grande Fome / Crédito: Domínio Público

 

Li ficou ao lado de Mao enquanto ele expressava suspeitas neuróticas sobre qualquer um de seus colegas pouco entusiastas com seus planos, ou com aqueles que insinuassem que o líder chinês era o responsável por qualquer um de seus fracassos.  

O médico cuidou de Tsé-Tung quando o mesmo tramava a queda de homens, como o Ministro da Defesa Peng Dehaui, ou o presidente Liu Shaoqi — que morreu em uma miserável cela, sendo a principal entre as milhares de vítimas que pereceram durante “as orgias destrutivas da Revolução Cultural de Mao”.  

As frustações de Mao e o destino de Li Zhisui

Raramente se mexendo de sua cama enorme, imerso em romances de antigas intrigas da corte e biografias de impiedosos imperadores da história da China, que estava determinado a imitar, Mao foi ficando cada vez mais isolado do mundo.  

Ele se via como um gênio frustrado por homens inferiores e traidores, acreditando que suas depressões só poderiam ser curadas por decisões de ação que, dada sua falta de informações confiáveis e as distorções de sua neurose, só mergulharam a China em crise após crise. 

No entanto, muitas vezes contra sua consciência, Li Zhisui serviu a esse “monstro” fielmente, mas com algum custo. Ele abandonou a ambição de ser cirurgião, arruinou sua vida familiar e partiu o coração de sua esposa.  

Em 1988, o médico conseguiu chegar aos Estados Unidos, onde relembrou os eventos que uma vez registrou em uma pilha de diários — que foi forçado a queimar.

Com a ajuda de estudiosos americanos, ele os escreveu novamente em um estilo científico cuidadosamente não emocional. Ao fazer isso, dissecou o coração de seu algoz e permitiu que a posteridade julgasse o homem que inspirara tal patriotismo idealista, apenas para traí-lo. 

Casado e com dois filhos, Li Zhisui morreu em Chicago, em 13 de fevereiro de 1995, aos 75 anos, vítima de um ataque cardíaco. Como médico, Li se interessava por psiquiatria. Em outubro de 1986, ele escreveu o prefácio do primeiro livro chinês de psicofarmacologia: "Tratamento psicofarmacológico para distúrbios psiquiátricos”.


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