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Linchado injustamente: conheça o trágico caso Leo Frank

A morte suspeita de uma jovem iniciou um episódio conturbado envolvendo três figuras, sendo uma delas alvo de assassinato

Ingredi Brunato Publicado em 20/08/2020, às 17h57

Fotografia de Leo Frank na prisão.
Fotografia de Leo Frank na prisão. - Divulgação/ Flickr

Em uma manhã de domingo de 1913, o corpo de Mary Phagan, uma menina de apenas treze anos, foi encontrado estrangulado no porão da National Pencil Company, a fábrica judaica onde trabalhava - na época, o trabalho infantil era comum em comunidades judias. Duas cartas de despedida jaziam próximas ao seu corpo, feitas para parecerem terem sido escritas por Mary. 

Esse foi o macabro início de uma saga que passaria pela investigação do assassinato de Mary, e terminaria com o linchamento de Leo Frank, diretor da National Pencil Company. O acontecimento ganhou atenção da imprensa nacional, e as críticas externas fizeram com que no estado da Geórgia, onde tudo acontecera, crescesse grande ódio e anti-semitismo contra Frank. 

A descoberta do corpo 

Mary Phagan foi encontrada em estado miserável pelo vigia noturno, um pouco antes das 3h. Seu rosto estava enegrecido por conta do enforcamento, o corpo coberto de fuligem, e o vestido estava enrolado na cintura, com a calcinha manchada de sangue. 

Foi Leo Frank, como diretor da fábrica, que levou os policiais pelo prédio, mais tarde naquela manhã. Segundo relatos, ele estava trêmulo e pálido, além de emendar perguntas aos oficiais antes que eles tivessem oportunidade de responder às últimas. Neste ponto, Frank ainda não era considerado um culpado. 

Os primeiros a serem detidos pela polícia foram um amigo de Mary Phagan e também Newt Lee, o vigia noturno da fábrica. Lee teria sido preso por conta das cartas encontradas ao lado do corpo, que procuravam incriminá-lo, dizendo que quem havia machucado a menina era negro. Lee era negro e também quem supostamente tivera uma maior janela de oportunidade, sozinho à noite na fábrica. 

Ilustração representando Mary Phangan em publicação do jornal da época. Crédito: Wikimedia Commons

 

Início da investigação 

O próximo encontro de Frank com a polícia, na segunda-feira seguinte, foi acompanhado de seu advogado, Luther Rosser. Nele, o diretor judeu mostrou aos policiais que o cartão de ponto de domingo de Phagan (não haviam folgas no período), que ela devia bater a cada meia hora, apresentava várias lacunas.  

Por insistência de seu advogado, Frank também se despiu para mostrar que não possuía nenhum ferimento no corpo, algo que aconteceria em um confronto com a menina, que lutaria pela sua vida. 

Vale mencionar que o próprio Frank contratou uma agência de detetives para investigar o caso, e eles mais tarde enviaram cópias e documentos de todas as evidências que encontraram à polícia, incluindo aquelas que prejudicavam a imagem do diretor judeu, como o fato que ele acabou sendo o último a ter visto Phagan antes da morte da menina. 

Como tudo degringolou para o lado de Frank 

Houve uma pessoa em específico que mudou completamente o rumo das investigações, sendo responsável pela acusação ao diretor: Jim Conley, o zelador da fábrica. Conley foi preso após ter sido flagrado lavando manchas vermelhas de uma camiseta azul, um ato muito suspeito por si só. Futuras investigações, no entanto, descobriram que tratava-se de ferrugem.

Cerca de um mês depois do assassinato, porém, Conley decidiu fazer uma confissão. Ele disse que era cúmplice do crime, tendo escrito as cartas. Após escrever algumas palavras encontradas na carta para que os oficiais vissem, eles ficaram convencidos de que era a mesma caligrafia. 

Segundo o zelador, Frank teria cometido o crime em seu escritório, em seguida chamado Conley, confessado e pedido sua ajuda com as cartas. A princípio, a polícia se mostrou cética em relação à versão do zelador, no entanto após muitas horas interrogando-o, lentamente foi construída uma narrativa que consideraram satisfatória. 

A cobertura midiática também teve um papel fundamental para definir o destino de Leo Frank. Na época, fatos e rumores eram misturados, e quando a versão de Jim Conley ganhou os jornais, a história se tornou tão popular que a opinião pública acabou suplantando a necessidade de maiores investigações.  

Fotografia do julgamento de Leo Frank. Crédito: Wikimedia Commons. 

 

A morte de Leo Frank 

O judeu recebeu primeiro sentença de morte, para então ter sua condenação trocada para prisão perpétua por conta da falta de evidências concretas contra ele. Na época, o New York Sun foi o primeiro jornal a fazer uma cobertura detalhada do julgamento de Leo Frank, e também discutiu o anti-semitismo envolvido no caso.

 “O sentimento anti-semita foi o resultado natural da crença de que os judeus se uniram para libertar Frank, inocente ou culpado. A suposta solidariedade dos judeus por Frank, mesmo que ele fosse culpado, causou uma solidariedade gentia contra ele”, o jornal publicou.

Dois anos depois, em 1915, um grupo de homens armados sob mando do governador da Geórgia sequestraram Frank e o lincharam na manhã seguinte em Marietta, a cidade natal de Mary Phagan. 

O governador seguinte chegou mesmo a prometer punir os linchadores, que tinham entre eles homens influentes na cidade de Marietta, porém no fim nada foi feito a respeito. Hoje, acredita-se que o verdadeiro assassino de Phangan seja o zelador Jim Conley.

Em 1982, um grupo de advogados buscou um perdão póstumo para Leo Frank, baseado no testemunho de Alonzo Mann, que teria sido assistente de escritório de Frank aos 14 anos. Segundo Mann, ele viu Conley carregando o corpo da garota pelo saguão da fábrica, e ameaçou o menino para conseguir seu silêncio. O relato desmentiu porções centrais da narrativa fornecida por Conley às autoridades da época.