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Lyudmila Ignatenko, a vítima de Chernobyl que perdeu o marido e o filho após a tragédia

Após perder o companheiro na catástrofe soviética, Ignatenko também teve que lidar com o óbito do filho e, recentemente, passou a ser alvo de perseguições

Nicoli Raveli Publicado em 26/04/2020, às 00h00

Á esquerda, Lyudmila Ignatenko da vida real; Á direita, personagem da série Chernobyl (HBO)
Á esquerda, Lyudmila Ignatenko da vida real; Á direita, personagem da série Chernobyl (HBO) - Divulgação/HBO

Nos primeiros meses de 1986, o mundo presenciou um dos maiores acidentes nucleares da História. O fato, que ocorreu na madrugada do dia 26 de abril, foi consequência de uma falha humana na Usina V. I. Lenin, na Ucrânia.

Conhecido como a catástrofe Chernobyl, acredita-se que os operadores responsáveis pelo reator descumpriram uma série de protocolos de segurança. Não obstante, um simples teste de segurança resultou na explosão do reator quatro.

O acontecimento resultou em diversas mortes desde o primeiro segundo, quando dois trabalhadores foram mortos. Mais tarde, o incêndio no local se estendeu por dias e por um vasto território, o que foi seguido pela disseminação do material radioativo.

O bombeiro

Entre diversos bombeiros que foram até o local para conter o fogo nos momentos iniciais, estava Vasily Ignatenko. A fim de evitar que outro reator explodisse, o homem foi um dos que chegaram mais próximo do local da tragédia.

Empregado de Chernobyl da frente do sarcófago feito para o reator 4 / Crédito: Getty Images

 

Além disso, ele foi exposto a uma grande radiação e absorveu cerca de 1.600 roentgens (unidade de medida de radiação), três vezes mais do que a quantidade que resulta no óbito. Como consequência, o bombeiro teve que ser encaminhado ao hospital de Pripyat, mas não permaneceu muito tempo no local.

Pouco tempo depois, Ignatenko foi transferido para a instituição Número Seis, localizada em Moscou, um hospital referência em radiobiologia e acidentes de radiação. Foi lá que seus últimos dias de vida aconteceram.

Cena da minissérie Chernobyl, na qual Lyudmila visitando Vasily no hospital / Crédito: Divulgação

 

De acordo com a mulher, Lyudimila, os momentos finais do marido foram traumatizantes. Ela presenciou os tormentos de Ignatenko, que teve sua aparência deteriorada e sangue saindo por ferimentos a todo o momento. Em suas próprias palavras, o descreveu como "um mosntro de sangue".

Ao lado da esposa, ele morreu no dia 13 de maio do mesmo ano. O corpo do bombeiro foi enterrado no cemitério de Mitinskoe, em Moscou. O local também abrigava outras pessoas que foram vítimas do acidente de Chernobyl. Todavia, a infelicidade da família continuou por anos.

Isso porque na época do acidente, a esposa do bombeiro estava grávida e deu à luz Natashenka dois meses depois da morte do companheiro. Entretanto, a garotinha veio a falecer poucos dias depois. Era um pesadelo para a mulher, mãe de primeira viagem, que nunca deixou de acreditar que a morte de sua filha havia sido causada pela absorção de radioatividade do pai, mesmo que o bebê ainda estivesse em seu ventre.

Lyudmila Ignatenko, à esquerda, é interpretada por Jessie Buckley, à direita, na minissérie Chernobyl / Crédito: Creative Commons

 

Contudo, os médicos a informaram que essa situação não era possível, uma vez que a pessoa não é capaz de transmitir a radiaçaõ depois de passar por uma descontaminação por meio da ingestão do sal Azul de Prússia. Mais tarde, a morte da menina foi diagnosticada por uma falha na formação do coração. Além disso, exames também revelaram uma insuficiência hepática.

O herói da Ucrânia

Em 2006, o governo ucraniano concedeu a Ignatenko a medalha de herói da Ucrânia, o maior título de honra outorgado pelo país. Mais tarde, sua história ficou conhecida por meio dos depoimentos de Lyudimila no livro Voices from Chernobyl, da escritora Svetlana Alexievith.

A obra foi uma das inspirações para a realização da minissérie Chernobyl, do canal HBO em 2019.  O ator Adam Nagaitis ficou responsável pela interpretação do bombeiro, enquanto Jessie Buckley interpretou sua esposa. 

Todavia, durante uma entrevista à BBC, a viúva alegou que nunca foi procurada para que sua história viesse a público por meio da minissérie. Além disso, Lyudimila revelou que sofreu constantes abusos após a exibição do programa.

Embora a mulher tenha elogiado os detalhes da filmagem, ela disse que ficou “magoada e desconfortável” ao descobrir que sua história havia sido retratada sem seu consentimento. “Havia pessoas me perseguindo no meu apartamento. Chegou ao ponto em que os jornalistas batiam a porta com o pé e tentavam gravar entrevistas comigo.”

Ela também contou que muitas pessoas diziam que ela havia matado seu bebê. "Ficavam perguntando por que eu estava ao lado do meu marido, sabendo que estava grávida na época. Mas me diga, como eu poderia deixá-lo? Eu pensei que meu bebê estivesse seguro dentro de mim. Não sabíamos nada sobre radiação naquele momento".

Lyudmila também declarou que recebeu uma ligação depois que a série já havia sido gravada. "Gostaríamos de pagar US$ 3 mil", disseram durante o episódio. No entanto, ela não acreditava que iria receber a quantia. "Quando perguntei para que era o dinheiro, me disseram: "Por você existir".

"Claro que pensei que era algum tipo de fraude", alegou Lyudmila.

A HBO e a Sky — que são as responsáveis pela produção da série — negaram todas as acusações e relataram que entraram em contato diversas vezes com a viúva de Ignatenko. 

“Lyudmila também teve a oportunidade de participar do processo de contar histórias e fornecer feedback. Em nenhum momento durante essas trocas, ela expressou que não queria que sua história ou a de seu marido, Vasily, fossem incluídas. Os cineastas fizeram todos os esforços para representar sua história e a de todos os afetados por essa tragédia, com autenticidade e respeito”, afirmaram os produtores em comunicado.


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