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"Espelho para a sociedade": Há exatos 74 anos, O Diário de Anne Frank era publicado

Relembre a entrevista exclusiva com Carlos Reiss, Coordenador-Geral do Museu do Holocausto de Curitiba, sobre a importância da obra para o contexto histórico

Fabio Previdelli Publicado em 31/01/2021, às 00h00 - Atualizado em 25/06/2021, às 07h00

Imagem do diário de Anne Frank
Imagem do diário de Anne Frank - Getty Images

Quando falamos em obras e registros históricos que remetem ao Holocausto, é praticamente impossível não citarmos O Diário de Anne Frank. Afinal, não é pra menos, o livro escrito pela jovem judia é um dos mais vendidos do mundo: cerca de 30 milhões de cópias que foram adaptadas em 70 idiomas diferentes.  

Apesar de todos seus ensinamentos, o diário escrito por Anne virou alvo de grande polêmica nas redes sociais na semana passada. Em um post no Twitter dedicado a 'Criar uma treta literária', um usuário disse que “O Diário de Anne Frank é superestimado”, algo que foi corroborado por uns, mas criticado pela maioria.

Para Carlos Reiss, Coordenador-Geral do Museu do Holocausto de Curitiba, em entrevista exclusiva ao site do Aventuras, O Diário de Anne Frank não pode ser analisado apenas como um produto literário, ou seja, uma obra desprovida de contexto histórico.

“A riqueza do livro está tanto no perfil da autora quanto na possibilidade de nos identificarmos, de gerar empatia, de desenvolver a alteridade”. 

Mas por que frases como essas surgem? Para Reiss, apesar do trabalho feito por instituições e professores, a educação brasileira, de modo geral, ainda não sabe lidar com todos os ensinamentos que o Holocausto pode gerar.

Anne Frank Center EUA em 2012 / Crédito: Getty Images

 

“Este não é um problema só desse tema, e sim do nosso sistema educativo como um todo: que é sucateado, fragilizado, com falta de reconhecimento, capacitação e remuneração decentes aos nossos educadores. O reflexo está na geração formada por esse sistema”, diz. 

Outro fato que ajuda com fomentação de comentários deste tipo é que grupos negacionistas e antissemitas aproveitam dessa precarização do sistema educacional brasileiro para se inserir neste tipo de debate.

“Críticas como essa nos mostra que temos ainda um longo caminho a percorrer quando o assunto é a transmissão de lições deste genocídio de forma transdisciplinar”, explica.  

“É um desafio tirar o Holocausto dos rodapés dos livros de História e colocá-lo como instrumento em outros campos do conhecimento: como a literatura, a música e as artes como um todo, a biologia, a filosofia etc... O debate sobre ser ou não superestimado é legítimo e a resposta precisa ser dada por meio da educação”, completa.  

A importância

Segundo estima a Enciclopédia do Holocausto, do United States Holocaust Memorial Museum (USHMM), cerca de 6 milhões de judeus foram mortos durante a Segunda Guerra. Mas o que torna o diário de Anne tão lembrado ainda hoje? 

Segundo o Coordenador-Geral do Museu do Holocausto de Curitiba, os relatos de Frank explodiram no circuito literário mundial em um momento em que a memória do Holocausto ainda vivia uma fase difícil de massificação e pouca personificação.  

Páginas do diário de Anne Frank / Crédito: Getty Images

 

“Era os anos 50, um momento em que era importante mostrar ao mundo a dimensão do que foi o Holocausto, o tamanho da tragédia, a extensão, a grandeza do extermínio — e isso inclui o número de vítimas”, explica.  

Foi nessa época, inclusive, que o assustador número de 6 milhões de judeus mortos passou a ser conhecido e divulgado.

Foi quando os primeiros museus passaram a representar os horrores da Segunda Guerra por meio do choque de quantidade, mostrando as pilhas de roupas, sapatos, enfim, os mais diversos assessórios usados pelos judeus.  

“Existe nesse fenômeno do Diário de Anne Frank um componente que era o talento e a forma com que ela escrevia. Um estilo que nos aproxima, que acaba gerando uma empatia incrível com qualquer jovem, em qualquer parte do mundo”, diz Carlos, que também credita ao pai de Anne, Otto, uma taxa pelo sucesso do livro da filha.  

Otto Frank teve importância ao buscar e costurar os acordos com as editoras, investir pesado, levar a obra para os Estados Unidos, se aproximar de figuras relevantes que escreveram prefácios, críticas, enfim... E o livro se tornou um best-seller", completa. 

Naquele momento, o mundo — que estava acostumado a lidar com as vítimas do Holocausto como números — começou a passar por um longo, lento e difícil processo de personificá-las, o que dura até hoje. “O rosto da Anne Frank foi um dos primeiros a se sobressair”. 

Ensinamentos necessários 

Para Reiss, O Diário de Anne Frank ainda é extremamente atual, oferecendo um relato genuíno e humano de uma menina que cresceu em meio a um contexto tão desumano e inimaginável para as futuras gerações.

Porém, mesmo assim, continuou escrevendo de maneira tão apaixonante, demonstrando quase que um talento natural para um de seus grandes sonhos: ser jornalista. 

Foto de Anne Frank / Crédito: Wikimedia Commons

 

“Por isso é tão fácil se identificar com ela”, fala Carlos Reiss. “Os jovens que leem o diário reconhecem a voz dela, reconhecem seus pensamentos, seus desejos. O Diário é um espelho para a sociedade, para qualquer geração de jovens, de qualquer época, e é por isso que se transformou nesse fenômeno que é praticamente inesgotável — também no Brasil”, conclui.


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