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O fim do cinema mudo — e da carreira do astro de Hollywood Buster Keaton

Um dia ícone expoente do cinema, o ator foi superado pelos avanços tecnológicos na arte, e nunca retomou a realeza

Caio Tortamano Publicado em 07/05/2020, às 15h00

Ator Buster Keaton
Ator Buster Keaton - Wikimedia Commons

As revoluções tecnológicas sempre foram marcadas pela dificuldade das pessoas apegadas ao passado de se adaptarem a um novo mundo que está por vir. Seja depois da invenção da televisão, do rádio, do cinema ou mesmo da internet, o mercado acaba engolindo aqueles que não se adaptam aos novos meios de consumo.

Esse foi o caso de um dos maiores nomes do cinema mudo de todos os tempos, o ator Buster Keaton. Criado no teatro Vaudeville, Buster passou a infância participando de atuações com seu pai e com a sua mãe em teatros itinerantes.

Sua carreira decolou em 1917, quando fez um teste para o filme The Butcher Boy. Quando entrou em cena, incorporou o personagem com tamanha naturalidade que era impossível para o diretor Roscoe “Fatty” Arbuckle continuasse o filme sem Buster, que foi contratado imediatamente.

Arbuckle era um diretor de curtas, e Keaton participou de 14 deles durante a década de 1920. Os curta-metragens faziam sucesso, e o rosto sorridente do ator — que viria a ser eternizado ironicamente por sua cara séria — chamava a atenção do público.

Seu primeiro longa foi produzido em 1920, chamado O Pesado. Além de ator, Buster conseguiu montar a sua própria produtora, desenvolvendo uma série de curtas de comédia.

Sua formação praticamente circense fazia dele o seu próprio dublê, realizando cenas extremamente perigosas em nome da sétima arte — que ainda era muda. No filme Marinheiro de Encomenda, de 1928, uma das cenas mais famosas da história do cinema exigia grande precisão de Keaton.

O trecho em questão deveria acontecer da seguinte forma: a parte da frente de uma casa deveria desmoronar em cima do personagem de Buster Keaton, que iria se safar através de uma pequena janela presente na parte da residência. O episódio deu certo e a icônica cena marcou para sempre a carreira do ator e produtor.

Buster em uma das cenas mais famosas do cinema / Crédito: Divulgação

 

Todavia, até hoje, seu filme mais famoso é A General, que discute um incidente real da Guerra Civil Americana. O filme recebeu críticas positivas e negativas na época, especialmente levando em consideração se tratar, de maneira cômica, um período sangrento da história americana, mas hoje é considerado um clássico do cinema mudo.

Cinema falado

Em 1928, Buster Keaton iria realizar o que ficou conhecido como a pior decisão de sua vida: ele assinou um contrato com a gigante MGM. O grande problema de assinar com uma produtora colossal como a Metro-Goldwyn-Mayer era que sua liberdade criativa estaria seriamente comprometida em detrimento dos interesses financeiros de quem era seu chefe.

O Homem das Novidades foi o primeiro filme mudo de Keaton pela MGM. Nessa obra cinematográfica ele foi forçado a utilizar um dublê para as cenas perigosas, como forma de proteger o alto investimento que fizeram na época.

Nos primeiros filmes do ator que tinham som, ele e seus colegas tinham que fazer todas as cenas três vezes, uma em inglês, outra em espanhol e a última em francês ou alemão, já que os recursos sonoros eram novos e não se tinha conhecimento da dublagem para longas.

Os atores tinham que memorizar foneticamente o que deveriam dizer em cada língua, e fazer a cena correndo logo em seguida. Para Keaton era o inferno, já que tinha que encenar filmes “sujos” — como ele viria a classificar — não somente uma vez, bem como três.

Declínio 

Keaton estava em baixa com a queda do cinema mudo, e a MGM demitiu o ator durante a filmagem do filme Entre Secos e Molhados, de 1933. O filme viria a ser um grande sucesso, que só foi percebido pelos produtores após a demissão de Buster, que passou a participar de filmes independentes na Europa. Isso porque não abria mão do cinema mudo.

Vida pessoal

Toda essa queda foi acompanhada de uma turbulenta vida íntima. Por exemplo, o divórcio da sua primeira esposa, em 1932, acabou tirando dele praticamente toda a sua fortuna e o contato que tinha com os dois filhos, James e Robert. Depois do nascimento deste último, o casal passou a dormir em quartos separados e praticamente viver uma vida alheia ao outro.

Enquanto seu casamento e dinheiro tinham ido todos embora, Keaton se sentia mal também no seu campo profissional, já que toda a sua independência tinha sido sugada pela maior produtora de Hollywood. Isso tudo levou Buster a um período de alcoolismo.

Logo após a sua separação, o ator foi internado em uma clínica para se reabilitar do vício em bebidas — onde existe o boato que ele se soltava da camisa de força utilizando métodos que teria aprendido com Houdini.

A internação não durou muito tempo, e em um período de intensa bebedeira e poucas lembranças futuras, como ele mesmo viria a confessar, casou-se com uma antiga enfermeira sua, Mae Scriven. A enfermeira se separou dele em 1935 depois que pegou o ator traindo ela, e se divorciaram em 1936 novamente causando grande prejuízo financeiro ao, já endividado, artista.

Casamento derradeiro e morte

Já à 5 anos sóbrio, Keaton se casou com Eleanor Norris em 1940. Norris era 23 anos mais nova que o ator, que tinha 45 anos. Os esforços de sua mulher impediram que Buster se afundasse ainda mais no alcoolismo e arruinasse completamente a sua carreira. Os dois faziam números teatrais juntos no período em que o ator trabalhou na Europa.

Eleanor e Buster no dia do casamento / Crédito: Divulgação

 

Seus trabalhos futuros foram basicamente em obras que reviviam o cinema mudo e não tinham falas. Quando tinham, certamente não era Keaton que as dizia, sua figura era marcadamente muda.

Buster foi diagnosticado com câncer de pulmão em janeiro de 1966, mas nunca lhe disseram que era um caso terminal, ele achava estar se recuperando de uma bronquite. Essa falta de clareza dada a ele o tornavam um paciente difícil, já que dificilmente descansava e queria o tempo todo ser liberado.

De acordo com relatos de Eleanor, até o dia antes de ter falecido, em 1 de fevereiro, Keaton ficava fora de sua cama, e andava pelo quarto, até mesmo jogando cartas com os amigos que iam visitá-lo.

O ator não caiu em total esquecimento, é verdade, mas até a sua morte, em 1966 com 70 anos, ele não teve mais o lugar de destaque que um dia tivera. As pessoas tiveram dificuldade de associar sua figura a qualquer obra que tivesse som, e também, por outro lado, Buster não se desprendeu tão fácil do formato pelo qual se tornou um dos maiores artistas do cinema.


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