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Oliver Sipple, o homem que salvou um presidente — e teve sua vida destruída

Após o feito, o homem chegou a pedir para os jornais não estamparem seu nome nas manchetes, tendo sua vida pessoal revirada

Wallacy Ferrari Publicado em 11/05/2020, às 12h12

Oliver Sipple em fotografia no momento do desarme ao atentado contra Gerald Ford
Oliver Sipple em fotografia no momento do desarme ao atentado contra Gerald Ford - Divulgação

Nascido em 1941 em Detroit, EUA, Oliver Wellington Sipple apresentou um comportamento tímido e meticuloso desde sua juventude. Sendo disléxico, teve dificuldades durante sua educação na infância. Além disso, descobriu sua orientação sexual cedo, mas escondia a homossexualidade de seus pais religiosos.

Compondo o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, o jovem chegou a lutar no Vietnã e ficar gravemente ferido em 1968, após ter o corpo e crânio atingido por estilhaços em batalha. Transferido para o hospital de veteranos da Filadélfia, o rapaz foi liberado em 1970, após dois anos de tratamento.

Assim que encerrou seu contrato de serviços militares, Sipple se mudou para São Francisco — longe da família — onde pôde manter uma vida profissional regular trabalhando no setor administrativo de uma empresa, além de não precisar esconder sua vida amorosa. Morando com um marinheiro em um apartamento, o ex-combatente tinha uma vida calma.

O lugar certo

A mudança para a cidade californiana teve outro motivo além do sossego; a comunidade gay de Bay Area, que estava em ascensão com a campanha política de Harvey Milk, primeiro homem abertamente gay eleito na história da Califórnia. Ambos chegaram a ser amigos e Oliver auxiliou Milk em passeatas durante as eleições, sempre articulando internamente as ações.

A privacidade conquistada pelo homem na cidade dava a liberdade para fazer amizades na vizinhança, sair com o companheiro e até mesmo, realizar uma caminhada durante todas as manhãs. O que Oliver jamais esperava é que, no dia 22 de setembro de 1975, as ruas do bairro Union Square estariam ocupadas para receber uma visita do presidente.

A multidão em volta do presidente Gerald Ford, momentos antes do atentado / Créditos: Domínio Público

 

A manhã que mudou sua vida

Buscando atravessar a multidão para entender o que ocorria, o ex-combatente avistou o então presidente dos EUA Gerald Ford saindo pela porta da frente do hotel St. Francis. A distância do político e Oliver era de aproximadamente 12 metros, porém, ao seu lado, estava Sara Jane Moore, que havia acabado de tentar disparar contra o Ford.

Quando levantou os braços para apontar novamente contra o político, Sipple respondeu rapidamente com um impulso contra a moça, tomando a pistola calibre 38 de suas mãos. Durante a ação, a arma chegou a disparar e ricochetear conta um motorista de táxi próximo, que saiu com vida. A jovem, presa em flagrante, foi condenada à prisão perpétua.

Oliver, no entanto, ficou mais assustado que a jovem detida. Logo após a imobilização da garota, uma multidão de jornalistas passou a tentar pegar alguma palavra do rapaz, sem sucesso. O ex-combatente correu da imprensa, pedindo para que não fosse identificado: “Não sou um herói, sou um covarde vivo”. Não contente com a ocultação, os jornais americanos rapidamente conseguiram identificar o rapaz e procurar seu histórico.

"O herói gay"

Nos dias seguintes ao atentado, sua sexualidade não era contada como um detalhe, mas estampado em manchetes como “herói gay”. Além de revelar a associação de Oliver com Harvey Milk, encontrando algumas fotos de arquivo em passeatas LGBT por uma associação de prevenção à AIDS, seus tempos de escola e de militar foram relatados, ocasionando em sua demissão e recusa de diversos amigos.

Manchete estampa Oliver como "Herói Gay que processou a imprensa" / Créditos: Divulgação

 

O presidente o agradeceu timidamente via carta, sem nenhuma manifestação pública ou convite à Casa Branca. O amigo Harvey Milk aproveitou a deixa para o apresentar como símbolo gay e promover sua campanha. O pior fator foi relacionado a família do rapaz, que desconhecia o fato de que o jovem era gay. Além do abandono dos irmãos, seu pai não permitiu, anos depois, que o filho comparecesse no funeral da mãe.

Nos anos seguintes, passou a viver apenas com a aposentadoria militar e se isolou em seu apartamento. Chegou a ser diagnosticado com esquizofrenia e ter um marca-passo instalado, sem poder realizar exercícios regulares como anteriormente. Em 1989, um amigo desconfiou de seu sumiço e invadiu seu apartamento.

Oliver foi encontrado morto, aos 47 anos, com o corpo em decomposição por aproximadamente 10 dias ao lado de uma garrafa de Jack Daniels. Em seu apartamento, diversos recortes de jornais citando o seu feito foram encontrados juntos aos papéis do processo que moveu, sem sucesso, contra a imprensa. Na parede, a carta do presidente estava emoldurada, registrando seu orgulho pelo ato heroico.


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