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Tiros, mortes e incêndios: os 29 anos do início do cerco militar de Sarajevo

O sangrento episódio, considerado o maior cerco da História Moderna, foi marcado por 1.425 dias de caos

Carlo Cauti Publicado em 05/04/2021, às 14h15 - Atualizado às 15h52

Building Council Executive depois de ser atingido por fogo, em 1992
Building Council Executive depois de ser atingido por fogo, em 1992 - Wikimedia Commons

Em abril de 1992, iniciava-se o maior cerco militar da História Moderna, em Sarajevo. Naquele dia, o poeta bósnio-muçulmano Abdullah Sidran, junto com outras duas mil pessoas foram às ruas manifestar pela paz. Contudo, eles não imaginavam que o conflito duraria 1.425 dias e seria marcado por bombardeios, tiroteios, mortes, estupros, incêndios e saques.

"Sem os sérvios, não poderia respirar, sem os croatas não poderia escrever, sem ser eu mesmo não poderia viver com eles", declarou Abdullah Sidran na época.

Naquele mesmo fatídico dia, as forças sérvias montaram em volta da capital da Bósnia-Herzegovina, o que se tornaria mais tarde, o mais longo cerco da História Moderna. A partir disso, o cerco de Sarajevo tornou-se o epicentro das guerras iugoslavas.

Caldeirão de culturas

Conhecida como a Jerusalém da Europa — devido à presença de diversos grupos étnicos e religiosos — Sarajevo era uma ponte entre o Ocidente e o Oriente. A população era composta de 49% de bósnios muçulmanos, 30% de sérvios ortodoxos e 7% croatas católicos. Havia também uma antiga comunidade de judeus e uma importante minoria cigana.

Moradores de Sarajevo pegando lenha entre o inverno de 1992 e 1993 / Crédito: Wikimedia Commons

 

A convivência já durava há mais de 500 anos, desde a época do Império Otomano. A Bósnia era uma província onde a maioria dos nativos eslavos se convertera ao islã. E era pela religião que os povos dos Bálcãs, que falam uma só língua eslava, o sérvio-croata, se dividiram.

Além dos bósnios convertidos pelos turcos, alguns croatas são católicos, por terem feito parte dos domínios da República de Veneza. Os sérvios, ortodoxos, convertidos do Império Bizantino. 

Em 1990, um terço dos casamentos eram mistos. Sérvios, muçulmanos e croatas eram amigos, vizinhos de casa ou colegas de trabalho. A Bósnia inteira era um mosaico étnico, com aldeias sérvias do lado de províncias majoritariamente croatas e cidades onde os muçulmanos eram maioria.

“A vida era muito boa antes da guerra. Todos tínhamos uma existência digna, com trabalho e vida normal. E ninguém estava nem aí se você ia para a igreja, mesquita ou sinagoga”, contou para o site Aventuras na História, Dubravka Ustalic, moradora de Sarajevo durante o cerco e autora do livro Diário de Sarajevo.

Ódio-relâmpago

Para entender como a Jerusalém da Europa teve seu fim, é necessário dar um passo para trás, quando começou o processo de dissolução da Iugoslávia, no início dos anos 1980. Com a morte do líder-fundador, o marechal Josip Broz Tito, em 4 de maio de 1980, o modelo político e ideológico iugoslavo que ele tinha criado começou a se desmantelar. A punho de ferro, o ditador tinha levado adiante uma política de contenção das reivindicações independentistas e separatistas.

O marechal reuniu povos com diferentes culturas, tradições e religiões na federação socialista iugoslava. Tanto que se gabava de governar seis repúblicas, cinco povos, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos. E considerava a Bósnia-Herzegovina "a república mais iugoslava de todas, dada sua peculiaridade multinacional", disse Ustalic.

Na Bósnia-Herzegovina não existia um povo bósnio. Era uma grande mistura, tanto que no censo mais de 11% da população se declarava apenas iugoslava. Os que chamamos hoje de bósnios eram simplesmente os que marcavam islã no campo religioso do censo.

Oficialmente, todos usavam a mesma língua, o servo-croata. A Bósnia havia passado por um período de grande crescimento e desenvolvimento, e Sarajevo tinha hospedado os Jogos Olímpicos de Inverno de 1984. 

"A Iugoslávia foi um país comunista por quase 50 anos. E, em nome do peculiar socialismo iugoslavo, federalista e laico, Tito conseguiu sufocar as forças nacionalistas étnico-religiosas, concedendo também amplas autonomias locais", contou à Aventuras na História, Edis Kolar, morador de Sarajevo que na época do cerco tinha 17 anos, e que fez parte da tropa de elite do Exercito bósnio.

A Iugoslávia era uma federação descentralizada, diferente da União Soviética, formada por repúblicas fortemente controladas pelo Kremlin. Com a morte de Tito, que era filho de pai croata e mãe eslovena, o equilíbrio precário dentro da Iugoslávia se quebrou.

Nacionalistas ganharam prestígio, especialmente no Kosovo, província autônoma da Sérvia com maioria albanesa, onde março e abril 1981 foram marcados por protestos duramente reprimidos pelas tropas federais iugoslavas.

O caminho da desintegração

A faísca kosovar se espalharia em toda a federação. As outras repúblicas viram na repressão uma demonstração da agressividade do nacionalismo sérvio. O governo da Iugoslávia era sediado em Belgrado, capital da Sérvia, e os sérvios passaram a agir de forma imperialista.

Belgrado também começou a suspeitar que Eslovênia e Croácia estivessem preparando secretamente uma secessão. E essa crise politica interna acelerou seu curso por causa de três fatores: a ascensão ao poder do líder sérvio Slobodan Milosevic, a partir de 1984, quando se tornou líder da Liga dos Comunistas da Sérvia — nome do partido único. Nacionalista agressivo, Milosevic tinha o objetivo declarado de criar uma Grande Sérvia, dominando os outros povos iugoslavos.

Armas utilizadas no conflito exibidas no Museu do Túnel de Sarajevo / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em 1988, ele começou uma série de reformas econômicas patrocinadas pelo FMI, desmontando o regime socialista. No ano seguinte, cairia o Muro de Berlim. Contudo, não era só com o comunismo que Milosevic queria acabar. Em 1989, o governo de Belgrado alterou o status jurídico das regiões da Voivodina e do Kosovo, anulando sua autonomia. 

Para a Eslovênia e a Croácia, o sinal não poderia ser mais claro. A dissolução da Iugoslávia, a "terra dos eslavos do sul", começara. E, com ela, a era do imperialismo sérvio.

Em 1990, foi abolido o monopartidismo e, um ano depois, realizadas as primeiras eleições livres. Na Croácia e na Eslovênia o os partidos nacionalistas obtiveram uma esmagadora vitória, que imediatamente proclamaram a independência.

Assim, no dia 25 de junho de 1991, a Iugoslávia formalmente parou de existir. As forças de Milosevic imediatamente atacaram as repúblicas rebeldes, começando o primeiro capítulo das guerras iugoslavas. 

Na Bósnia, a história foi um pouco diferente. No começo, a república ficou apenas olhando. “Essa não é nossa guerra”, chegou a declarar o então presidente, Alija Izetbegović, em uma mensagem na televisão. 

Diferente da Croácia e da Eslovênia, as eleições livres bósnias tinham levado à afirmação dos três partidos étnicos: o Partido da Ação Democrática dos muçulmanos, o Partido Democrata Sérvio e a União Democrática Croata da Bósnia e Herzegovina.

Ninguém obteve a maioria absoluta. O sérvio Radovan Karadžić, o croata Stjepan Kljuić e o muçulmano Izetbegović assinaram um acordo dividindo o poder. A presidência da república iria para um muçulmano, a presidência do parlamento a um sérvio e o governo a um croata. Parecia dar certo, mas era um acordo frágil.

Jogo perigoso

Logo os líderes nacionalistas começaram a cavalgar ressentimentos nunca resolvidos entre os três grupos étnicos, principalmente nas áreas mais rurais da Bósnia, recuperando ressentimentos datados da Idade Média, e gerando um nacionalismo étnico que deixou o diálogo impossìvel.

Um grupo começou a acusar outro de pretensões hegemônicas, alimentando suspeitas e medos. Croatas e muçulmanos temiam o expansionismo dos sérvios, enquanto os sérvios não confiavam no nacionalismo dos croatas, que queriam anexar à Croácia as regiões bósnias onde eles eram maioria (a chamada Herzeg-Bósnia).

Além disso, ninguém confiava no muçulmano Izetbegović, que publicamente pregava uma política moderada, mas quando fazia comícios para muçulmanos mostrava a intenção de transformar a Bósnia em um Estado islâmico, com constituição baseada na Sharia.

O acordo segurou a situação por quase dois anos. Mas, quando pareceu evidente a intenção dos bósnios, croatas e muçulmanos de declarar a independência, os sérvios, que não queriam se separar de Belgrado, proclamaram em 9 de janeiro de 1992 a República Popular da Sérvia da Bósnia-Herzegovina (Republika Srpska), controlando as regiões populadas majoritariamente por sérvios e reafirmando o vínculo com a República Federal da Iugoslávia, nome do que restava sob domínio de Belgrado.

Em 1° de março de 1992, um referendo boicotado pelos sérvios ratificou a independência da Bósnia com 90% dos votos. No mesmo dia, morreria a primeira vítima da guerra: Nikola Gardović, sérvio, assassinado por um muçulmano durante um casamento. 

Tensões e acidentes interétnicos inflamaram a Bósnia inteira, e em Sarajevo apareceram as primeiras barricadas. No dia 5 de abril, quando a Bósnia proclamou formalmente a independência, os sérvios tomaram posições sobre as colinas em volta da cidade e ocuparam o aeroporto. 

No dia seguinte, a Comunidade Europeia (que se tornaria a União Europeia só ano posterior) reconheceu a Bósnia-Herzegovina como pais independente. Em resposta, a artilharia sérvia começou a martelar Sarajevo. Estavam abertas as comportas do inferno. O cerco havia começado.

Vizinho contra vizinho

“Foi tudo muito rápido. Ninguém esperava que a situação degenerasse. A gente tinha uma vida normal antes do cerco e poucas horas depois tudo havia mudado dramaticamente”, conto à Aventuras na História, Nadja Halilbegovich, sobrevivente do cerco de Sarajevo, jornalista, ativista pela paz e autora do livro My Childhood Under Fire: A Sarajevo Diary (Minha Infância Sob Fogo: Um Diário de Sarajevo).

Sarajevo é uma cidade longa e estreita, um corredor sudoeste-nordeste cercado por montanhas. O centro é majoritariamente muçulmano, mas as periferias são sérvias. Além disso, a capital bósnia é rodeada por aldeias sérvias nas montanhas.

Foi ali que os sérvios posicionaram a artilharia para bombardear o centro, considerado um importante ponto estratégico para criar continuidade territorial entre as regiões majoritariamente sérvias, espalhadas em toda a Bósnia ao longo dos rios Drina e Sava. Para garantir um território integral, era necessário eliminar os muçulmanos e os croatas que moravam em cidades e vilarejos no meio. Eis o passo seguinte: a limpeza étnica.

Escombros do edifício do jornal Oslobođenje de Sarajevo / Crédito: Wikimedia Commons

 

A partir de maio de 1992, Sarajevo foi completamente isolada. As estradas que levavam à cidade foram bloqueadas. “Viviamos de baixo de bombardeios cotidianos, sem água, sem eletricidade, sem aquecimento, sem comida. É incrivel como sobrevivemos por tanto tempo assim”, explicou Halilbegovich.

Como se não bastasse, começou uma matança entre os próprios habitantes da cidade: sérvios matavam vizinhos de casa muçulmanos, muçulmanos atiravam em colegas de trabalho sérvios, e assim por diante, sem limite para a selvageria.

“Eu tinha amigos sérvios, tinha vizinhos de casa sérvios, tinha colegas de escola sérvios. Ninguém estava nem aí sobre quem era o quê. A gente jogava futebol juntos, estudava juntos, saia com as meninas juntos. E de um dia para o outro viramos inimigos mortais. Um dos meus colegas acabou se tornando um criminoso de guerra, responsável por assassinar inúmeros muçulmanos”, disse Kolar.

O governo de Izetbegović era pouco organizado do ponto de vista militar, e isso alimentou os sonhos de conquista dos sérvios. Só que as forças sérvias que cercavam a cidade eram numericamente menores do que os defensores muçulmanos, mesmo tendo mais armas. Por isso a situação se degenerou num atoleiro que lembrava a Primeira Guerra Mundial. Após as iniciais tentativas, fracassadas, de tomar Sarajevo de assalto com blindados, as duas facções se entrincheiraram.

Os muçulmanos permaneceram no centro histórico e nos distritos de Dobrinja e Butmir , enquanto os sérvios ocupavam os bairros de Ilidža, Novo Sarajevo e Vogošća. As frentes foram marcadas pelo rio de Sarajevo, o Miljacka, e pela avenida principal da cidade, Ulica Zmaja od Bosne, a “estrada do dragão bósnio”, que se tornaria tristemente famosa como Snajperska Aleja, a avenida dos snipers (isto é, atiradores de elite).

As forças sérvias decidiram tomar a cidade pelo cansaço, e começaram a bombardeá-la cotidianamente. Em média foram realizados 329 bombardeios por dia durante o cerco, com um auge de 3.777 bombas caídas somente em 22 de julho de 1993.

Os incêndios provocados danificaram gravemente os prédios da cidade, incluindo a destruição de edifícios históricos, como a Biblioteca Nacional, que queimou completamente junto com milhares de textos antigos. Mais tarde, os relatórios realizados após o fim da guerra mostraram como todos os edifícios de Sarajevo, sem exceção, foram danificados ou destruídos durante o cerco.

Prédios do distrito de Grbavica danificados / Crédito: Wikimedia Commons

 

Inúmeros episódios trágicos e surreais mostraram os absurdos ocorridos durante o cerco de Sarajevo. É o caso de Admira Ismic, jovem muçulmana, e de Bosko Brkic, seu namorado sérvio: Romeu e Julieta de Sarajevo, como ficaram conhecidos. Um amor entre grupos inimigos desafiando morteiros e atiradores de elite, dia após dia. Eles tinham decidido escapar do matadouro para coroar seu sonho em outro canto da Terra. 

No entanto, foram mortos, de mãos dadas, pelos atiradores, no zoológico de Sarajevo — a terra de ninguém que separava as áreas muçulmana e sérvia. Seus corpos abraçados, tombados ao chão, ficaram abandonados ao Sol durante oito dias, pois os beligerantes não conseguiam chegar a um acordo que permitisse sua recuperação. Somente três anos depois, os dois namorados ficaram um ao lado do outro, no cemitério do Leão, onde descansam junto aos milhares de outros que encontraram o mesmo destino diante das armas sérvias.

Solidariedade

Justamente pelo passado de convivência pacífica e pelos 40 anos de Tito, a comunidade internacional ficou surpresa com a rapidez da espiral trágica de eventos em que a Bósnia precipitou.

“Ninguém pensava que esse horror durasse tanto tempo. Ficava chocada como tanta barbaridade acontecia no meio da Europa. Aguardávamos uma intervenção do mundo para parar essa brutalidade”, explicou Halilbegovich.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas tentou parar o massacre com a criação da Força de Proteção das Nações Unidas (Unprofor), da qual o Brasil também participou com observadores militares. Forças essas que se demonstrariam impotentes.

Entre a segunda metade de 1992 e o primeiro semestre de 1993, o cerco atingiu seu pico de violência. Sarajevo tornou-se uma gigantesca armadilha. Foram cometidas graves atrocidades de ambos os lados. Milhares de pessoas definharam até a morte por falta de alimentos, ou agonizaram de doenças, sem remédios, ou foram tombadas pelos atiradores, despedaçadas pela artilharia, destroçadas pelas minas terrestres.

Para morrer, bastava sair de casa para procurar comida. Uma vez na rua, qualquer pessoa se tornava alvo dos soldados que abriam fogo em cima das multidões desarmadas.

O grito de Pazite, snajper! (atenção, snajper!) tornou-se tão comum que ainda hoje é grafitado nas paredes da cidade. Mas as cargas da artilharia eram muito mais mortíferas — como no caso do ataque contra o mercado da cidade, o Markale, no dia 5 de fevereiro de 1994, no qual 68 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas.

Sadako Ogata, então comissária das Nações Unidas para os refugiados, denunciou uma situação insustentável. Quase todos os habitantes de Sarajevo estavam prestes a morrer de fome ou de febre tifoide, se não pelas balas, devido às condições de higiene precárias da cidade.

Distrito de Dobrinja em Sarajevo, após o cerco / Crédito: Wikimedia Commons

 

No entanto, houve também um clima de grande vitalidade entre os que permaneceram. Algo que lembra o clima de Londres sob os bombardeios nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. “Tinha coisas terríveis acontecendo, mas a vida continuava. A gente sofria com inúmeras privações, mas tínhamos que ir para frente”, disse Halilbegovich.

Os habitantes da capital bósnia tentaram manter a normalidade da vida. O livro Sarajevo: Exodus of a City (Sarajevo: O Êxodo de uma Cidade, em tradução livre), do escritor bósnio Dževad Karahasan, conta essa realidade cotidiana.

Cinemas ficaram abertos, assim como locais noturnos, salas de concerto. Os estudantes universitários tentavam ir às aulas evitando as balas dos snipers e as granadas da artilharia, se protegendo atràs das carcaças de ônibus que a prefeitura tinha colocado ao longo das principais avenidas. E naqueles anos foi realizada até mesmo a eleição de Miss Sarajevo.

A luz no fim do túnel

Para ajudar a população sitiada, o aeroporto de Sarajevo foi aberto aos aviões da ONU no final de junho de 1992. A sobrevivência da cidade começou a depender dos recursos internacionais, que chegavam com extrema dificuldade. O transporte aéreo podia garantir mil toneladas de alimentos e remédios por dia. 

Contudo, muitas vezes a batalha feroz em torno do aeroporto obrigava a suspender os voos. E a distribuição dos alimentos para a população era muito difícil, já que os comboios humanitários tinham que cruzar cinco quilômetros da estrada que separava o aeroporto do centro da cidade, que por causa das emboscadas dos atiradores se tornou a estrada mais perigosa do mundo. Para evitar morrer nessa roleta russa de asfalto, os carros tinham que percorrer em velocidade máxima e em ziguezague na tentativa de escapar das balas.

O que realmente salvou Sarajevo foi o túnel construído de baixo da pista do aeroporto, e que conectava a cidade com o resto do mundo. “Pelo túnel passaram dois milhões de pessoas ao longo de 30 meses de cerco, evitando o constante fogo dos snipers e da artilharia sérvia. Sem o túnel, Sarajevo teria caído”, disse Kolar, que hoje é curador do Museu do Tunel.

Não por acaso, essa passagem subterrânea ainda hoje é chamada de túnel da vida. Ele foi construído depois que no primeiro ano de guerra 250 pessoas morreram e 800 ficaram feridas tentando atravessar a pista do aeroporto.

“Eu, outros militares e voluntários civis cavamos a mão durante quatro meses para construir essa passagem de 1,5 metro de altura e 1 metro de largura, a cinco metros de profundidade”, revelou Kolar.

A função inicial era levar armas e munição à cidade, mas o túnel também foi usado para enviar soldados em outras frentes, permitir a fuga de civis e transportar alimentos, combustível e eletricidade.

Entre os que conseguiram fugir de Sarajevo pelo túnel está Nadja Halilbegovich, que foi acolhida por uma familia norte-americana. Mais de cinco milhões de quilos de comida, quatro milhões de litros de combustível e outros tantos de material militar entraram em Sarajevo pelo túnel salvador.

Não demorou muito para que começasse um próspero mercado ilegal, gerido por bandos armados de irregulares com a cumplicidade de policiais e capacetes azuis da ONU corruptos, que também começaram a traficar drogas e criar uma rede de prostituição. Surgiram assim máfias bósnias que durante a guerra juntaram enormes patrimônios e que ainda hoje mantém um forte poder em toda a região de Sarajevo.

Um horror adicional

Como se não bastasse, durante a guerra as forças sérvias estupraram sistematicamente as mulheres muçulmanas depois de separá-las dos homens. Centenas de milhares de bósnias foram violentadas.

O estupro foi transformado em arma. Era uma forma de humilhar as mulheres muçulmanas, que acabavam também rejeitadas pelos maridos quando voltavam para casa. Tanto que, em 2001, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPIJ) — órgão criado após a guerra pela comunidade internacional, justamente para perseguir os responsáveis dessas atrocidades — condenou vários sérvios, como DragoljubKunaracRadomir Kovac e Zoran Vukovic pela violência sexual durante o conflito, considerada um crime contra a humanidade.

Alerta em Sarajevo / Crédito: Wikimedia Commons

 

O horror não seria limitado a Sarajevo. Para conquistar regiões muçulmanas ou croatas da Bósnia e garantir áreas étnicas homogêneas, os sérvios começaram um processo de limpeza étnica sistemático, que culminou com o massacre de Srebrenica, de 11 a 25 de julho de 1995.

Nesta pequena aldeia, os bósnios-sérvios liderados pelo general Ratko Mladić eliminaram cerca de 8 mil muçulmanos e violentaram centenas de mulheres. Um genocídio clássico, à moda de Gengis Khan: todos os homens entre 14 e 70 anos foram eliminados.

E no final da carnificina, Mladić abriu uma garrafa de vinho, brindando a “eliminação da Bósnia dos turcos depois de tantos séculos de dominação”. Era essa a retórica oficial do ultranacionalismo sérvio: cristãos eliminando muçulmanos, vestígio de antigos conquistadores. 

Em 1995, após três anos de brutalidades, a ONU impôs um ultimato às forças sérvias para retirar suas armas pesadas das montanhas em volta de Sarajevo. Era isso ou seria iniciada uma campanha de ataques aéreos. O objetivo era tentar levar a uma solução pacífica do conflito entre as partes.

Os sérvios fizeram de conta que aceitaram, mas continuaram a mandar bombas. Por isso, as forças aéreas da OTAN, sob pedido da ONU, atacaram a artilharia sérvia, na Operação Força Deliberada, neutralizando todos os canhões em poucas horas.

Enfim, silêncio

Somente então os sérvios entenderam o recado e sentaram à mesa de negociação, com os bósnios e os croatas. Muitas pessoas tentaram chegar a uma paz entre os beligerantes, mas todos fracassaram. Foi o enviado especial dos EUA, Richard Holbrooke, que conseguiu obter a assinatura de um acordo de cessar-fogo em outubro de 1995, o que levou a um acordo de paz, no dia 14 de dezembro de 1995 na cidade de Dayton, Ohio.

Um acordo que criou novas entidades políticas com base nas etnias, dividindo de fato a Bósnia-Herzegovina em duas: a Republika Srpska, dos sérvios, e a Federação Bósnio-Croata, com autonomia semelhante à da velha Iugoslávia. A presidência do país foi dividida entre um sérvio, um croata e um bósnio por oito meses rotativos.

“Tem muitas coisas que impedem que a Bósnia avance. A presidência dividida em trés è uma delas. A guerra levou o pais décadas para atras, por causas de todas as consequenciais que provocou”, disse Halilbegovich, que estava presente em Dayton no dia da assinatura dos acordos de paz e se encontrou com Izetbegović junto com outros jovens bósnios.

O acordo de Dayton, de fato, sacramentou que a convivência interétnica era impossível, e que a única solução para uma paz duradoura era separar fisicamente os povos. Contudo, não adiantou.

O ódio entre as facções rivais permaneceu tamanho que a ONU foi obrigada a enviar um Alto Representante permanente em Sarajevo com poderes superiores aos do presidente, para impor o respeito do plano de paz e evitar que a carnificina recomeçasse. Os acordos de Dayton seguiram um período de estabilização e de volta à normalidade.

A guerra na Bósnia-Herzegovina e o cerco de Sarajevo provocaram a destruição de uma nação e a morte de centenas de milhares de pessoas. Contudo, mais do que isso, deixaram uma herança envenenada para uma região do mundo que por meio milênio tinha sido um exemplo de convivência pacífica entre diferentes etnias, culturas e religiões. Balcanização virou sinônimo de fragmentação violenta de uma região.

No dia em que o mundo cochilar, o pesadelo pode retornar. O genocídio continua sendo uma espada de Dâmocles, eternamente pendente sobre o futuro da Bósnia. “Hoje a Bósnia se tornou um recanto dos Bálcãs alimentado por um odeio profundo e ressentimento virulento entre povos. Onde a tensão é permanente”, disse Ustalic.


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