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Pilar Prades, a envenenadora que se tornou a última mulher a ser executada na Espanha

Morta de forma brutal, a criminosa teve uma pequena série de mortes que quase passaram despercebidas

Caio Tortamano Publicado em 09/06/2020, às 18h30

Pilar Prades foi a última mulher a ser executada na Espanha
Pilar Prades foi a última mulher a ser executada na Espanha - Divulgação

Nascida em uma família humilde, Pilar Prades se mudou de Bejís, no interior da Espanha, para a cidade de Valência com a família, em busca de melhores oportunidades de trabalho quando tinha 12 anos de idade. O ofício que iria cumprir era o de empregada doméstica.

Foi isso que tentou fazer diversas vezes ao longo dos anos, mudando de casa inúmeras vezes. Pilar tinha dificuldade em se estabelecer em uma residência por ser analfabeta e introvertida, não conseguia socializar com seus patrões.

Finalmente, em 1954, quando ela tinha 26 anos, encontrou trabalho na residência dos casados Enrique Vilanova e Adela Pascual. O trabalho em uma pequena fazenda parecia mais atraente para Prades, com mais espaço e menos contato com as pessoas.

Vilanova e Pascual também tinham uma lanchonete, que servia alimentos cultivados na fazenda, onde Pilar trabalhava as vezes quando a demanda era alta e precisavam de mais funcionários. Quando não estava na lanchonete, trabalhava na casa dos patrões.

Morte da patroa

Em março de 1954, Adela ficou muito doente. Em questão de dias a mulher, bastante ativa em suas tarefas diárias, acabou se debilitando cada vez mais, até sua morte. A causa foi apontada como gripe em um primeiro momento.

Não superando a morte repentina da amada, Enrique demitiu todos os seus funcionários (incluindo Pilar). Ele fechou todos os seus negócios e foi embora de vez de Valência, deixando para trás aquilo que construiu ao lado da mulher.

Por morar na casa dos patrões, Pilar agora tinha se visto sem ter onde fica. Por sorte, a mulher conseguiu rapidamente um emprego na casa do doutor militar Manuel Berenguer e da sua esposa Maria del Carmen Cid, por recomendação da cozinheira Aurelia Sanz Hernanz. 

A cozinheira tinha grande prestígio na família, e quando ficou severamente doente, Manuel fez questão de internar a mulher rapidamente no hospital, certamente aliviando o sofrimento de Hernanz, que teve uma melhora considerável quando esteve hospitalizada.

Estranhamente, a esposa do doutor, Maria del Carmen, apresentou os exatos mesmos sintomas que a funcionária teve antes de ser hospitalizada, e parecia não se tratar de uma simples gripe. Consultando outros especialistas e passando por testes diagnósticos mais precisos, foi constatado que havia a presença de veneno no organismo de Maria.

Suspeitas

Sem ter de quem suspeitar além da recém chegada empregada, Manuel tentou entrar em contato com o distante Enrique Vilanova. O contato dos dois levou o doutor a entrar com uma queixa criminal contra Pilar.

Por meio dessa queixa, que foi aceita, o corpo da mulher do viúvo, Adela Pascual, foi exumado. Em seu organismo foi encontrado arsênico, utilizado como pesticida e veneno. A evidência, entretanto, era circunstancial, não podendo indicar que teria sido Prades a autora do envenenamento.

Porém, depois de passar 36 horas confinada, sem ter como comer ou dormir, a mulher confessou ter envenenado as três pessoas para quem trabalhou. Depois disso, um frasco de veneno (arsênico) foi encontrado com seus pertences, gerando as evidências necessárias para condenar a mulher pelo assassinato de sua patroa e outras duas tentativas.

Execução

O período de sua morte foi justamente durante a ditadura de Francisco Franco, época em que a punição mais comum para aqueles que seriam executados era pelo garrote. Sentado em uma cadeira, um colar de ferro era pressionado por meio de uma manivela criando uma tensão cada vez maior no pescoço até ele quebrar.

Recreação da execução de Pilar / Crédito: Divulgação

 

O seu carrasco era Antonio López Sierra. Apesar dos crimes terem sido confirmados — embora Pilar tenha se declarado inocente diante do júri — foi uma execução difícil para o homem. Nesse dia, inclusive, Sierra pensou em parar com o seu trabalho, que só conseguiu por não ter nenhum outro mais rentável.

O homem era experiente, tinha feito diversas execuções, seu trabalho era girar uma manivela, a pressão fazia todo o resto. Não acreditando que teria que matar uma mulher, ainda por cima tão jovem, ficou extremamente bêbado antes de trabalhar, tendo dificuldade de usar o garrote.

Em geral, dava apenas uma volta na manivela do garrote para completar a morte, nesse dia, debilitado pelo álcool, teve que dar uma e meia. “Matar uma mulher”, como teria confessado anos depois, “é 100 vezes pior do que matar um único homem”, mesmo se tratando de uma assassina.

Essa foi a última mulher a ser executada no país, no ano de 1959, embora a pena de morte tenha sido abolida somente em 1978 da Espanha.


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