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Por que Luís XIV da França era conhecido como Rei Sol?

Com a intimidade escancarada, a referência do monarca ao principal astro era repleto de significados

André Nogueira Publicado em 29/06/2020, às 11h54 - Atualizado às 11h55

Luís XIV, o Rei Sol
Luís XIV, o Rei Sol - Wikimedia Commons

A Era do Absolutismo foi marcada por uma figura central e icônica que representou o ethos do monarca absoluto: Luís XIV da França e Navarra. Idealizador de Versalhes e o maior nome da concentração do poder do Estado Moderno na Europa, ele entrou para a História com a alcunha de Rei Sol (Le Roi-Soleil), mas fica a dúvida: por que essa referência?

A explicação para esse nome começa já no emblema régio do monarca, que assumiu o trono francês com apenas cinco anos de idade (na época, o governo de fato era comandado por seu regente, o cardeal Jules Mazarin). O símbolo de realeza de Luís era o Sol, o principal astro do céu terrestre.

O uso da estrela era uma referência essencialmente simbólica daquilo que dá vida a absolutamente tudo no planeta, fonte da luz e do calor básicos para a existência. Ao mesmo tempo, o Sol é símbolo da ordem desde a Antiguidade e da regularidade das coisas mundanas.

O Estado sou eu

Ao mesmo tempo, o uso do sol tinha um significado interno ao governo, a partir dessa noção de ordenamento que o astro possuía, pois Luís XIV reinaria como o astro (de cima, no topo, e cuja luz atinge a tudo) a corte francesa e o país.

Referências a Luís XIV por seu emblema, o sol com face humana / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ou seja, como na prerrogativa do “o Estado sou Eu”, ele teria contato e poder sobre absolutamente tudo, assim como a luz solar. Por isso, seu símbolo costumava acompanhar o lema adotado por Luís, Nec pluribus impar ("nunca desigual para muitos"), uma possível referência à capacidade do rei de tudo fazer e seu esplendor de estar acima de tudo.

No limite, ao se designar Rei Sol, Luís XIV se autoproclamava um ente político que se igualava ao astro, o maior de todos na visão da época (que era considerado um “astro-rei”). Na visão do rei, o seu brilho — no sentido estético de vislumbre e no político, de capacidade de atingir e regrar — a todos chegaria e a vida na França dele dependeria. Com isso, fora declarado que os poderes do monarca eram inesgotáveis, insubstituíveis e ilimitados.

As formas de representação e de designação na França Moderna, em meio ao caldo político do absolutismo dinástico com traços fortes de uma sociedade medieval, eram de suma importância na legitimação do poder real.

Intimidade escancarada

Os nomes, apelidos, quadros, imagens públicas e outras formas de divulgação e criação de uma imagem de Luís XIV eram importantes na construção de seu poder como orgânico à sociedade francesa, e sua associação com o Sol não tinha pouca relevância.

Atividade política do Rei Sol incluía um esforço pela dominação das próprias cortes / Crédito: Wikimedia Commons

 

O empenho em se tornar tão presente quanto o astro levou o rei da França a demonstrar hábitos que confundiam o campo do público e régio com a intimidade particular do monarca. O Rei Sol garantia que toda a sua rotina fosse pública, possibilitando que a corte acompanhasse todas as suas ações.

Por isso, a vida de Luís XIV era vista por todos, desde que acordava até seu repouso ao fim do dia, tudo era feito para o público, e sua intimidade era essencialmente parte do campo político do Reino da França. Ao contrário de um homem comum, ele não possuía, teoricamente em sua imagem pública, aspectos restritos a ele mesmo, assim como o Sol.

O reinado foi longo e próspero, marcando um momento de ascensão da monarquia absolutista. Assumindo em 1643, sendo oficialmente coroado com a maioridade em 1654 e governando até sua morte em 1715, ele foi responsável por importantes obras de reforço das relações com a corte e fortalecimento da governança, com a construção do Château de Versalhes e o aumento de taxação em favor do Primeiro Estado.

A legitimação do poder do monarca, que passava pela sua atribuição como Rei Sol, tinha como base fundamental o Direito Divino e Dinástico, ou seja, a noção de que, por herança familiar longínqua, seu poder era proveniente de uma relação com deus, que o monarca representava como aquele que executa seu direito na Terra.

Luís XIV e seus herdeiros / Crédito: Wikimedia Commons

 

Isso deu espaço para o fortalecimento desse sistema político que chamamos de absolutismo, em que a figura individual do rei se confunde com a instituição máxima de governo. Ao mesmo tempo, o palácio governa a partir de relações de confiança, indicação e vassalagem de entidades políticas menores dentro de uma noção da sociedade.


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