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Professor explica episódio que causou choque com veste da Ku Klux Klan

Em nota, ele afirma que o episódio foi um mal-entendido e explicou suas intenções ao usar o traje supremacista

Wallacy Ferrari Publicado em 08/01/2022, às 09h00

Professor caminha com fantasia da KKK
Professor caminha com fantasia da KKK - Divulgação / YouTube

Em dezembro de 2021, uma inesperada cena amplamente compartilhada na rede social TikTok chamou atenção dos veículos de imprensa; no pátio da Escola Estadual Amaral Vagner, em Santo André, localizado no ABC Paulista, uma pessoa circulava com uma vestimenta característica do grupo supremacista branco Ku Klux Klan, responsável por disseminar a "purificação" estadunidense usando violência contra pessoas negras a partir do século 19.

Na ocasião, a pessoa fantasiada teve sua identidade revelada através de uma publicação nas redes sociais do Grêmio Estudantil da instituição de ensino, explicando que o episódio ocorreu no dia 9 daquele mês durante um desfile de fantasias organizado como uma gincana de estudantes do terceiro ano do Ensino Médio. Contudo, a pessoa que trajava a vestimenta da KKK tratava-se de um professor de história.

De acordo com o portal TAB, do UOL, era Luiz Antônio Bertolo, de 72 anos; começou a lecionar depois dos 60, chegando a ser o aluno mais velho do curso de história da extinta UniABC.

Na escola onde lecionava, não apenas havia completado mais um de muitos anos letivos, como era conhecido por outros alunos por uma postura distinta da abordada quando visto com a fantasia.

Plano de fundo

Em entrevista ao jornal O Globo, alunos do colégio apontaram que, nos anos anteriores, o professor chegou a promover diversas ações engajadas na cultura africana e que a fantasia já havia sido usada em 2017, sendo originalmente confeccionada para uma peça sobre "consciência negra", conforme o próprio educador confirmou em publicação da época no Facebook.

Publicação do professor mostra peça teatral com fantasia da KKK bem antes do mal-entendido / Crédito: Divulgação / Facebook

 

Um aluno, identificado como Felipe Costa, 17, ainda acrescentou ao veículo que a ação chegou a ser tirada de contexto em comentários nas redes sociais.

"Reconheço que é uma ação que deve ser investigada, mas ao mesmo tempo as pessoas estão deturpando o ocorrido sem saber os fatos. O professor nunca teve uma atitude racista, ao contrário, propôs um trabalho para pesquisarmos personalidades do movimento negro, que estão expostas em cartazes por toda a escola", explica.

Contudo, o aluno confirmou que houve espanto imediato após Antônio aparecer na gincana com a roupa, sendo orientado pela diretoria do colégio a retirar a vestimenta o quanto antes.

Ainda no pátio, parte dos estudantes se surpreendeu com a ação, enquanto outros esnobavam, acreditando tratar-se do "Zé Gotinha".

Medidas administrativas

Em nota lançada pelo professor, ele se declara profundamente antiracista, classifica o episódio como um "grande mal-entendido".

Ele também enfatiza que a fantasia estava em seu armário por conta da peça teatral que remonta sempre durante o mês da consciência negra, mas não conseguiu realizar durante o último ano devido ao afastamento causado pelo novo coronavírus. Mesmo assim, decidiu integrar os alunos, que poderiam reconhecer a fantasia da peça.

Neste momento, fui filmado por celular e essa filmagem gerou a denúncia contra mim, por pessoas que desconheciam o contexto. [...] Peço aqui desculpas sinceras pelo choque causado, mas reitero que a intenção era a divulgação da nossa peça teatral. Porque de fato a simples visão da indumentária desses racistas facínoras, a quem eu repudio, é digna de asco”, acrescentou.

A Secretaria de Educação foi notificada pela coordenação escolar pouco após o episódio, encaminhando o caso para avaliação.

Apesar de condicionado aos órgãos responsáveis, o educador é um funcionário público concursado, com a escola impossibilitada de decidir sobre seu afastamento.