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Quais são os elementos que configuram a propagação de manifestações?

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, a jornalista e professora, Denise Paiero, explicou o contexto e características que configuram protestos ao longo da História

Victória Gearini | @victoriagearini Publicado em 26/04/2021, às 19h31

Protesto contra o aumento das tarifas de ônibus em Porto Alegre
Protesto contra o aumento das tarifas de ônibus em Porto Alegre - Wikimedia Commons

Ao longo da História, diversas sociedades e civilizações foram marcadas por questões políticas, econômicas, sociais e culturais. Diante desses cenários é possível analisar que desde os primórdios existem conflitos entre diferentes territórios. Além disso, outro ponto muito comum ao longo dos séculos são as manifestações populares. 

Manifestações são atos coletivos em que um grupo de pessoas se reúnem em variados espaços para expressar opiniões da esfera pública, sendo ela na maioria das vezes relacionada a política e a econômica.

Para explicar os elementos que fazem parte de protestos, o site Aventuras na História convidou a jornalista e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Denise Paiero

Contextos sociais

De acordo com a especialista, protestos e rebeliões caminham junto com a história da humanidade. Para ela é essencial analisar tais elementos e contextos, uma vez que esses atos podem impactar diretamente a sociedade como um todo.

“Rupturas, mudanças e também ciclos de repressão surgem a partir de grandes protestos. Quem protesta quer mostrar, de forma geral, sua insatisfação com alguma situação e, a partir dessa visibilização da insatisfação, provocar mudanças. Por outro lado, geram muitas vezes reações opostas, que podem levar a resultados contrários aos esperados”, disse ela. 

Manifestações na cidade de São Paulo, em 2013 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Denise Paiero explicou que ao longo da história é possível perceber que manifestações populares foram responsáveis por grandes mudanças, sendo elas negativas ou positivas.

“No Brasil não é diferente: em vários momentos da história os protestos foram importantes. Vejamos, por exemplo, os protestos pelas 'Diretas Já'. Não há dúvidas de que eles impulsionaram as mudanças que ocorreram a partir dali. E exemplos como esse não faltam no Brasil e no mundo. Mais recentemente, tivemos nos EUA, com repercussões para outras partes do mundo, os protestos contra o racismo. É praticamente consenso entre especialistas em política que eles tiveram impacto nos resultados das eleições dos EUA. Ao mesmo tempo, a percepção de ameaça de determinada mudança também pode levar a protestos, como vimos no Brasil na 'Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 1964'”, explicou a professora. 

Outro ponto levantado pela jornalista foi a pluralidade de pautas abordadas em um determinado protestos. Para ela, embora os resultados na maioria das vezes não sejam controláveis e previsíveis, as manifestações são responsáveis por movimentar a sociedade.

“Hoje temos protestos globalizados em várias áreas, por exemplo nas pautas ambientais, nas que envolvem questões de racismo e de gênero. E o que já foi demanda de nichos específicos tem ganhado peso e as ruas em várias partes do mundo. Os impactos que essas manifestações terão ainda não podem ser totalmente compreendidos, pois estamos no meio de seu desenrolar. Mas creio que muito ainda irá acontecer a partir da visibilização dessas demandas”, comentou.

Já no Brasil, atos populares foram cruciais no âmbito político, econômico e social, uma vez que impactaram diretamente ou indiretamente a sociedade brasileira.

Manifestação contra a ditadura militar no Brasil / Crédito: Wikimedia Commons

 

“Se olharmos para nossos últimos 60 anos, encontraremos a ‘Marcha da Família com Deus pela Liberdade’, todos os protestos que vieram depois contra a ditadura militar e pela Democracia, como as ‘Diretas Já’, os movimentos pelo Impeachment de Fernando Collor, as ‘Jornadas de Junho’ de 2013, às manifestações contra e a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, as manifestações contra e a favor da prisão de Lula, o movimento que ficou conhecido como ‘Ele Não’, contra a eleição de Jair Bolsonaro e muitos outros movimentos que tiveram impacto direto nos rumos do país. Alguns, com resultados positivos para os manifestantes, outros, com resultados opostos. Mas todos, de alguma forma, afetaram o que aconteceu no Brasil depois”, argumentou ela.

Características e elementos que compõem os atos 

Conforme a análise da professora, para quem protesta é fundamental dar visibilidade às demandas pautadas no ato. Em geral, manifestantes buscam se comunicar com dois grupos: para quem é direcionado o protesto e para quem vai apoiar a ação. Diante dessa perspectiva é possível compreender, ainda, que as manifestações possuem diversos elementos que costumam se repetir. 

“O primeiro elemento importante que salta aos olhos quando pensamos em protestos é o uso do próprio corpo. Corpos podem ser pintados — como no famoso exemplo dos ‘Caras Pintadas’, que protestavam contra o presidente Fernando Collor de Mello. O corpo nu também já foi amplamente utilizado para protestar, o corpo que é colocado em greve de fome é outro exemplo. E, principalmente, os corpos que se unem em multidões que protestam por uma causa. A multidão, aliás, é um dos elementos mais comuns e mais importantes na visibilidade dos protestos. Corpos também podem fazer longas caminhadas, como acontece com as 'Marchas anuais dos Sem-terra a Brasília', por exemplo”, analisou Denise Paiero. 

Segundo a especialista, existem outros elementos marcantes que ajudam a compor os protestos, como o uso de objetos simbólicos; o som (música, gritos, palavras de ordem) ou o silêncio; fogo (seja para iluminar ou reivindicar algo de forma simbólica) e; roupas e acessórios.

Manifestação do Movimento Passe Livre (MPL) / Crédito: Wikimedia Commons

 

“Roupas com as cores da bandeira do Brasil, por exemplo, foram amplamente utilizadas nas manifestações pró-impeachment  da presidenta Dilma Rousseff. Elas também haviam aparecido anteriormente em manifestações pelas ‘Diretas já’. Uniformes profissionais também podem ser utilizados, buscando facilitar a identificação dos agentes do protesto, por exemplo, quando enfermeiros utilizam seus jalecos para protestar por melhores condições de trabalho”, disse ela. 

Além disso, faixas e cartazes são elementos historicamente comuns em manifestações ao redor do mundo. Neste caso, o intuito do manifestante é se comunicar de maneira rápida e clara com os receptores. Portanto, textos curtos e frases de efeito tendem a compor os atos. 

O papel da mídia 

Durante suas pesquisas, a jornalista percebeu que nos últimos anos as redes sociais foram de extrema importância para a divulgação e organização de protestos. 

“Percebo que em boa parte da cobertura da imprensa os protestos, principalmente os que não dizem respeito a demandas de grande parte da população — aparecem, muitas vezes, apenas por imagens que causam impacto ou por suas consequências diretas na rotina da cidade (por exemplo, um protesto que para o trânsito de uma região é mostrado apenas pelo efeito direto no trânsito). É muito comum que as causas dos protestos não sejam discutidas ou sequer informadas. Por vezes, falta informação. E isso pode ser um problema. Há ainda uma tendência à maior cobertura de protestos que estejam ligados à linha editorial do veículo, obviamente”, comentou ela. 

Por outro lado, para Denise Paiero, ao longo da história a imprensa desempenhou um papel fundamental na ampliação da visibilidade das manifestações. Além disso, os veículos jornalísticos já foram responsáveis por ajudar a provocar reflexões e desenvolvimentos de muitos protestos.


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