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Revoltou congressistas: A desastrosa restauração de "A Imaculada Conceição" na Espanha

Em 2020, a tentativa de reparar o rosto da Virgem Maria custou caro para o dono, rendendo um resultado bizarro

Wallacy Ferrari, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 10/10/2021, às 08h00

Montagem contendo a obra original e a mesma obra com um borrão em mosaico
Montagem contendo a obra original e a mesma obra com um borrão em mosaico - Wikimedia Commons / Domínio Público

Buscando obter melhor qualidade e nitidez em uma de suas obras preferidas, um colecionador não identificado decidiu contratar, em junho de 2020, o serviço de um homem que se apresentou como restaurador.

A missão seria complicada dada a importância da peça que o dono administrava com cuidados especiais.

Tratava-se do quadro "A Imaculada Conceição", confeccionada pelo artista espanhol Bartolomé Esteban Murillo em um período estimado em cinco anos, entre 1656 e 1660.

Nela, a Virgem Maria está representada em roupas claras com um toldo azul sobre o ombro esquerdo, além de estar acompanhada de bebês, sob seus pés, representando anjos.

Tamanha meticulosidade necessária para manter suas características, o suposto restaurador estimou a reforma na pintura em 1 mil libras (aproximadamente R$ 6,7 mil na cotação atual). O resultado, no entanto, foi bem diferente.

Restauração falha

De acordo com reportagem do jornal britânico The Guardian, o profissional contratado para o serviço tentou abraçar a tentativa com cuidado.

Ele recomeçou o projeto de restauração em duas tentativas, sem conseguir recuperar o aspecto original. Pior ainda; havia perdido as características originais que restavam.

Tanto pela feição da figura quanto pelo erro na escolha do material para a nova camada resultaram em uma nova criação peculiar, longe dos traços barrocos do artista espanhol.

Quando entregue, o incômodo notável do colecionador resultou em uma acalorada discussão, principalmente após a divulgação das imagens da “nova versão”.

Fama negativa

Com o controverso resultado, a obra se tornou motivo de chacota e debate entre especialistas em obras de arte na Espanha, que pediram ao Congresso a criação de leis de punam restaurações amadoras prejudicando o resultado das obras. O ocorrido foi comparado com a falha restauração na obra “Ecce Homo”, em 2012.

Em entrevista ao The Guardian, Fernando Carrera, professor especialista em restauração de uma escola de arte da Galícia, manifestou incômodo com esse tipo de trabalho: "Não acho que esse cara, ou essa gente, possa ser chamada de 'restaurador'. São impostores. Eles destroem coisas".

De acordo com o portal G1, a Associação Profissional de Restauradores e Conservadores da Espanha (Acre) também se pronunciou negativamente sobre o resultado e, principalmente, sobre a atitude do homem, classificado como "vândalo", que escapou de punição pela inexistência de proteções legais a obras: "Essa falta de regulamentação se traduz na falta de proteção de nossa herança".