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Sem eletricidade e água corrente: A simplista saga de Hannah Hauxwell

Oriunda de uma família sem muitas riquezas, Hauxwell se acostumou a uma vida sem grandes sofisticações após as dificuldades sofridas durante a Grande Depressão

Fabio Previdelli Publicado em 19/01/2021, às 11h21

Hannah Hauxwell
Hannah Hauxwell - Bowes Museum

Hannah Hauxwell era filha única. Nascida em North Riding of Yorkshire, em Baldersdale, Inglaterra, onde seus pais William e Lydia alugavam uma fazenda, ela se mudou ainda jovem, aos três anos, para a Low Birk Hatt, em 1929.  

Logo no início de sua vida, passou por momentos difíceis durante a Grande Depressão. Essa fase se tornou ainda mais dura quando seu pai faleceu. Ela tinha apenas seis anos de idade. Com isso, seu tio Tommy assumiu a administração da fazenda da família.  

Hauxwell frequentou a escola Baldersdale até seus 14 anos. Duas décadas depois, ela ficou sozinha cuidando da fazenda depois que seu tio morreu. Três anos antes, já havia perdido.  

Desde de muito cedo, devido — em partes — aos problemas financeiros da família, Hannah já era acostumada a viver uma rotina muito simples. Ela não dispunha de eletricidade e tampouco de água corrente. O contato humano acontecia de maneira periódica apenas. 

A fazendeira Hannah Hauxwell / Crédito: DIvulgação/ Mark Pinder

 

Ela só matava sua sede em um riacho próximo a sua fazenda e recolhia pão em um campo a vários quilômetros de distância dali. Seu mundo era iluminado por uma lamparina a óleo e muitos enxergavam nela o retrato sofrido daqueles que viveram no pós-Segunda Guerra Mundial, embora o conflito tenha cessado décadas antes.  

O mundo

Em 1973, a fazendeira tem sua história contada no documentário "Too Long a Winter", produzido pela Yorkshire Television. O filme, que começa com ela levando uma vaca para um galpão durante uma nevasca em Baldersdale, a tornou uma celebridade nacional.  

Todos queriam saber como ela cultivava sozinha uma fazenda tão grande. Isso sem contar sua extrema solidão — já que não via ninguém por semanas —, e seu baixíssimo orçamento de 5 libras por semana. 

Hannah em Too Long a Winter / Crédito: Divulgação

 

Fora isso, uma vez por mês, Hauxwell coletava um pacote de alimentos básicos em uma propriedade vizinha que ficava próxima da estrada, a mais ou menos três quilômetros de distância. Duas vezes ao ano, Hannah também recebia uma galinha de presente.  

Na sua fazenda, ela tinha apenas uma vaca leiteira e dois bezerros. Embora tivesse apenas 46 anos quando o documentário foi filmado, seus cabelos já eram todos brancos.  

A repercussão 

Após a exibição de "Too Long a Winter", as redes de televisão da Inglaterra passaram a receber centenas de telefonemas e sacos volumosos contendo presentes e dinheiro para a “velha senhora de Yorkshire Dales”. Isso permitiu que ela tivesse eletricidade instalada em sua residência e ainda pudesse investir em mais algumas vacas.  

Hauxwell foi uma das várias fazendeiras de Dales apresentadas no programa, mas foi ela quem prendeu a imaginação dos telespectadores, com seu dom de articular sua vida simples de uma maneira poética e fascinante. 

Como resultado, o diretor do documentário, Barry Cockcroft, a levou para sua primeira viagem a Londres, onde gravou outra produção: "Hannah Goes to Town", em 1977. Por lá, Hauxwell compareceu à festa de gala das Mulheres do Ano no hotel Savoy como convidada de honra e conheceu a Duquesa de Gloucester. 

Quando, uma década depois, Cockcroft — que fez muitos outros filmes sobre pessoas enfrentando existências difíceis — soube que Hauxwell estava pensando em deixar Low Birk Hatt, ele fez um novo documentário "A Winter Too Many" (1989).  

A saúde de Hannah estava piorando e a tarefa de administrar uma fazenda isolada, especialmente em temperaturas abaixo de zero, estava se tornando cada vez mais difícil. 

A própria casa estava em ruínas e empilhada até as vigas com pertences acumulados ao longo de seis décadas. “No verão eu moro e no inverno existo”, ela refletiu no filme, que mostrava sua partida emocional pouco antes do Natal de 1988. “Uma grande parte de mim, onde quer que esteja, será deixada aqui”. 

O documentário terminou com Hauxwell e seus pertences restantes partindo em um caminhão de mudanças, rebocados da fazenda por um trator enquanto a neve voltava. Ela se mudou para uma cabana na vila próxima de Cotherstone, deixando para trás um pasto que mais tarde foi designado Sítio de Interesse Científico Especial e chamado de Hannah's Meadow, onde agora é uma reserva natural. 

Em sua nova casa, ela desfrutava de comodidades modernas, o que incluía um banheiro, aquecimento central e água quente e fria. No entanto, a casa ficou abarrotada de pilhas de seus pertences.

Mesmo morando na rua principal de um vilarejo mais sofisticado para seu estilo de vida, a fazendeira ainda não tinha se adaptado totalmente a ver a vida que passava em frente a sua janela. “Sinto falta de um pouco de terreno próprio”. 

Hannah em A Winter Too Many / Crédito: Divulgação

 

Hauxwell sempre foi extremamente grata pelas melhorias em sua vida depois que foi "descoberta" por Cockcroft, que viu nela o potencial para mais programas de televisão. Anos depois, o diretor a levou para uma grande viagem pela Europa, onde gravou "Hannah Hauxwell: Innocent Abroad", de 1992. 

Em sua jornada, ela viveu momentos inesquecíveis, como conhecer o papa. Posteriormente, Barry a levou para conhecer o outro lado do Atlântico, quando dirigiu “Hannah: EUA”, em 1994. “Achei que eles seriam mais civilizados e saberiam fazer o chá da maneira certa”, disse ela ao visitar Nova York. 

Depois de se estabelecer em Cotherstone, ela tornou-se parte da comunidade, frequentando a capela metodista e ingressando em um retiro para pessoas com mais de 60 anos. Hannah se mudou para duas casas de repouso: a primeira em Barnard Castle, em 2016; e a outra em West Auckland, no ano seguinte.

Hannah Bayles Tallentire Hauxwell morreu em 30 de janeiro de 2018, aos 91 anos. Após seu velório na Igreja Metodista do Castelo de Barnard, Hauxwell foi sepultada no cemitério Romaldkirk, não muito longe de Low Birk Hatt.


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