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Traudl Junge, a intensa saga da última testemunha do Führer

"Admito, fiquei fascinada por Adolf Hitler”, declarou a ex-secretária em uma de suas últimas entrevistas sobre a vida particular do ditador alemão

Fabio Previdelli Publicado em 30/04/2020, às 07h00

Foto de Traudl Junge
Foto de Traudl Junge - Getty Images

Um homem gentil e paterno, que não comia muita coisa além de purê de batatas e vegetais. Um homem que era extremamente apaixonado por seu cachorro. Um homem como todos os outros. Por incrível que pareça, foi assim que uma uma secretária descreveu Adolf Hitler.

A última testemunha, que sobreviveu no círculo interno do Führer, tinha uma visão completamente oposta daquele que foi o responsável pelos maiores crimes contra a humanidade em toda a História.

Junge tinha apenas 22 anos quando o líder alemão a selecionou entre um grupo de centenas de jovens que se candidataram , em dezembro de 1942, para se tornarem uma de suas secretárias.

Por lá, ela vivenciou os momentos mais íntimos e particulares do ditador — e também os mais difíceis.  Quando as tropas soviéticas começaram seu avanço em Berlim, em abril de 1945, Traudl seguiu seu chefe até a relativa segurança do bunker.

No dia 28 daquele mês, quando o lugar balançava a cada explosão do lado de fora, ela datilografava o que seria o documento final do Terceiro Reich: o testamento e o último desejo de Hitler. Dois dias depois, o alemão e sua recém-esposa, Eva Braun, cometeram suicídio.

Ao longo de seus últimos anos de vida, a secretária, que já não era mais tão jovem assim, foi abordada frequentemente por historiadores que procuravam relatos de testemunhas oculares dessa parte sombria da história da humanidade.

Junge jamais se silenciou. Em seu livro de relatos, ‘Até o Fim - Os Últimos Dias de Hitler Contados Por Sua Secretária’, ela encontrou uma maneira de “buscar a reconciliação consigo mesma”, mas enfatiza que não sabia nada sobre o extermínio planejado de milhões de pessoas.

Traudl Junge em seu casamento o Obersturmführer, Hans Hermann Junge / Crédito: Getty Images

 

"Estávamos nos bastidores, no entanto, não sabíamos nada do que estava acontecendo no palco. Era apenas o diretor que estava familiarizado com a peça", declarou em uma entrevista à BBC.

E esse diretor, ela escreve, era uma figura cativante. "Admito, fiquei fascinado por Adolf Hitler. Ele era um chefe agradável e um amigo paternal. Ignorei deliberadamente todas as vozes de advertência dentro de mim e aproveitei o tempo ao lado dele, até o amargo fim."

"Não foi o que ele disse, mas a maneira como ele falava e também como ele fazia as coisas”. Entre essas ‘coisas’, estava incluso seu apetite moderado e a maneira como ele comia apenas verduras e legumes — evitando ao máximo a carne.

Seu cozinheiro austríaco, Kruemel, acreditava que a vida sem carne não valia a pena ser vivida, e costumava tentar colocar um pouco de caldo ou gordura animal na refeição do alemão. "O Führer notava as demasiadas tentativas de Kruemel em enganá-lo e ficava muito irritado — e depois ficava com dor de barriga. No final, ele só deixava que lhe preparassem uma sopa clara e purê de batatas".

Depois de um café da manhã leve, uma das atividades favoritas de Hitler era passear com sua cadela Blondie. "O maior prazer de Hitler era quando Blondie pulava alguns centímetros mais alto que na última vez. Ele dizia que sair com ela era a coisa mais relaxante que ele poderia fazer."

O líder nazista alemão Adolf Hitler desfruta de um piquenique tranquilo entre as reuniões, por volta de 1933 / Crédito: Getty Images

 

Porém, nos últimos dias de abril, Hitler aparentemente havia decidido que a derrota alemã era inevitável e que suas opções eram poucas e inevitáveis. Foi então que ele chamou Junge: “Você está bem descansada? Eu tenho algo para ditar para você”, disse o Fuhrer.

Foi nesse momento em que ela descobriu que seu chefe cometeria suicídio. “Escrevi o mais rápido que pude", relata a ex-secretária. "Meus dedos funcionaram mecanicamente e fiquei surpresa por não ter cometido nenhum erro."

Horas após esse evento, Hitler e Eva Braun se casaram às pressas. Dias depois, em 30 de abril, Eva Hitler vetiu um vestido preto e tomou veneno. Enquanto isso, Adolf deu um tiro em sua têmpora enquanto mordia uma cápsula de cianeto.

Traudl Junge morreu no dia 10 de fevereiro de 2002, aos 81 anos, na cidade de Munique. Em uma de suas últimas entrevistas para o documentarista Othmar Schmiderer, ela disse: "Agora que deixei minha história para trás, posso abandonar minha vida". Ela está enterrada em Nordfriedhof München.


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