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Matérias / Brasil

TV Cubo: A TV pirata que invadia sinais de emissoras de São Paulo nos anos 80

Usando três aparelhos fáceis de encontrar, a emissora clandestina foi uma das primeiras do país a hackear o sinal de canais abertos

Wallacy Ferrari

por Wallacy Ferrari

wferrari@caras.com.br

Publicado em 19/03/2023, às 15h00 - Atualizado em 09/06/2023, às 00h04

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Jornal anuncia intervenção clandestina na televisão - Divulgação / Folha de S. Paulo
Jornal anuncia intervenção clandestina na televisão - Divulgação / Folha de S. Paulo

Em 1986, uma emissora para lá de peculiar aproveitava um buraco nas frequências da cidade de São Paulo para criar uma programação clandestina, livre de qualquer autorização do DENTEL, o antigo Departamento Nacional de Telecomunicações, sendo o órgão executivo do Ministério das Comunicações, responsável também pela regulamentação e vigilância de concessões de TV.

Contudo, no alto de sua clandestinidade, a frequência do canal 3 acabou sendo ocupada pela TV Cubo, que não apenas não cumpria nenhuma norma do DENTEL para ocupar a faixa, como nunca recebeu uma concessão.

Dessa forma, entrava no ar um dos casos mais antigos de TV pirata no Brasil, na época em que o processo era bem mais fácil do que nos dias atuais, com o advento das transmissões a cabo, via satélite e com o padrão digital.

No tempo das parabólicas, bastava um aparelho de videocassete que, ligado a um amplificador de sinais, poderia transformar uma antena receptora em uma emissora, para sobrepor a imagem de um canal real caso a força do sinal pirata fosse maior do que da emissora licenciada nos padrões da lei.

Entrando no ar

De acordo com pesquisas do arquivista Êgon Bonfim, do portal De Olho Na TV, essa combinação de aparelhos custava, na época, aproximadamente Cz$ 16 mil, um custo exorbitantemente menor do que os custos de uma emissora real e legalizada. Com tais instrumentos, iniciava as invasões da TV Cubo, cuja antena alcançava televisores no raio de 1,4 km no bairro do Butantã.

Jornal revela capturas da TV Cubo em manchete / Crédito: Divulgação / Estado de S. Paulo

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, a primeira invasão de sinal é datada da noite de 27 de setembro de 1986, um sábado onde, para anunciar que estariam invadindo o canal 3, os organizadores da TV Cubo ainda invadiram o sinal da TV Cultura, que era no canal 2, e do SBT, que ocupava o canal 4, com um convite narrado por uma mulher.

Tele-humanos em geral, boa noite. Pedimos desculpas mas nesse momento estamos invadindo o ar de seu lar. Nossos objetivos são absolutamente pacíficos. E pedimos que sigam atentamente as nossas instruções. Vocês devem estar nos ouvindo. Para captar nossa imagem, sintonize no canal 3”, descreveu a narração na reportagem.

Programação bizarra

Quando entrou no ar, o conteúdo surpreendeu pelo amadorismo e tom cômico, parodiando e escarnecendo o monopólio das grandes emissoras brasileiras. Em certo trecho, uma imagem de Cid Moreira apresentando o Jornal Nacional era congelada na tela. Um dublador, imitando a voz do âncora, anunciava notícias fictícias mirabolantes — como uma greve de vacas e protesto de indígenas reivindicando as terras no Vale do Anhangabaú, região do Centro Antigo de São Paulo.

Duas imagens coloridas registram trechos da programação da TV Cubo / Crédito: Divulgação / Associação Cultural Videobrasil

Em outro programa, salvo pela Associação Cultural Videobrasil, apresentadores mascarados entrevistaram populares com perguntas hilárias, como "Se você tivesse que chutar alguém, quem você chutaria?”.

Os programas duravam cerca de 10 minutos e, pouco depois da intervenção, o canal 3 voltava a chuviscar, sem nenhum aviso sobre os autores ou quando ocorreriam os próximos programas. Por ocorrerem sem frequência predefinida, certos programas chegaram a ser reprisados em dias diferentes, inclusive com exibição aberta em videoclubes.

O último registro de sua intervenção anunciada é datada de uma quarta-feira, em 1 de abril de 1987, quando o jornal Estado de S. Paulo anunciou que, entre aquele dia e a sexta-feira seguinte, entrariam no ar às 19h — mas acrescentou que o DENTEL, desta vez, estava de olho no ato ilegal. Os registros em vídeo da emissora não estão disponíveis na internet.

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