Matérias » Personagem

Vencedora do Prêmio Nobel e patrona da democracia em Mianmar: A turbulenta saga de Aung San Suu Kyi

Influente por seu ativismo a favor dos Direitos Humanos, Suu Kyi acabou sendo presa após um golpe de Estado em Mianmar, seu país de origem, na madrugada desta segunda-feira

Fabio Previdelli Publicado em 01/02/2021, às 17h30

A líder política Aung San Suu Kyi
A líder política Aung San Suu Kyi - Getty Images

Na madrugada desta segunda-feira, 1, em horário local, os militares de Mianmar anunciaram que tomaram o poder do país mesmo após as eleições democráticas apontarem para a vitória esmagadora da Liga Nacional pela Democracia, NLD, na sigla em inglês), partido liderado por Aung San Suu Kyi.  

Segundo os militares, as eleições foram fraudadas. Em resposta, Suu Kyi afirma em carta que o ato dos seus opositores colocou o país novamente sob a ditadura. Além disso, ela pediu que seus partidários “não aceitem isso” e “protestem contra o golpe”. 

Após o anúncio, as conexões de internet móvel e de linhas telefônicas foram interrompidas nas principais cidades do país. Paralelamente a isso, a emissora estatal MRTV alega que sofre com problemas técnicos, motivo pelo qual está fora do ar.  

No país asiático, o povo, agora, vive de incertezas e com o medo da ditadura que tanto os assolou. A mesma insegurança é vista em Suu Kyi. Tida como um exemplo de liderança que luta pelos direitos humanos, ela foi alvo de críticas por, supostamente, ser complacente com os atos de violência, estupro de genocídio contra a minoria muçulmana dos Rohingya, o que colocou em xeque sua figura consolidada.  

Aung San Suu Kyi e a vida política 

Nascida de 19 de junho de 1945, pouco depois da Segunda Guerra, Suu Kyi entrou relativamente tarde para a vida política, embora fosse filha do herói da independência birmanesa — antigamente Mianmar tinha o nome de Birmânia. 

Um retrato de família, com Aung San Suu Kyi, tirado pouco antes do assassinato de seu pai em 1947 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Porém, tudo mudou em 1988, quando ela já tinha 43 anos e atuava no setor acadêmico. Afundado em uma crise, a população clamava por alguém que seria capaz de reunir as diferentes forças oposicionistas. Aung San era essa figura.  

Assim, em agosto daquele ano, esteve diante de uma plateia de 500 mil pessoas, ao pé de um importante centro religioso budista do país, o Pagode Shwedagon, chamando a população para a “segunda luta pela independência nacional”. Naquele momento, ela se transformava numa líder incontestável de grande identificação com a maior parte da massa. Porém, o clima de novos tempos não durou muito.  

No mês seguinte, as Forças Armadas deram um golpe de estado. Milhares de revolucionários morreram, muitos estudantes buscaram refúgio em outros países e muito líderes foram encarcerados por décadas. Além disso, os militares prometeram que novas eleições iriam acontecer e que um sistema pluripartidário seria implantado no país.  

Pouco depois da tomada de poder pelos militares, Suu Kyi criou a Liga Nacional pela Democracia, de onde passou a ser secretária-geral. As eleições aconteceram dois anos depois, em 1990, com o NLD conseguindo quatro quintos dos assentos parlamentares.  

Apesar do resultado, a vitória popular jamais foi seguida, já que Aung San Suu Kyi foi colocada em prisão domiciliar. Entre 1989 e 2010, ela passou 15 anos isolada em Yangon, sua cidade natal e antiga capital de Mianmar.  

Prêmio Nobel, ativismo e importante figura 

Até 1991, poucos sabiam as reais condições do povo mianmarense, entretanto, quando Suu Kyi recebeu o Prêmio Nobel da Paz naquele ano, o país passou a receber a atenção necessária e Aung se transformou numa importante figura na luta pelos direitos humanos e da democracia.  

Sua personalidade contrastava com a visão que as pessoas tinham dos inescrupulosos militares, afinal, ela era vista com uma budista que seguia a política de não violência de Gandhi e que pregava a democracia e a “libertação do medo”.  

Assim, passou a ser referenciada em livros, filmes e até mesmo em músicas pop. Porém, Suu Kyi pagou um preço caro por sua reputação. Quando seu marido adoeceu, vítima de um câncer, a junta militar impediu que ele adentrasse no país, dizendo que por lá ele não receberia o tratamento que necessitava. Por outro lado, liberou que Aung San fosse até Londres. Porém, ela rejeitou perante a incerteza de que poderia retornar a Mianmar.  

A situação incerta do país perdurou até 2010, quando as eleições legislativas foram feitas por lá. Com isso, o ex-general Thein Sein foi eleito presidente, anunciando que aplicaria um abrangente programa de reformas e abertura política.  

Suu Kyi encontra-se com Edgardo Boeninger, do National Democratic Institute for International Affairs, em 1995 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Suu Kyi, por sua vez, foi liberada da prisão domiciliar e decidiu participar do processo político seguindo os termos de uma Constituição aprovada dois anos antes pelos militares, sendo menos radical, o que lhe rendeu críticas. "Fico sempre surpresa quando as pessoas falam como se eu tivesse acabado de virar política. Eu me engajei na política, e não como defensora ou ativista dos direitos humanos”, disse ao explicar sua decisão. 

Vitória nas eleições e as polêmicas 

No pleito seguinte, em 2015, a NLD venceu com folga. Porém, a Constituição impedia que Aung se tornasse presidente, já que seu marido era estrangeiro. Isso fez com que ela assumisse o cargo de conselheira do Estado, que foi criado especialmente para ela, atuando como se fosse uma primeira-ministra. 

Apesar da boa perspectiva, o partido não conseguiu os logros econômicos desejados e também fracassaram ao tentarem mudar o sistema político de dentro para fora. Como se não bastasse, entre 2016 e 2017, a milícia mulçumana Arakan Rohingya Salvation Army atacou as forças de segurança do estado Rakhine, no leste do país. 

Como resposta, o Exército agiu com força desproporcional, com mais de 700 rohingyas sendo obrigados a fugir para Bangladesh. O grupo também relatou que os militares iniciaram um genocídio e uma série de estupros contra eles. A ONU reprendeu o ato, o classificando como “limpeza étnica”. 

Suu Kyi, por sua vez, só se manifestou sobre os atos violentos muito tempo depois, e ainda não foi muito enérgica em relação a isso, o que fez com que diversos ativistas dos direitos humanos e antigos apoiadores condenassem sua postura, a transformando em cúmplice dos militares. Assim, em consequência por seus atos, muitas condecorações que lhe foram dadas, acabaram sendo retiradas, o que inclui a da Anistia Internacional.  

O resultado das eleições, a prisão de Aung e a repercussão internacional 

Apesar de todas essas polêmicas, o NDL conquistou 83% das cadeiras parlamentares nas eleições de 8 de novembro, a segunda desde o fim do regime militar em 2011. Entretanto, os militares contestaram o resultado, alegando fraude e apresentando uma denúncia ao Supremo Tribunal Federal.  

Posteriormente, os militares ameaçaram “agir” por causa da suposta fraude. A ameaça logo se tornou em algo concreto no dia de hoje, quando eles deram um golpe de Estado e repassaram toda a autoridade do comandante do Exército Min Aung Hlaing.  

Suu Kyi se reunindo com Barack Obama na Casa Branca em setembro de 2012 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com o anúncio, centenas de países e líderes políticos criticaram o golpe. Antonio Guterres, secretário geral da ONU, reprovou a ação do exército. "A declaração de transferência de todos os poderes legislativos, executivos e judiciais aos militares (...) representa um duro golpe para as reformas democráticas em Mianmar", declarou. 

"Esperamos que todas as partes envolvidas em Mianmar solucionem suas diferenças no âmbito da Constituição e das leis para manter a estabilidade política e social", disse Wang Wenbin, porta-voz do governo chinês. 

No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson, escreveu uma nota em sua conta no Twitter exigindo que os políticos fossem libertados e condenando o golpe. "Condeno o golpe de Estado em Mianmar e a detenção ilegal de civis, incluindo Aung San Suu Kyi", declarou. 

O governo americano também se mostrou contrário à decisão do exércio. A porta-voz Jen Psaki, declarou, em comunicado, que "o governo dos Estados Unidos se opõe a qualquer tentativa de alterar o resultado das recentes eleições ou de impedir a transição democrática em Mianmar e adotará ações contra os responsáveis caso estas medidas não sejam revertidas".


++ Saiba mais sobre o tema através de grandes obras disponíveis na Amazon: 

The Voice of Hope: Conversations with Burma's Aung San Suu Kyi (English Edition), de Alan Clements (eBook) - https://amzn.to/2YN4X4h

Freedom From Fear: And Other Writings (Inglês), Freedom From Fear: And Other Writings (Inglês), de Aung San Suu Kyi (2010) - https://amzn.to/3pGbUzB

Letters from Burma, de Aung San Suu Kyi (2010) - https://amzn.to/3r48K9k

A Political Biography of Aung San Suu Kyi: A Hybrid Politician (Inglês), de Michał Lubina (2020) - https://amzn.to/3tfDC8L

The Hidden History of Burma – Race, Capitalism, and the Crisis of Democracy in the 21st Century (Inglês), de Thant Myint–u (2019) - https://amzn.to/3oDswHc

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, a Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.

Aproveite Frete GRÁTIS, rápido e ilimitado com Amazon Prime: https://amzn.to/2w5nJJp 

Amazon Music Unlimited – Experimente 30 dias grátis: https://amzn.to/2yiDA7W