Cartagena de Indias

Durante o período colonial, a belíssima cidade colombiana foi alvo de ataques de franceses e britânicos. Os colonizadores espanhóis trataram de construir fortificações para proteger seu patrimônio no mar do Caribe

Ricardo Bonalume Neto Publicado em 01/04/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Construída em torno de uma ampla baía e cercada de vegetação, Cartagena de Indias, na Colômbia, lembra em beleza o Rio de Janeiro ou Salvador. A belíssima cidade murada do mar do Caribe é hoje patrimônio histórico-cultural da humanidade. Como era um ponto importantíssimo do domínio espanhol na região, foi alvo de vários ataques estrangeiros durante a era colonial.

Restam ainda 8 km de muralhas dos originais 11 km que cercavam os dois bairros mais antigos, a cidade velha na ilha de Calamari e seu acréscimo na vizinha ilha de Getsemaní. O conjunto é completado por outras obras de fortificação fora da velha cidade murada, como a monumental fortaleza de San Felipe de Barajas, ou os fortes que guardam a entrada da baía em Bocachica.

Primeiros saques

Esse grande sistema de defesa foi construído aos poucos. Cartagena foi fundada em 1533 e ainda não tinha muralhas quando foi saqueada pela primeira vez por um pirata francês, em 1543. Um novo ataque ocorreu em 1559, quando já havia algumas paliçadas e trincheiras com alguns poucos canhões. E mais outro ataque aconteceu em 1568.

Esse despreparo facilitou a tarefa de Sir Francis Drake, o mais importante corsário da Inglaterra na era da primeira rainha Elizabeth. Drake tomou Cartagena em 1586, durante uma expedição em que também causou estragos em Santo Domingo (República Dominicana) e no Panamá. Foi o que bastou para fazer os espanhóis decidirem fortificar de verdade a cidade.

Cartagena foi fundada em uma ilha adequada para fortificação. Pelo lado do oceano era difícil atacá-la, graças a recifes, à pouca profundidade do mar e à violência da rebentação. Restava ao invasor atacar por dois estreitos caminhos em istmos ao sul e ao norte da cidade, ou pelo interior, pelo vale a leste . Drake pôde atacar pelo istmo do sul, pois ainda não havia fortificação nesse ponto.

Para evitar novo saque, a monarquia espanhola enviou a Cartagena o arquiteto militar italiano Bautista Antonelli, que permaneceu na cidade de 1586 a 1594 e fez seu plano urbano básico. Outros engenheiros continuaram o projeto ao longo dos anos, incluindo um sobrinho de Antonelli. Cartagena foi fortificada por causa de seu papel estratégico nas rotas de comércio espanhol no Caribe. Dali saía para a Espanha a riqueza que estava sendo retirada do Peru.

A princípio os navios entravam pelo canal de Bocagrande. Mas o canal se fechou depois que dois navios portugueses afundaram ali, em 1640. A maré e a corrente marítima foram acumulando areia sobre os navios, e a barra fechou-se. Mesmo hoje o mar é raso nesse ponto. Para a sorte da cidade havia outra opção de entrada no porto. O mesmo movimento de águas que encheu Bocagrande de areia também aprofundou o canal mais ao sul, a chamada Bocachica (“boca pequena”), estreita (apenas 160 metros) e, portanto, mais fácil de fortificar.

Ataque francês

Mesmo com as fortificações já bem desenvolvidas, o almirante francês Jean Bernard Louis Desjean, o Barão de Pointis (1645-1707), atacou com sucesso a cidade em 1697. Pointis comandava uma esquadra de 20 naus e fragatas, incluindo alguns navios menores de corsários. Além dos 2,3 mil marinheiros e 1,7 mil soldados regulares vindos da França, Pointis recebeu o reforço de 1,2 mil colonos franceses, incluindo um temível grupo de 600 a 800 flibusteiros, comandados por Jean Ducasse, governador das Antilhas francesas.

A tibieza da guarnição espanhola deveu-se muito à inação do governador Diego de Los Rios, como revela o historiador Enrique de la Matta Rodríguez, autor do livro El Asalto de Pointis a Cartagena de Indias. Mas a guarnição espanhola estava em inferioridade numérica – eram apenas 750 soldados regulares, mais algumas centenas de milicianos. Como já não era mais possível atacar a cidade pelos istmos estreitos e bem artilhados, Pointis optou por entrar na baía e atacar Cartagena pelo interior.

O primeiro passo foi tomar o forte de San Luís, em Bocachica. Seus 150 homens e 33 canhões não foram suficientes para impedir a tomada da entrada da baía. O passo decisivo, porém, foi a penetração pelo vale logo abaixo da “colina da Popa da Galera”, que tem esse nome por lembrar a parte traseira de um navio. Essa colina domina a cidade de longe, e dali se tem uma excelente vista de toda a baía. No seu topo está o Convento da Popa, um mirante privilegiado e hoje uma popular atração turística.

Entre a “popa” e a cidade antiga está outra colina, San Lázaro, de onde um inimigo pode bombardear o recinto murado. Foi para evitar que um inimigo ali se instalasse que se construiu nessa colina, já em 1656, o pequeno forte de San Felipe de Barajas – transformado na segunda metade do século 18 na gigantesca fortaleza com o mesmo nome.

Em 1697, San Felipe era constituído apenas por um fortim triangular, que ainda existe hoje. O fortim foi tomado pelos franceses. Instalados em La Popa, puderam bombardear San Lázaro e o pequeno forte; e tomada essa última colina, a sorte de Cartagena foi selada. Dali foi possível bombardear a cidade diretamente. A cidade rendeu-se e Pointis a ocupou em 4 de maio de 1697.

O ataque francês era um misto de guerra com puro saque e empregava tanto tropas regulares e navios da marinha como os flibusteiros. Um oficial de marinha francês, o então guarda-marinha Louis de Chancel de Lagrange, fez papel de tradutor e escreveu um relato da tomada da cidade, completo com um mapa de Cartagena. Coincidentemente, faria o mesmo pouco mais de uma década depois em outro ponto da América do Sul. Ele também fez parte da esquadra que tomou o Rio de Janeiro em 1711, quando seus dotes lingüísticos voltaram a ser empregados. E também deixou mapa e relato da expedição ao Brasil.

O fracasso britânico

Ironicamente, um ataque bem mais imponente a Cartagena de Indias falhou décadas depois. O ataque britânico de 1740-42 aos espanhóis no Caribe foi uma expedição militar de primeira grandeza. Uma estimativa tradicional dá um poderio de 186 navios à força britânica – dos quais 29 naus, 22 fragatas e dezenas de navios de guerras menores e navios de transporte para cerca de 14 mil soldados, incluindo os recrutados nas colônias americanas, os futuros Estados Unidos. Além dos soldados, havia aproximadamente 15 mil homens das tripulações dos navios.

O sítio durou pouco mais de dois meses. Os espanhóis tinham apenas entre 3 mil e 4 mil homens. Mais uma vez as fortalezas tinham sido aperfeiçoadas, de acordo com os planos do arquiteto militar Juan de Herrera y Sotomayor, embora não tanto quanto seriam posteriormente. Mas dessa vez elas cumpriram melhor seu papel.

Assim como os franceses quatro décadas antes, os britânicos atacaram as defesas de Bocachica. De novo o forte San Luís foi tomado e destruído. Aconteceu o mesmo com a segunda linha de defesa, a fortaleza de Santa Cruz. O roteiro era praticamente o mesmo de 1697. Mas os britânicos não conseguiram tomar o forte de San Felipe no alto da colina. Seus 250 homens e 245 canhões resistiram em 20 de abril de 1741 a um assalto por 1,5 mil soldados britânicos. Um mês depois, os britânicos tiveram de bater em retirada.

O ataque fracassou, sobretudo, pela falta de colaboração entre os dois comandantes britânicos, o almirante Edward Vernon e o general Thomas Wentworth, conforme demonstrou o historiador Richard Harding (autor de Amphibious Warfare in the Eighteenth Century - The British Expedition to the West Indies, 1740-1742). Sem as tropas adicionais que seriam os marinheiros de Vernon, e sem um trem de artilharia de sítio eficaz, Wentworth pouco pôde fazer. O assalto desastrado ao forte de San Felipe de Barajas selou a sorte dos britânicos.

Mas pesaram muito o melhor estado das fortalezas e as doenças tropicais, além do heroísmo da guarnição local, tipificado pelo comandante militar espanhol, o almirante Don Blas de Lezo y Olavarrieta (1689-1741). Em guerras anteriores ele perdera um braço, um olho e uma perna (seu apelido era medio hombre, “meio homem”). No ataque de 1741 ele foi mais uma vez ferido, e morreu depois da vitória espanhola. Sua estátua está hoje em frente ao forte San Felipe de Barajas, que foi ampliado até se tornar uma das maiores fortificações do continente, dotado de até 68 canhões. Com um detalhe importante: apontando todos na direção de onde viria um inimigo, e incapazes de disparar na direção da cidade mesmo se o local fosse tomado.

A proteção da entrada de Bocachica foi modificada. No lugar do destruído forte San Luís foi construído outro maior, San Fernando de Bocachica. Em 1770, havia 107 canhões protegendo Bocachica, que nunca mais foi tomada.

Na expedição britânica, morreram mais de 10 mil dos 14 mil soldados anglo-americanos, segundo Harding, mas menos de mil em combate. O resto foi vitimado por doenças como malária e febre amarela. Os britânicos estavam tão certos da vitória que até tinham cunhado uma medalha comemorativa. Que foi rapidamente tirada de circulação.

 

Para saber mais

LIVRO

El Asalto de Pointis a Cartagena de Indias, de Enrique de la Matta Rodriguez, Escuela de Estudios Hispano-Americanos de Sevilla. 1979

O relato do ataque francês a Cartagena comandado pelo Barão de Pointis em 1697.