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Os padrões de beleza mudam. Das academias da Antiguidade às modelos atuais, conheça a busca pelo físico ideal

TEXTO Wilson Weigl Publicado em 29/04/2014, às 17h57 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Entenda as mudanças de padrão de beleza ao longo da história
Entenda as mudanças de padrão de beleza ao longo da história - Arquivo Aventuras

Em cada época é fácil identificar o apreço generalizado por um ou outro tipo físico, dos corpos roliços aos mais secos, das barriguinhas pronunciadas aos abdomens tanquinho, dos seios minúsculos aos bustos siliconados. Mas, se hoje qualquer pessoa é dona de seu nariz para decidir se quer frequentar a academia ou viver feliz acima do peso, houve tempos em que ninguém era responsável pelo próprio corpo. Por milênios, a forma física era colocada a serviço de propósitos sociais, militares ou religiosos.

“Na Pré-História, o corpo era arma de sobrevivência, a fim de caçar e correr dos predadores, mas nas primeiras civilizações, os treinos e as atividades sempre estiveram voltados a necessidades coletivas, como guerrear”, diz Denise Bernuzzi de Sant’Anna, professora de história da PUC-SP, autora dos livros Corpos de Passagem e Políticas do Corpo. Em outros períodos, a religião moldou a visão coletiva das questões relativas ao corpo. “Como o corpo era considerado sagrado, a Igreja proibia dissecações e estudos de cadáveres”, diz Luís Ferla, professor de história da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Só entre os séculos 15 e 16 despontou uma nova perspectiva, mais individualizada. Um processo que perdura e se radicaliza até hoje.

PRÉ-HISTÓRIA

A vênus paleolítica



Pouca gente seria capaz de achar sexya moça rechonchuda representada nestaescultura. Pois os arqueólogos que encontrarama peça de 28 mil anos acreditam que elarepresente um modelo de beleza femininavalorizado por nossosantepassados das cavernas.A Vênus de Willendorf, uma escultura deapenas 11 cm,pode ter sido usada em rituaisde fertilidade,já que carnes generosasdurante muito tempo foramconsideradas propíciasà procriação.

1200 a. C. | As primeiras academias

Na Grécia, a educação física eraconsiderada um pilar da formaçãodos homens,que desde meninosfrequentavam os gymnasiums,complexos esportivos quetambém eram centros deformação intelectual. Ali, além detreinar para setornar soldados oucompetir em jogos públicos, osgarotos estudavam filosofia,literatura e música.Havia estabelecimentos específicosparatreinamento de boxe e luta,as palaestras.Os atletas seexercitavam semroupa (gymnos significa“nu” em grego).


SÉCULO I

Mente sã em corpo são

O poeta romano Juvenal, que viveuentre os séculos 1 e 2, foi quemcunhou aexpressão mens sana incorpore sano.Embora deslocadade seu significado original(“Deve-se orar por uma mente sã num corposão”), a citaçãoatravessou milênios. NoImpérioRomano, os treinos militarescom marchas e exercícios pesadosforjavam soldados fortese atléticos.

 

IDADE MÉDIA

Mergulho nas trevas

Sob a influência da Igreja, foram abandonados os hábitos de higiene e saúde herdados dos gregos e romanos. “Cuidados com o corpo eram considerados pecaminosos”, diz Denise Sant’Anna, professora da PUC-SP. Qualquer preocupação estética era vista como afronta às leis divinas. As obras de arte mais escondem que evidenciam os corpos.


1450

O redescobrimento da anatomia

Leonardo da Vinci é o maior dos “artistas-anatomistas” do Renascimento. Encheu vários cadernos com anotações e desenhos sobre o funcionamento de órgãos, ossos e músculos, que estudava dissecando cadáveres. Reproduzida à exaustão, uma das ilustrações dos diários, o Homem Vitruviano (1490), expressa as proporções matemáticas do corpo humano.


RENASCIMENTO

Das virgens às Vênus

O Renascimento resgata valores humanistas e artísticos e o apreço pelos padrões de beleza da Antiguidade. A Virgem Maria, musa dos pintores medievais, cede espaço para representações da deusa Vênus, ninfas e semideuses despidos. As mulheres exibem longos cabelos, formas roliças e voluptuosas e até uma barriguinha pronunciada. Um dos quadros da época é O Nascimento de Vênus (1485), de Botticelli.


1500

O homem nu

Pintores e escultores renascentistas desafiaram a Igreja e deixaram até Jesus Cristo praticamente nu. Deuses, heróis gregos e bíblicos e santos e anjos exibiam músculos definidos, corpos sem pelos e mostravam até os pênis, sem pudor. O maior ícone desse resgate é Davi, de Michelangelo, considerado até hoje modelo de perfeição das formas masculinas.


1900

O pai da musculação

O prussiano Eugen Sandow (1867-1925) enxergou na musculação um filão inexplorado. Bolou alguns dos primeiros equipamentos, criou a primeira competição oficial de fisiculturismo (em 1901) e lançou a primeira revista especializada no gênero, a Physical Culture.


1920

O sex-appeal

Entre os anos 1920 e 30 surgiu a expressão sex-appeal. Ela tentava
explicar a sensualidade no jeito de andar, de falar e até de encarar os homens. Nos chamados Anos Loucos, as mulheres, incorporadas ao mercado de trabalho, adotaram um visual andrógino, com cabelos curtos e seios e quadris disfarçados em vestidos retos. Em 1925, o corte de cabelo à la garçonne era usado por uma em cada três mulheres.


1940

Hollywood

Os astros de Hollywood foram as grandes referências de beleza e forma física durante os anos 40 e 50. Sexy, voluptuosas, com quadris largos e seios fartos acentuados pelos sutiãs com enchimento, divas como Rita Hayworth e Jayne Mansfield encarnaram a femme fatale. Mas a morte prematura consagrou Marilyn Monroe como o maior símbolo sexual de todos os tempos.

 1960

A mulher-violão

Seios fartos, cintura fina e quadris avantajados configuram a silhueta da mulher-violão. O cinema europeu é pródigo em exportar divas nesse padrão, como a francesa Brigitte Bardot. Em contraste, as revistas de moda exaltam um tipo magricela, com jeitão de garoto, cabelos curtos e ausência de curvas, personificada pela inglesa Twiggy, a maior top model da época.


1970

O andrógino

Tempo de liberação sexual e igualdade de direitos entre homens e mulheres. Os padrões de beleza masculinos sofrem mudanças drásticas. “As distinções ficaram mais tênues; os homens deixaram crescer os cabelos, ficaram menos musculosos e usaram roupas unissex”, diz a professora Denise Sant’Anna. Astros do rock como Mick Jagger e David Bowie consagram o visual andrógino.


1980

Mister Músculos

Em 1966, o austríaco Arnold Schwarzenegger era um entre milhares de fisiculturistas. Tudo mudou após ser eleito Mr. Olympia por seis vezes, de 1970 a 1975. Na década de 1980, ele se tornou referência para gerações de praticantes de musculação depois de aparecer em filmes como Conan, o Bárbaro e O Exterminador do Futuro. Em 1989, criou o Arnold Classic Weekend, um dos mais prestigiados eventos mundiais de fitness.


1982 | Ginástica em casa

Fitness para todos: a democratização do videocassete deu impulso ao surgimento dos vídeos com aulas de ginástica para fazer em casa. O mais célebre deles foi o Jane Fonda Workout Video, lançado pela atriz americana em 1982, reunindo exercícios de força, flexibilidade e resistência. Fonda nunca mais parou: na sequência, produziu mais 23 fitas e seis DVDs, o último deles lançado em 2012, aos 74 anos.


1990

Supermodelos

Modelos sempre ditaram padrões de beleza. Mas foi diferente com Cindy Crawford, Naomi Campbell, Claudia Schiffer, Linda Evangelista e Kate Moss, as top models da virada dos anos 1980 para 1990. Altas, magras, curvilíneas sem exageros, dominaram passarelas, capas das revistas e campanhas das grandes marcas a ponto de seus anos de glória terem sido batizados de A Era das Supermodelos.


ANOS 2010

Os reis do octógono

Os adeptos do MMA (Mixed MartialArts) compartilham um padrãocorporal quecaiu no gostomasculino. Boxe, muay-thai,jiu-jítsu ou krav magá sãoalternativas paraconstruirmúsculos e desenvolver atributoscomo agilidade, equilíbrio ecoordenação.A tendênciacomeçou com a família Gracie,um clã de lutadores de jiu-jítsu.Opatriarca Hélio Gracie fezsua primeira luta nosanos 30.