Hugo Chávez: presidente explosivo

Depois de consolidar o poder em seu país, o venezuelano acelera a compra de armas e aumenta a interferência nos assuntos de países vizinhos

Tiago Cordeiro Publicado em 01/03/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Assim que tomou posse em seu terceiro mandato como presidente da Venezuela, Hugo Chávez começou a acelerar os planos de reforma do país rumo ao socialismo. Dizendo-se inspirado em Jesus, “o maior socialista da história”, Chávez deixou claro quais são seus planos: ele pretende acabar com a autonomia do Banco Central, estatizar as empresas de energia, gás e telecomunicações, reescrever os livros escolares e aprovar a reeleição sem limites. Vinte dias depois de assumir a chefia do Executivo, os deputados da Assembléia Nacional aprovaram por unanimidade a Lei Habilitadora, que permite ao presidente governar por decreto durante 18 meses. Chávez também ensaiou mudar o nome do país, de República Bolivariana da Venezuela para República Socialista da Venezuela (depois, mudou de idéia e resolveu manter o nome, conforme estabelecido na Constituição de 1999).

O caudilho venezuelano chegou a ser deposto em 2002, em um golpe de estado com cheiro de intervenção americana, e enfrentou uma crise econômica grave em 2004, depois de enfrentar uma greve geral que parou o país por dois meses. Mas Chávez conseguiu se recuperar e, ao vencer as eleições de 2006, com 63% dos votos, consolidou seu poder.

Sem oposição

“O país vive um bom momento econômico e a oposição política praticamente acabou. Agora Chávez vai atuar em duas frentes: reformar o Estado venezuelano rapidamente e aumentar seu alcance no cenário internacional”, diz a espanhola Catalina Perdomo, especialista em relações internacionais e pesquisadora do International Peace Research Institute, na Suécia. Há quem veja em Chávez um sopro de novidade no continente. “A Venezuela passa por um processo de radicalização rumo à esquerda, de uma forma que não se vê no continente desde os anos 70. Enquanto outros governos de esquerda se aproximam da social-democracia, Chávez recupera, de forma agressiva, o papel do Estado”, diz Rafael Duarte Villa, professor de ciências políticas na Universidade de São Paulo.

Para reforçar a imagem internacional, Chávez acostumou-se a viajar muito, em especial a países mal vistos pelos Estados Unidos – ele foi o primeiro chefe de Estado a visitar o ditador iraquiano Saddam Hussein depois da primeira Guerra do Golfo e vai com freqüência para Irã, Líbia, Catar, Mali, Rússia e Bielo-Rússia. No Vietnã, um país que procura instalar o socialismo de mercado, causou constrangimento ao elogiar a Coréia do Norte. Nessas viagens, além de reforçar a imagem de inimigo do presidente americano, George W. Bush, Chávez faz negócio. Usa o dinheiro das reservas de petróleo – as maiores do planeta localizadas fora do Oriente Médio e que garantem 80% da economia da Venezuela – para comprar armas. Em Moscou, ele já encomendou 100 mil fuzis Kalashnikov AK-103 e negociou a abertura, em seu país, de uma fábrica de armas com capacidade para produzir 25 mil AK-103 por ano – eles serão usados pelo exército e por uma milícia de civis, organizada por Chávez para fazer sua defesa pessoal e agir em caso de uma suposta invasão inimiga.

Também comprou 24 caças Sukhoi e 40 helicópteros blindados, e ainda anunciou que pretende adquirir submarinos lançadores de mísseis, veículos blindados T-90, embarcações navais de superfície e mísseis terra-ar Tor-M1. Com a Suíça, está negociando a compra de 10 radares de defesa. Para a Bélgica, encomendou um upgrade em seus caças F-16, que ganharão mísseis ar-ar Python adquiridos em Israel. Da China, quer três radares tridimensionais JYL. E andou dizendo que pretende investir em usinas atômicas. “Vamos construir uma barreira de defesa sobre o Caribe”, anunciou em 2005.

Outra barreira está surgindo na divisa com a Colômbia, onde estão sendo instalados radares alemães, chineses e ucranianos. Aliás, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, acusa Chávez de apoiar a guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). “Boa parte dessas compras serve para substituir os armamentos defasados e sem manutenção do país. Mas é inegável que esse rearmamento acelerado preocupa os vizinhos, especialmente a Colômbia”, diz Catalina. “Chávez está se tornando um fator de desestabilização no continente”, afirma a pesquisadora espanhola.

Infância pobre

Desde que assumiu a presidência, em 1999, Hugo Rafael Chávez Frias apoiou sua gestão no petróleo e em duas parcelas da sociedade: os militares de baixas patentes e grande parte dos pobres do país, que compõem 70% da população. Ele mesmo foi as duas coisas, pobre e militar. Nascido há 52 anos, filho de professores da cidade de Sabaneta, Chávez foi educado pela avó e, ao final do ensino médio, entrou para o exército, onde atuou 17 anos no batalhão de pára-quedistas da região de Barinas.

Seus biógrafos, os jornalistas Cristina Marcano e Alberto Barrera, definem-no como um narcisista que se vê como um grande revolucionário, apesar de ser apenas um presidente com o projeto, legítimo, de substituir uma classe política dominante por outra em um país livre de ditaduras desde 1958. A tendência a usar a força é antiga: em 1992, Chávez foi expulso do exército e detido depois de uma tentativa fracassada de golpe de Estado. Quando o acúmulo de denúncias de corrupção provocaram o im­peachment do presidente que ele queria derrubar, Chávez tornou-se popular o suficiente para vencer as eleições de 1998 e garantir a reeleição em 2000.

Os primeiros quatro anos de seu governo foram turbulentos. Entre 11 e 13 de abril de 2002, um golpe de Estado liderado por militares e empresários tornou-se uma das revoluções mais curtas da conturbada história da América Latina. Na sexta-feira, Chávez estava detido; no domingo, voltava a governar. Nesse meio tempo, o governo americano posicionou-se a favor do golpe; três semanas depois, surgiram evidências de que Washington sabia com antecedência dos planos dos inimigos do presidente. Em 2004, além da greve geral, teve de engolir um referendo para definir se ele continuaria no governo. Venceu e, a partir daí, as coisas só melhoraram para o presidente: graças a uma manobra infeliz da oposição, em dezembro de 2005, ele alcançou 100% das cadeiras da Assembléia Nacional – o único órgão do Poder Legislativo desde que Chávez aprovou uma nova Constituição que acabava com o Senado.

Garantido no poder até 2013 e sem ter de se preocupar com a oposição, Chávez agora pode olhar com mais vontade para os vizinhos. Membro do Mercosul desde 2006, a Venezuela vem criando relações de subsídios comerciais com Argentina, Uruguai, Paraguai, Equador, Costa Rica e Cuba; até agora o país injetou 4 bilhões de dólares nesses vizinhos. Também já tentou conseguir a eleição de candidatos de esquerda na Bolívia, no Peru, no Equador, na Colômbia, na Nicarágua e no México – o único vencedor foi o boliviano Evo Morales.

No Brasil, sustenta um projeto de socialização de três pequenas empresas em Santa Catarina. Também manda aviões para o município de Abreu de Lima, em Pernambuco. Pacientes de catarata são levados para a capital, Caracas, operados de graça e devolvidos para casa. No lugar da Alca, que Chávez trata como obra do “demônio” Bush, o venezuelano propõe a criação da Alba, a Alternativa Bolivariana para as Américas. “O voluntarismo de Chávez incomoda os vizinhos, e seu projeto de governo desagrada parte da população venezuelana, que tem um longo histórico liberal”, diz o professor Duarte. “Mas, se o projeto de desenvolvimento social da Venezuela funcionar, aí sim Chávez terá uma grande influência na América Latina.”

Isto é Chávez

• “O capitalismo é pior que Conde Drácula, Frankestein e Jack, o Estripador.”

• “A Venezuela tem duas alternativas: uma revolução pacífica ou uma revolução violenta.”

• “Oh, César! Este abraço a ti, Fidel, é de milhões, não meu. Amamos você, precisamos de você e acompanhamos seus passos.”

• “Chegou a hora do fim das desigualdades. Ninguém irá deter o carro da revolução socialista na Venezuela. Pátria, socialismo ou morte!”

• “Somos capazes de derrotar mil impérios! Os Estados Unidos querem deter a revolução bolivariana. Mas, se eles invadissem a Venezuela, começaria a guerra dos cem anos! A pátria será livre ou a bandeira tremulará sobre as ruínas.”

• “Estou pensando em convidar a Condoleeza Rice para sair comigo. E então vou perguntar a ela: ‘Qual é o seu problema?’”

 

Poder limitado

Apesar dos investimentos de Chávez, a Venezuela ainda tem apenas o 7o exército mais poderoso da América Latina

País - 1) Brasil

Capacidade de combate* - 94

Militares na ativa - 285 000

Orçamento militar (em milhões de dólares) - 18 000

Veículos de guerra - 1 700

Aeronaves de combate - 320

País - 2) Colômbia

Capacidade de combate* - 35

Militares na ativa - 160 000

Orçamento militar (em milhões de dólares) - 2 400

Veículos de guerra - 290

Aeronaves de combate - 115

País - 3) México

Capacidade de combate* - 33

Militares na ativa - 190 000

Orçamento militar (em milhões de dólares) - 5 500

Veículos de guerra - 1 100

Aeronaves de combate - 170

País - 4) Chile

Capacidade de combate* - 26

Militares na ativa - 86 000

Orçamento militar (em milhões de dólares) - 2 100

Veículos de guerra - 1 100

Aeronaves de combate - 80

País - 5) Argentina

Capacidade de combate* - 23

Militares na ativa - 70 000

Orçamento militar (em milhões de dólares) - 4 600

Veículos de guerra - 1 100

Aeronaves de combate - 140

País - 6) Peru

Capacidade de combate* - 22

Militares na ativa - 100 000

Orçamento militar (em milhões de dólares) - 880

Veículos de guerra - 500

Aeronaves de combate - 110

País - 7) Venezuela

Capacidade de combate* - 17

Militares na ativa - 82 000

Orçamento militar (em milhões de dólares) - 1 800

Veículos de guerra - 550

Aeronaves de combate - 160

 

Para saber mais

LIVROS

Hugo Chávez sem Uniforme: uma História Pessoal, Cristina Marcano e Alberto Barrera, Gryphus, 2006

Com base nos depoimentos de pessoas próximas, os autores traçam um perfil psicológico do presidente.

Libertador: a Vida de Simón Bolívar, Moacir Werneck de Castro, Editora Rocco, 1998

Biografia do líder político e libertador de vários países da América do Sul, citado por Hugo Chávez em praticamente todos os discursos.