José Mindlin: Imortal em dobro

Dono da maior biblioteca particular do país, José Mindlin, membro da Academia Paulista e da Academia Brasileira de Letras, foi amigo de muitos nomes que habitam suas estantes, como Guimarães Rosa

Henrique Veltman Publicado em 01/04/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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O paulistano José Ephim Mindlin é um leitor voraz. Calcula que já leu, em seus 93 anos de vida, cerca de 6 mil livros. Muito? Pouco para ele, que diz que gostaria de viver 300 anos para, assim, conseguir ler toda sua coleção. José Mindlin é dono da maior biblioteca particular do país, composta por cerca de 50 mil títulos. Muitos dos autores que ele guarda em suas estantes tornaram-se seus amigos, como João Guimarães Rosa, José Saramago, Carlos Drummond de Andrade e Monteiro Lobato.

Terceiro de quatro filhos de imigrantes judeus russos, José Mindlin foi jornalista aos 15 anos, advogado e empresário – montou a gigante Metal Leve, fabricante de peças automotivas. Na Faculdade de Direito do largo São Francisco, em São Paulo, conheceu seu grande amor, Guita, com quem viveu até a morte dela, em 2006. Do casamento de 68 anos, resultaram quatro filhos, 12 netos e oito bisnetos. Com Guita, dividia a paixão pelos livros – ela especializou-se em restaurar as aquisições raríssimas de Mindlin, pelas quais ele já fez verdadeiras loucuras. É notória, por exemplo, a história da compra da primeira edição de O Guarany (assim mesmo, com “y”), de José de Alencar. O bibliófilo ficou 20 anos atrás do livro e, por ele, fez duas viagens internacionais.

Com o apoio da família, em 2006 José Mindlin doou parte de sua biblioteca. Em meados do ano que vem, será inaugurada a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Universidade de São Paulo, com 18 mil títulos sobre o Brasil, publicados a partir do século 16. No mesmo ano de 2006, tornou-se, como muitos dos nomes que compõem sua biblioteca, um imortal – já era membro da Academia Paulista de Letras desde 1999. Recentemente, em fevereiro, lançou seu quarto livro, Reinações de José Mindlin, memórias de sua infância. Antes de mandá-lo à editora, submeteu-o à prova da netinha de 9 anos, Ana.

História – Como começou seu interesse por livros?

José Mindlin – Uma tia me deu o primeiro título de minha coleção brasiliana, História do Brasil, do frei Vicente Salvador [quando tinha 13 anos]. Na pequena biblioteca dos meus pais, havia livros da época, o almanaque de O Tico Tico e clássicos russos, franceses e ingleses. Eu me tornei um leitor voraz. Meu irmão mais velho, Henrique [mais tarde, um arquiteto importante], também gostava de ler. Quatro anos mais novo, eu lia os mesmos livros que ele. Até hoje me entusiasmo com Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, com Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Ah, sim, eu lia para minha mãe os romances de Júlio Verne.

Como o senhor conheceu o escritor Guimarães Rosa?

Conheci João Guimarães Rosa em 1946, em Paris, onde acontecia a Conferência da Paz. Ele era amigo de meu irmão. Eu o procurei e fizemos uma ótima camaradagem. Nós flanávamos pela cidade, entrando em livrarias etc. Era um papo excelente e ele era um sujeito muito elegante, sempre de gravatinha borboleta, o exemplo do que naquela época chamávamos de almofadinha. Curiosamente, ele não me deu a menor indicação de que fosse um escritor. Quando Sagarana foi publicado, não acreditava que havia sido escrito pelo almofadinha. Virei depois um roseano fanático. Já li seus livros várias vezes. É uma aventura. A gente pode abrir o livro em qualquer ponto que continua lendo com grande prazer.

O que foi fazer em Paris, nessa ocasião?

Em 1946, eu e um primo encontramos um sócio disposto a montar uma livraria de obras raras em São Paulo, a Parthenon. Esse sócio entrou com 300 contos de réis. Uma fábula! Com o bolso forrado, fui à Europa e visitei antiquários e colecionadores de uma Europa arruinada pela guerra. Assim, tive a chance de pagar barato por mercadoria de primeira.

Seus pais eram judeus russos, de Odessa. Por que vieram para o Brasil?

Meus pais, Ephim Henrique Mindlin e Fanny, nasceram em Odessa, hoje Ucrânia. Eles se conheceram em 1905, quando ali grassava uma forte onda de anti-semitismo, pogroms [perseguições]. Por isso, partiram, cada um de seu lado, para Nova York. Foi lá que se encontraram, surgiu o namoro e o casamento. Por causa de primos que já estavam no Brasil, decidiram “fazer a América” em São Paulo.

Seu pai era ligado às artes plásticas?

Sem dúvida, ele tinha uma vocação artística. Tanto que estudou artes plásticas em Paris. Mas logo descobriu que seus colegas de curso pintavam suas telas e, depois, iam vendê-las nas calçadas ao longo do Sena. “Isto não é para mim, é muito sacrificado”, pensou. E tratou de formar-se dentista prático. Aqui no Brasil teve que cursar Odontologia, para revalidar seu diploma. Foi o melhor dentista de São Paulo. Mas tinha um grande círculo de artistas plásticos na sua vida.

Como era sua casa paterna?

Meus pais só falavam português com seus quatro filhos. Entre eles, para os segredos íntimos, falavam russo. Nós tínhamos uma governanta russa que nos ensinou francês e rudimentos de russo.

O senhor entrou no jornal O Estado de S.Paulo muito jovem...

Papai era amigo do Rangel Pestana, que era o diretor do jornal. Graças a isso, aos 15 anos fui contratado como repórter de O Estado de S.Paulo e participei da Revolução de 1930. Como era um dos poucos no jornal que falavam inglês, Júlio de Mesquita Filho [também diretor do jornal] me encarregava de passar informações por telefone aos revolucionários no Rio de Janeiro, driblando os censores monoglotas. Todos os jovens deviam estagiar em redações de jornais. É maravilhoso. A melhor escola.

E por que deixou o jornalismo?

Foi quando entrei na Faculdade de Direito do largo São Francisco, em 1932. No fundo da classe, sem prestar atenção na aula, eu devorava a obra do francês Montaigne [Michel de Montaigne, pensador do século 16]. Nos primeiros dias de aula do quinto ano de curso, cruzei nos corredores com uma caloura que vinha sendo assediada pelos veteranos para entrar nos partidos políticos da época. Tomei coragem: “Olha, tudo isso é uma bobagem, porque o melhor partido sou eu!” O casamento com Guita aconteceu poucos meses depois. Ela morreu em 2006, logo após a minha eleição na Academia Brasileira de Letras.

Por falar nela, o que era o livro-suporte?

Ótimo lembrar essa história. O livro-suporte pros pés é uma história e tanto. Ele está ali, num lugar nobre da sala principal da biblioteca, guardada por anjos e santos barrocos que espreitam das paredes, ao lado de telas de Tarsila, Lasar Segall e de uma Madona peruana. De encadernação austera, ele leva na lombada o nome de Guita Kauffman, o nome de solteira da minha esposa. A um toque, uma parte do que seria a capa desliza e deixa à mostra um mecanismo que eu inventei, dotado de pés basculantes e travas. Em instantes, transforma-se em um descanso para pés. Foi um presente meu, nos anos 30, quando ainda éramos estudantes da Faculdade de Direito. Guita se queixava de sua baixa estatura, que a deixava com os pés no ar quando se sentava à carteira. O livro-suporte resolveu a questão, discretamente.

Como advogado, o senhor tentou obter vistos para os judeus, na época da Segunda Guerra.

Na época da guerra, diante do anti-semitismo, em nome da solidariedade e da dignidade, procurei ajudar na obtenção de vistos para os judeus europeus, notadamente alemães. Nessa época foi criada a CIP, Congregação Israelita Paulista, justamente para dar apoio aos refugiados. Eu ainda guardo um documento do Itamarati informando que “está vedada a entrada de indivíduos de origem étnica israelita”. Infelizmente, não consegui esses vistos. Mas, no caso dos que aqui chegaram com visto de turista, foi tudo fácil no Ministério da Justiça. Transformamos esses vistos em permanentes. Dá para entender o Brasil? Afinal, o Brasil é um acidente de percurso ou um percurso de acidentes?

 

E a Metal Leve, como surgiu?

Em 1950, alguns clientes me procuraram para redigir um contrato de sociedade com uma fabricante alemã de pistões – em tempo: são peças cilíndricas que “sugam” o combustível, permitindo o funcionamento do motor. Como os clientes desistiram do negócio, não perdi a oportunidade e assumi o compromisso. Juntei-me a outros quatro empreendedores e fundamos a Metal Leve, nome escolhido em homenagem ao alumínio, matéria-prima do produto. Na esteira do desenvolvimento da indústria automobilística, a Metal Leve se tornou uma potência no setor de autopeças. Presidindo a empresa, cheguei a empregar 6 mil pessoas. Posso dizer, sem pretensão e água-benta, que ajudamos a desenvolver o país. E sem tirar um tostão dos cofres públicos. Isso durou até o início do Plano Real, na década de 90, quando o câmbio sobrevalorizado reduziu bruscamente as exportações e abriu o mercado brasileiro para as autopeças importadas. Após três anos amargando prejuízo, vendi minhas ações em 1996. Do ponto de vista emocional, foi muito difícil. Mas, racionalmente, deveria ter vendido antes. Já adiantei aos meus filhos que gostaria de descansar em paz num túmulo que tivesse o seguinte epitáfio: “José Mindlin: fabricou pistões a maior parte da vida sem saber o que eram”.

Qual sua religião?

Sou agnóstico. Apesar disso, como explicar que volta e meia um livro raro, que desisti de comprar por falta de dinheiro, anos depois caia exatamente nas minhas mãos, o mesmo exemplar?

É a história de O Guarany?

Uma loucura mansa. É assim que defino minha paixão pelos livros. Por amor a eles, sou capaz de passar 20 anos atrás de um exemplar raro, como aconteceu com a primeira edição de O Guarany, de José de Alencar.

Dá pra ler todos esses livros de sua biblioteca?

Ah, eu gostaria de viver 300 anos para ler todos os livros que tenho aqui em casa... Mas não dá, né? A gente passa e os livros ficam. Mas os outros vão ler.

Quantos livros leu até hoje?

Livros crescem de noite. Até a vista falhar, eu lia mais de 100 livros por ano. Dos 13 anos até hoje, mais de 6 mil livros. Há dois anos não consigo mais ler. Meus olhos estão com máculas que não há como operar. Familiares e amigos lêem para mim, mas não é a mesma coisa. Tenho saudades de passear os olhos pelas letras enfileiradas, no silêncio da leitura, e de manusear o objeto de papel e tinta. Nada substitui o livro. [Rosana, uma de suas quatro assistentes, diz que Mindlin volta e meia senta-se em sua poltrona favorita e fica folheando algum livro, embevecido.]

Agora o senhor é duplamente imortal...

Pois é. Israel Dias Novaes era presidente da Associação Paulista de Letras e insistiu muito que eu me candidatasse [em 1999]. Tanto fez que concordei, mas desde que eu não fizesse campanha. Fui eleito. E a história, de certa forma, se repetiu com a Academia Brasileira de Letras [em 2006]. O Marcos Vinicios Vilaça como que me obrigou a ser candidato. Tive 37 dos 38 votos e ganhei a cadeira 29. Vou de vez em quando às sessões, tanto de uma como de outra academia. O problema é que as reuniões são sempre às quintas-feiras, o que gera um conflito. Nas duas tenho velhas e boas amizades. Mas, no fundo, eu sou leitor e não escritor.

Como foi feito seu ex-libris [inscrição colada nos livros que indicam quem é o proprietário]?

Diana, arquiteta que se dedica às artes gráficas [uma das filhas de Mindlin], me fez a surpresa de desenhar meu ex-libris tendo como divisa a frase de Montaigne do capítulo sobre os livros: “Je ne fay rien sans gayeté” [grafia original, em francês medieval]. Nem sempre é possível fazer tudo com alegria, mas pelo menos procuro percorrer sempre esta trilha: eu não faço nada sem bom humor.

Quais os livros de sua vida?

Na literatura brasileira, há dois livros que eu considero que poderiam ser os livros da vida de qualquer um: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Machado pode ser lido mais cedo. Rosa é uma linguagem que a gente tem de penetrar – mas, depois que penetrou, não larga mais. Lê, relê, reabre a toda hora.

 

Saiba mais

Livro

Uma Vida entre Livros – Reencontros com o Tempo, José Mindlin, São Paulo, Edusp/Companhia das Letras

Na autobiografia, Mindlin conta a formação de sua biblioteca e as aventuras que viveu por seus livros.