Movimento dos sem-nação: povos sem um Estado

Vários povos tentam o que judeus conseguiram: um Estado para chamar de seu

Jeanne Callegari Publicado em 01/01/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Ano após ano, por dois milênios, os judeus repetiam na Páscoa: “Ano que vem em Jerusalém”. A frase simbolizava o desejo de voltar a Israel, a Terra Prometida, de onde foram expulsos pelos romanos em 70 d.C. O desejo virou realidade em 1948, quando a Organização das Nações Unidas decretou a criação do Estado de Israel.

O problema da criação de um Estado nacional estava resolvido para os judeus. Mas para os palestinos, que habitavam a região desde o século 12, ele apenas começava. Até a criação de Israel, os palestinos não reivindicavam para si uma identidade nacional própria. “Eles só se deram conta de que eram um povo e de que queriam um Estado nacional quando viram os judeus conseguirem o deles”, diz o historiador Jaime Pinsky, organizador do livro Questão Nacional e Marxismo. A idéia da ONU era dividir a Palestina em um país judeu e um palestino, mas na época os árabes não aceitaram. Muitas guerras, protestos e atentados depois, o proclamado Estado nacional palestino ainda não foi criado.

Como os palestinos, outros povos lutam para ter um território reconhecido. É o caso dos curdos, a maior nação sem Estado do mundo, com cerca de 26 milhões de pessoas. “Reconhecido, o Curdistão teria abundância de petróleo, o chamado ‘ouro negro’, e de água, o ‘ouro azul’”, diz o geógrafo Nelson Bacic Olic, autor de Oriente Médio e a Questão Palestina. Afinal, o território curdo fica entre o norte do Iraque, abudante em petróleo, e oeste da Turquia, onde nascem o Tigre e o Eufrates, principais rios de uma região escassa em água. Além dos povos que brigam há anos por uma nação, existem os que tiveram seu problema acentuado após a Guerra Fria, como os albaneses de Kosovo e os chechenos. Na maioria dos casos, os conflitos continuam. E a solução parece distante.

 

Na luta por um país

Estes povos estão organizados e têm identidade nacional, mas não são reconhecidos como Estado

1. Eire - 700 mil pessoas

Mais de 80 anos de conflito

Católicos irlandeses

O Eire, ou República da Irlanda, é independente e tem maioria católica. O restante, o chamado Ulster, de maioria protestante, está sob domínio do Reino Unido. Os católicos do Ulster querem a independência, mas abandonaram a luta armada.

2. Espanha - 2 milhões de pessoas

Mais de 100 anos de conflito

Bascos

Com língua e cultura próprias, lutam pela independência da Espanha. Em 1959, durante a ditadura franquista, criaram a organização separatista ETA, que perdeu força com o passar dos anos e agora está em trégua com o governo.

3. Saara Ocidental - 260 mil pessoas

31 anos de conflito

Saarauís

Habitam o Saara Ocidental, abandonado pela Espanha em 1975. Como tem as maiores jazidas de fosfato do mundo, o Marrocos o reivindicou para si. Desde 1991 a ONU tenta decidir a situação, mas até agora não há um acordo.

4. Kosovo - 2 milhões de pessoas

Mais de 100 anos de conflito

Albaneses de Kosovo

Os albaneses separatistas da província de Kosovo, na Sérvia, foram massacrados pelas tropas do presidente iugoslavo Slobodan Milosevic. Em 1999, a Otan interveio na região, que está sob administração provisória da ONU.

5. Chipre - 210 mil pessoas

Mais de 30 anos de conflito

Turcos-cipriotas

Em 1974, os turcos invadiram a ilha do Chipre, dividindo-a entre os turcos-cipriotas do norte e os gregos-cipriotas do sul, que já a habitavam. Surgiu a República Turca de Chipre do Norte – que, no entanto, só é reconhecida pela Turquia.

6. Israel - 3,8 milhões de pessoas

58 anos de conflito

Palestinos

Habitantes da Palestina (que é uma região, e não um país), reivindicam um Estado desde a criação de Israel. Nem com a retirada de 8500 colonos judeus da Faixa de Gaza, em 2005, os atentados e retaliações tiveram fim.

7. Síria, Armênia, Iraque Irã, Turquia - 26 milhões de pessoas

Mais de 80 anos de conflito

Curdos

Estão presentes na Síria, no Irã, na Armênia, no norte do Iraque e no oeste da Turquia – que não pretendem ceder território. Iraque e Turquia apóiam partidos políticos rivais para enfraquecer o movimento de independência.

8. Georgia - 200 mil pessoas

Mais de 15 anos de conflito

Abecazes e ossetianos

Na Georgia, dois povos brigam. A Abkházia quer independência desde 1992 – tem até presidente. Os ossetianos do sul querem se integrar à Ossétia do Norte (divisão da Federação Russa) e declararam independência em 1990, que não foi reconhecida.

9. Chechênia -900 mil pessoas

Mais de 15 anos de conflito

Chechenos

República de maioria muçulmana, a Chechênia é oficialmente parte da Rússia. Após o fim da União Soviética, os chechenos proclamaram independência, que, embora não reconhecida, gerou (e gera ainda) embates com os russos.

10. Azerbaijão - 145 mil pessoas

Mais de 15 anos de conflito

Armênios

Enclave armênio no Azerbaijão, o Nagorno-Karabakh é motivo de conflito. Em 1991, a região declarou-se independente e foi bombardeada pelo governo azeri. Os rebeldes continuam a luta pela independência, só reconhecida pela Armênia.

11. Caxemira - 3 milhões de pessoas

60 anos de conflito

Caxemires

A Caxemira é dividida entre Índia e Paquistão. Muçulmanos da parte indiana querem a independência ou a anexação ao Paquistão. As nações quase chegaram à guerra, mas um terremoto no lado paquistanês em 2005 causou uma trégua.

12. Sri Lanka - 3,3 milhões de pessoas

Mais de 30 anos de conflito

Tâmeis

De origem indiana e religião hindu, querem a independência do governo do Sri Lanka. Em 1983, teve início a luta armada contra os cingaleses (com uma trégua após o tsunami de 2004). Hoje, tentam um consenso para acabar com a briga.