Sudão: genocídio a conta-gotas

Desde 2003, mais de 200 mil pessoas morreram no Sudão na guerra civil que opõe muçulmanos e cristãos. E o Ocidente assiste de camarote

Adriana Maximiliano, de Washington Publicado em 01/11/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

"Após uma semana em Darfur, eu estava prestes a entrar em pânico por todas as coisas que ainda não sei ou não entendo. Três meses depois, estou mais calma. Não que de repente eu tenha entendido tudo – somente me dei conta de que ninguém por aqui tem a menor idéia do que está acontecendo também.” Os blogs de agentes de saúde e soldados da força de paz que atuam no Sudão – como o Sleepless in Sudan (algo como “Insone no Sudão”), que começou com o texto acima e foi escrito por uma médica anônima de 31 anos que trabalhou em Darfur de março de 2005 a fevereiro deste ano – dizem muito sobre o maior país da África. Só mesmo quem vive o dia-a-dia sudanês sem nenhuma censura consegue mostrar quão complexa e grave é a situação do país e seus 36,2 milhões de habitantes. Desde fevereiro de 2003, mais de 200 mil pessoas morreram e cerca de 2,5 milhões estão desabrigadas, correndo o risco de morrer de fome ou doentes. Suas casas na região de Darfur, oeste do país, foram destruídas por milícias árabes, entre elas a Janjaweed, que foi criada pelo próprio governo sudanês.

Guerra sem fim

Genocídio, crime de guerra, crime contra a humanidade. Nem a Organização das Nações Unidas (ONU), nem os Estados Unidos ou os poucos jornalistas que conseguem visto para entrar no país sabem como classificar a tragédia no Sudão. Diversas etnias de negros cristãos e animistas do sul do paupérrimo país vêm sendo ameaçadas de extermínio pelos árabes mulçumanos do norte, que estão no poder com a Frente Nacional Islâmica e representam 70% da população. Questões religiosas, culturais, separatistas e o petróleo fazem parte do jogo. “É a pior crise humanitária do mundo”, avaliou um emissário da ONU. Mas a verdade é que, com as atenções voltadas para o próprio umbigo ou para cantos mais ricos do mundo, o Ocidente até agora olhou apenas de soslaio para o conflito sudanês. E pior: através das lentes e canetas censuradas dos jornalistas ou de versões nada isentas das organizações internacionais.

Até o momento, as pequenas intervenções do governo de George W. Bush foram todas desastrosas. Em maio deste ano, pressionado por americanos, por britânicos, pela União Européia (UE) e pela União Africana (UA), o governo sudanês e uma facção do grupo rebelde do Exército de Libertação do Sudão (SLA, na sigla em inglês), de negros não-muçulmanos, assinaram um acordo de paz que acabou resultando em mais mortes, porque outras facções de rebeldes não aceitaram negociar. Um dos itens do acordo exigia que o governo desarmasse a milícia Janjaweed, o que não aconteceu.

Outro acordo, assinado em janeiro de 2005, no Quênia, tentou pôr fim à guerra civil que castiga o país desde 1983. O então líder do Movimento de Libertação do Povo do Sudão (SPLM), o separatista John Garang, conseguiu implementar uma constituição transitória, que definiria o destino do Sudão. Em 2011, os negros sulistas fariam um referendo para decidir se o sul se tornaria independente ou não. Até lá, teriam um governo com regras próprias e grande autonomia e os dois lados dividiriam o lucro da produção de petróleo do país (algo em torno de 300 mil barris por dia).

Seis meses depois de assinar o acordo, Garang já estava acumulando os cargos de presidente do sul do Sudão e primeiro vice-presidente de todo o Sudão, como exigia o trato. Tudo parecia sob controle. Mas o clima pacífico terminou três semanas depois, quando Garang, velho inimigo do presidente sudanês, Omar Hassan al-Bashir, morreu num misterioso acidente de helicóptero que matou 14 pessoas em Uganda. Apesar de ter sido substituído por outro sulista não-muçulmano, Salva Kiir Mayardit, Garang não gostaria de ver o que aconteceu depois de sua morte: o sangue voltou a correr em terras sudanesas.

Em meio a acordos e desacordos, o Conselho de Paz e Segurança da UA, que reúne 15 dirigentes daquele continente, enviou 7,2 mil soldados para tentar parar a violência na região mais crítica do país, Darfur, que tem o tamanho da França. De nada adiantou. A própria UA concluiu que não tem recursos nem gente suficientes para resolver o problema. O Conselho de Segurança da ONU, então, aprovou uma resolução em 31 de agosto para enviar 22 mil soldados para a área de conflito. A idéia era substituir as forças da UA. Mas o presidente Bashir não aceitou a oferta e ameaçou receber a balas os capacetes azuis da ONU. “Essas tropas não vêm para promover a paz em Darfur, e sim para recolonizar o Sudão”, declarou ele na reunião da Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York, no fim de setembro.

Paz passageira

Em toda sua história, o Sudão teve poucos momentos de paz. A região foi quase toda tomada pelos árabes durante a expansão do Islã, no século 7o, enquanto o sul acabou sendo convertido por missionários cristãos. O século 19 foi marcado pela luta pelo poder: primeiro o Sudão passou pelas mãos do Egito, depois pelas do Reino Unido. Em 1956, o país finalmente conquistou sua independência. Desde então, o conflito entre muçulmanos e cristãos só teve um cessar-fogo, de 1972 a 1983.

Em 1990, os muçulmanos declararam guerra contra o povo do sul. O conflito chegou ao ápice em março de 2003, quando rebeldes do SLA e do Movimento para Justiça e Igualdade (JEM) uniram-se em ataques contra órgãos do governo. O primeiro grupo, de negros não-muçulmanos, acusou Bashir de discriminar os cristãos e animistas em favor dos muçulmanos; enquanto o segundo, que é formado por negros muçulmanos, mas não-árabes, queria desestabilizar o governo e tomar o poder. A Janjaweed e outras milícias árabes menores, então, entraram em ação, botando fogo em aldeias de Darfur. Homens a cavalo, com arma em punho, mataram milhares de negros e estupraram suas mulheres. Algumas jovens foram usadas como escravas sexuais por semanas. Muitas engravidaram. Ligada a milícias árabes, a polícia costuma ameaçar com morte – ou pena por adultério – as mulheres que tentam denunciar seus agressores.

Como muitas mães morrem em decorrência do estupro, Darfur tem milhares de órfãos vagando pelas ruas. Muitas vezes, eles ainda nem sabem andar e dependem de seus irmãos para sobreviver. A maioria acaba morrendo. Segundo a União Africana, cerca de 70% das mortes no Sudão hoje são de crianças com menos de cinco anos.

Os negros sudaneses que conseguem sobreviver são obrigados a procurar abrigo em outras partes do país e nos vizinhos Chade e Eritréia. Alimentar 2,5 milhões de desabrigados tem sido um desafio para as ONGs internacionais que trabalham no país. Bashir, por sua vez, já acusou os governos vizinhos de apoiar os rebeldes que se negaram a assinar o acordo de paz deste ano.

Sem remédio

Se Bashir continuar contrariando as resoluções da ONU, o Sudão pode ser punido com um bloqueio a seu petróleo, produto responsável por 70% das exportações do país. Mas uma sanção desse tipo precisaria da aprovação da China, um dos membros do Conselho de Segurança da ONU e compradora de 40% do petróleo sudanês. Como o governo chinês tem uma relação longa com o Sudão – além de 10 bilhões de dólares investidos na indústria petrolífera local –, dificilmente isso aconteceria. Por outro lado, a maioria dos países árabes apóia o governo de Bashir.

A crise no Sudão e o impasse com a ONU começam a provocar faíscas perigosas entre o mundo árabe e os Estados Unidos. As chances de os americanos intervirem no conflito sudanês não são remotas. E a situação não melhora se lembrarmos que não seria o primeiro ataque ianque contra o país africano. Durante o governo de Bill Clinton, uma fábrica de remédios sudanesa foi bombardeada como resposta a ataques terroristas contra embaixadas americanas na África. Os americanos acreditavam que os remédios serviam de fachada para algo maior: a produção de armas químicas para Osama bin Laden, que morou no país nos anos 90. Mas logo o mundo descobriu que a fábrica era realmente de remédios – e, pior, a única do Sudão. A triste história do país mostra que não importa de onde vem o ataque: é o povo inocente quem sempre paga o preço.

 

Quem é quem no conflito

• Omar al-Bashir: Tomou o poder em 1989 com um golpe militar e dissolveu o parlamento. Em nova eleição, em 96, foi eleito presidente. Três anos depois, dissolveu o parlamento de novo.

• Hassan al-Turabi: Líder da Frente Islâmica Nacional, é amigo de Bin Laden e Saddam Hussein. Ele é apontado como o verdadeiro líder dos rebeldes muçulmanos não-árabes da JEM.

• Salva Kiir Mayardit: Presidente do sul sudanês e primeiro vice-presidente do Sudão, é a favor da secessão do país. Líder do Movimento de Libertação do Povo do Sudão (SPLM).

• Minii Minnawi: Líder de uma das duas principais facções dos rebeldes do SLA, foi o único que aceitou assinar o acordo de paz com o governo. Acabou virando assistente de Bashir.

• George W. Bush: Tem tratado a crise no Sudão como um problema menor, dando prioridade para Iraque e Líbano. Deixa a crise no maior país da África para seus subalternos ou a ONU.

 

País já abrigou Bin Laden

O Sudão já foi o lar de Osama bin Laden, de suas quatro mulheres e 17 filhos. Nos cinco anos em que viveu no país, entre 1991 e 1996, o líder da Al Qaeda criou cavalos, plantou girassóis, construiu e vendeu casas. Virou um rico homem de negócios e parecia feliz com isso. O ódio aos Estados Unidos ainda não era tão forte. Os filhos do terrorista, inclusive, jogavam videogame Nintendo e assistiam a filmes americanos. Mas Bin Laden teve problemas com seus empreendimentos, quase faliu e a Jihad internacional precisava dele. Expulso do país pelo presidente Al-Bashir, que cedeu à pressão americana, o terrorista mudou-se para o Afeganistão. Os boatos de que o líder da Al-Qaeda tem homens treinando no Sudão nunca foram confirmados, mas investigadores internacionais acreditam que ele nunca tenha se desligado completamente do país.

Para saber mais

Blog

Sleepless in Sudan - sleeplessinsudan.blogspot.com

Blog de uma médica que viveu quase um ano no Sudão. As aventuras da autora anônima fizeram sucesso e devem virar livro.

Livro

Darfur: The Ambiguous Genocide, Gérard Prunier, Cornell University Press, 2005

O autor tenta explicar o conflito e a pobreza crescente do Sudão.