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Curiosidades / Coluna

A comovente ceia que uniu alemães e americanos na 2ª Guerra: 'Hoje é Natal'

Durante a Segunda Guerra, a família Vincken recebeu soldados inimigos em pleno conflito e decretou: "Não haverá tiroteio por aqui"

Ricardo Lobato* Publicado em 24/12/2022, às 12h00 - Atualizado em 22/12/2023, às 12h38

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Ceia digitalmente colorida - PxHere/ Domínio Público
Ceia digitalmente colorida - PxHere/ Domínio Público

Já falamos sobre a Batalha do Bulge, também conhecida como Batalha das Ardenas, e da famosa frase “Nuts” (“Loucos”), proferida pelo comandante norte-americano em resposta a seu homólogo alemão. Nossa história de hoje se passa na mesma batalha, mas, em vez de tratar dos generais, falamos de pessoas comuns, soldados estadunidenses e alemães e, sobretudo, de civis. 

Imagine uma paisagem branca, as copas das árvores cobertas com a neve que acaba de cair, um chalé no meio da mata, fumaça saindo da lareira... Um cenário bem bucólico, não é mesmo? Seria a imagem perfeita de um Natal aconchegante, não fosse o fato de este chalé se localizar exatamente na fronteira, na linha de frente da Batalha das Ardenas.

No local, moravam dois civis alemães, Fritz Vincken e sua mãe, Frau Elisabeth Vincken. O pai, Herr Hubert Vincken, um padeiro de profissão, havia levado a família para a floresta enquanto servia nas tropas de apoio do Exército Alemão. Herr Vincken acreditava que no meio da mata a família estaria segura, mas em um país em guerra, “seguro” é um termo relativo.

Na noite de 24 de dezembro de 1944, Fritz e sua mãe estavam se preparando para comer sua ceia natalina – apesar de a “refeição” ser uma sopa de frango, feita com um galo magro e batatas ralas, Frau Vincken se esmerara para fazer com que o Natal de seu filho de apenas 12 anos fosse “o mais normal possível” –, quando foram interrompidos por batidas fortes na porta.

Apagaram as luzes e, cuidadosamente, olharam pela janela para ver quem estava ali no meio da noite. O “visitante” era não um, mas três soldados do Exército dos Estados Unidos. Cansados, com frio e sem roupas adequadas, além de um deles estar gravemente ferido, bateram na primeira habitação que viram – sem saber o que os aguardava.

Riscos

Os Vincken colocaram os militares para dentro, mesmo sabendo o risco que corriam,
pois, na Alemanha de AdolfHitler, um civil acolher o inimigo, ainda que ferido, era crime punível com a morte – nem as crianças estavam livres da pena capital. Como Elisabeth falava francês, ela foi capaz de se comunicar com um dos soldados, que sabia um pouco do idioma, lhe explicando que eram bem-vindos.

Os rapazes se sentiram em casa, todos eram bem jovens, apenas poucos anos mais velhos que Fritz. Se sentiram como se estivessem sendo cuidados por suas mães. Quando estavam todos se sentando para a ceia, uma nova batida na porta. Mais uma surpresa, uma patrulha alemã!

Fritz abriu a porta e na sequência veio Elisabeth. Os alemães disseram que haviam se perdido de sua unidade e pediram hospedagem por uma noite. Frau Vincken disse que eram todos bem-vindos, acrescentando que ela tinha “outros convidados”. Diante do espanto dos jovens, emendou: “esta é a noite de Natal. Não haverá tiroteio por aqui. Coloquem as armas de lado e então podemos ter todos uma boa ceia”.

Apesar da desconfiança inicial, americanos e alemães concordaram em ter uma trégua
em uma noite tão singular. Ao ver que um dos yankees estava ferido, um dos alemães lhe dirigiu a palavra em inglês. O rapaz era estudante de medicina antes da guerra e, ao ver a perfuração no corpo do americano, cuidou de seu ferimento, trocando os curativos ao longo do resto da noite.

A refeição, com bastante água para dar conta de todos os convidados, foi a melhor ceia
que todos ali puderam ter. Na manhã seguinte, americanos e alemães trabalharam juntos para reparar a cerca dos Vincken e construir uma maca para o soldado ferido.

Antes de se despedirem, os alemães ainda falaram para os americanos evitarem Monschau, pois a Wermacht havia retomado a vila no dia anterior – a informação salvou a vida dos soldados, que conseguiram regressar sãos e salvos para as linhas Aliadas.

Confirmando a história

Todo o relatado acima, apesar de fantástico, aconteceu de verdade. A história foi contada pelo próprio Fritz, que imigrou para os EUA nos anos 1950, para a revista Reader’s Digest. Quando o periódico reeditou a história em 1995, um padre que prestava serviço voluntário em um lar de velhinhos se deu conta de que um dos pacientes lhe contara a
mesma história durante uma conversa.

Fritz e Ralph, um dos soldados americanos, se reencontraram em janeiro de 1996. Em meio a toda a emoção do reencontro, Ralph disse a Fritz que sua mãe era um anjo que abençoara o Natal de todos eles.

Com a voz embargada e com as lágrimas escorrendo, Ralph repetiu as palavras de Frau Vincken naquela noite mágica: “Vamos agradecer ao Senhor por essa noite. Vamos aproveitar o jantar, as pequenas coisas que temos. Vamos também rezar pelo fim desta terrível guerra, para que todos possamos ir para casa o mais rápido possível. Feliz Natal!”.


Ricardo Lobato é sociólogo e mestre em economia; Oficial da Reserva do Exército Brasileiro e Consultor-Chefe de Política e Estratégia da EQUILIBRIUM – Consultoria, Assessoria e Pesquisa @equilibrium_cap

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