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'Freud sem traumas': Obra apresenta a psicanálise como você nunca viu

Em entrevista à Revista Aventuras na História, o jornalista Alexandre Carvalho explicou os bastidores de seu novo livro

Izabel Duva Rapoport Publicado em 16/01/2022, às 10h00

Fotografia de Sigmund Freud
Fotografia de Sigmund Freud - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Ego, superego interpretação de sonhos, ato falho. Conceitos como esses ficaram impregnados na cultura popular depois das descobertas do austríaco Sigmund Freud (1856-1939) sobre a mente humana. Suas teorias, porém, de tão consagradas no imaginário ocidental, acabaram sendo muito mal interpretadas. Para nos ajudar a entendê-las de uma vez, o jornalista e pesquisador Alexandre Carvalho lança 'Freud sem traumas' (LeYa Brasil).

Com linguagem acessível e bem-humorada, mas sem perder a profundidade do tema, a obra resgata a história do criador da psicanálise, descomplica suas teorias e ainda fala de como Freud renasce em tempos atuais de tantas crises. “Afinal, o autoconhecimento de uma boa terapia é um chão que nos permite lidar com nossas ansiedades”, afirma o autor, que conversou com Aventuras na História.

Aventuras na História: Qual a razão de ser da sua obra? Por que explicar ou descomplicar as principais teorias de Freud quase um século depois de sua morte?

Alexandre Carvalho: Primeiro porque Sigmund Freud mantém-se muito atual, e a causa disso é que ele trata da busca da nossa verdade interior, e suas teorias estão consolidadas na cultura popular.

É de uma teoria de Freud que estamos tratando quando você chama de “ato falho” o engano de um colega que diz “linda” em vez de dizer “amiga” ao apresentar uma moça atraente; quando as comédias do cinema recorrem a símbolos fálicos óbvios — como a loira descascando uma banana quase em câmera lenta e levando-a à boca; quando você ouve que o bolsonarismo é um projeto político baseado na pulsão de morte.

Mas as pessoas dizem essas coisas todas repetindo o que já ouviram por aí. A maioria nunca leu Freud no original e não sabe de fato o que é um “ato falho” na concepção do pensador austríaco, não sabe direito o que é o complexo de Édipo, a pulsão de morte... Essa leitura por tabela provoca um telefone sem fio que gera muita confusão.

Realmente, as teorias de Freud são complexas, seus livros são difíceis para o leitor não iniciado na psicanálise. Então o intuito do meu livro foi explicar o que Freud explica, mas numa linguagem mais acessível, sem ficar recorrendo aos jargões psicanalíticos o tempo todo, com toques de humor aqui e ali, algumas histórias interessantes, mas sem menosprezar a inteligência do leitor.


AH: Mas por que ele entre tantos outros pensadores da História?

AC: Pouca gente se arrisca a jogar conversa fora nas redes sociais sobre a teoria da relatividade ou a mecânica quântica, por exemplo. Falar de Freud é muito mais frequente porque o assunto aqui é a natureza humana. Então, mesmo que você nunca tenha lido nenhum livro dele, com certeza vive esbarrando nas suas teorias. Seja na crônica de jornal, no programa de debates da TV paga, no roteiro dos filmes... Ou com os amigos.

Se houvesse um ranking dos pensadores “mais citados em mesa de bar”, com certeza Freud estaria no topo. Afinal, todo mundo se interessa por sexualidade, pelos nossos desejos ocultos, os mistérios da nossa personalidade, como tratar nossas ansiedades, o que nossos sonhos querem dizer... As matérias-primas das teorias freudianas. Como a sociedade lidava com transtornos mentais antes de Freud? Em que contexto social ele iniciou seus estudos?

Se você viajasse numa máquina do tempo para perguntar ao “pai da psiquiatria americana”, Benjamin Rush (1746-1813), quais as causas dos transtornos mentais, ouviria esta resposta: masturbação e excesso de sangue no cérebro. Rush rodava seus pacientes numa cadeira giratória, em alta velocidade, até que o coitado desmaiasse.

Freud mudou tudo isso. Diferentemente do conceito difundido à época, de que distúrbios de ansiedade, depressão e outros transtornos seriam “orgânicos”, provocados por algum dano físico no cérebro, Freud afirmou que a causa está nos processos mentais do indivíduo. E que a cura ou o alívio dos sintomas passam pela descarga de emoções reprimidas. No tratamento à maneira de Freud, o paciente é quem fala. Agora não à base de tortura, mas confortavelmente deitado num divã.

Assim, tirando o médico do seu pedestal e dando o protagonismo da ação terapêutica ao paciente, Freud virou a prática clínica de cabeça para baixo, influenciou a medicina e criou um modelo a ser seguido — com mais ou menos adaptações — por todas as psicoterapias que viriam depois dele.


AH: Quando e como surgiu o termo psicanálise?

AC: Foi no artigo “Hereditariedade e a etiologia das neuroses”, de 1896, que Freud inventou o termo “psicanálise” para sua terapia pela fala — referindo-se a ela como um novo método de exploração do inconsciente. Freud publicou ao longo da vida diversas obras revelando teorias e conceitos como o complexo de Édipo, a interpretação dos sonhos, ego, superego e atos falhos (elucidados no seu livro de maneira didática, mantendo a profundidade do tema).

Como a sociedade em geral recebia essas novidades científicas naquela época? O castelo teórico de Freud não foi bem recebido inicialmente por seus pares nem pelo público leigo. As pessoas ficavam escandalizadas pela ênfase que Freud colocou na sexualidade.

Foi só em 1908, quando o primeiro Congresso Psicanalítico Internacional foi realizado em Salzburgo, que a importância de Freud começou a ser reconhecida. Um reconhecimento que aumentou bastante em 1909, quando ele foi convidado para dar uma série de palestras nos Estados Unidos. A partir daí, a psicanálise virou uma febre no Hemisfério Norte, e a reputação e fama do pensador só cresceram.


AH: Atualmente muitas pessoas associam Freud unicamente ou fortemente à teoria da sexualidade. O que você diz sobre isso?

AC: Bom, as pessoas têm razão. Freud realmente focou muito na exploração da sexualidade ao formar suas teorias. No começo dos seus estudos sobre as neuroses, ele primeiro achou que eram fruto de abuso sexual vindo dos pais. Depois concluiu que não fazia sentido, porque todo mundo é um pouquinho neurótico, e é improvável que tenhamos bilhões de pais abusadores no planeta.

O fato é que sexo sempre esteve no topo da nossa curiosidade. Não é por acaso que os sites pornográficos sejam os mais acessados da internet. Freud, então, prestou um grande serviço tirando o assunto da esfera do cochicho e trazendo-o à luz do dia, discutindo perversões, repressões, homossexualidade e os transtornos psíquicos que a falta de uma vida sexual saudável pode provocar.


AH: Já sobre a sexualidade das mulheres, você revela no livro que há teorias discutíveis relacionadas ao tema. Que parte do legado freudiano seria essa?

AC: Além da inveja do pênis, a teoria freudiana sobre a sexualidade feminina tem outros conceitos nada elogiosos para elas: Freud via a mulher como uma criatura castrada sexualmente; enxergava uma vocação feminina para o masoquismo; dizia que a mulher tem um superego subdesenvolvido — justamente a instância que controla nossos impulsos mais perigosos —, o que a transformaria num perigo para a civilização.

Sua noção de que toda sexualidade, deles e delas, parte do pênis, ou da ausência dele, o tornou incapaz de reconhecer a individualidade feminina. Ideias como a vocação da “mulher normal” para ser dona de casa já eram contestadas à época. Vale lembrar que essa visão de que a sexualidade delas é mero desdobramento da deles tem uma jurisprudência tão machista e mítica quanto a perspectiva freudiana: Eva, a primeira mulher, que nasce de uma costela de Adão.


AH: E que Freud também deu voz a elas...

AC: Sim, é bom lembrar que estamos falando de um pioneiro do interesse pelo que a mulher tem a dizer: a psicanálise nasceu de sua iniciativa de tratar mulheres neuróticas, não como loucas desvairadas, e sim como seres humanos com questões profundas, que precisavam ser externadas. Ao dar voz a pacientes que sofriam por ser proibidas — pela cultura e muitas vezes pela lei — de atingir seus potenciais, e ao comunicar essa necessidade delas ao mundo, Freud pode ser considerado um libertador. Mesmo sua polêmica teoria sobre a sexualidade feminina era um avanço: até então, acreditava-se que a mulher nem era capaz de ter desejo sexual.


AH: Além da linguagem acessível, seu livro traz trechos muito engraçados. Trabalhar o humor foi uma das intenções? Que status Freud dava a ele?

AC: Para Freud, os ditos espirituosos, as piadas e ironias são — assim como os sonhos, os atos falhos e as neuroses — nosso inconsciente se manifestando de forma distorcida na consciência. Segundo ele, muitas dessas brincadeiras acabam expressando ideias proibidas que, de outra forma, permaneceriam reprimidas, mas que contam com o passaporte do humor para driblar a autocensura.

Com a ironia, por exemplo, o indivíduo usa palavras que significam o contrário da sua intenção — e assim diz coisas graves sem provocar espanto. Enquanto salga a picanha no churrasco, o tiozão mostra todo o seu preconceito racial, religioso e contra minorias com o salvo-conduto da piada politicamente incorreta — “é piada, então não ofende”. E o chiste também pode ser a forma de aliviar uma ansiedade, fazendo referência a uma situação insuportável ou dolorosa com a leveza do humor. O judeu Woody Allen espalhou em seus filmes comentários engraçados sobre os nazistas e o antissemitismo.


AH: Aliás, você encerra sua obra indicando filmes que explicam a psicanálise. Há algum em especial para assistir atualmente, em meio a tantas crises?

AC: Se você quer ver a psicanálise em ação no roteiro de filmes, uma dica é ir às obras de Hitchcock, que adorava inserir as teorias de Freud nos seus suspenses. Psicose, por exemplo, tem desde complexo de Édipo até o conflito entre id, ego e superego, representado nos andares do motel que Norman Bates, o assassino, gerenciava.

Já para entender a história da psicanálise, recomendo muito 'Freud — Além da Alma', do John Huston, que conta o início das elaborações desse pensador, e 'Um Método Perigoso', do David Cronenberg, que, além de mostrar a amizade e o rompimento de Freud com Jung, permite ao espectador ter uma ideia bem gráfica dos sintomas de uma mulher histérica da época.


AH: E nesses tempos de pandemia, entender Freud pode ajudar? Por quê?

AC: O mergulho num processo terapêutico se torna mais e mais importante conforme a Terra vai ficando um lugar mais perigoso. Justamente por a terapia — em seu acolhimento e reorganização do indivíduo — ser o avesso desse mundo do avesso. Esse curto-circuito mental em períodos de grandes riscos externos tem a ver com a forma como guerras, pandemias e outras crises afetam o nosso senso de futuro.

Testemunhar catástrofes coletivas nos empareda numa incerteza radical quanto ao porvir de curto e médio prazos. Esse vírus em descontrole vai matar as pessoas que eu amo? Vou ter de morar com minhas filhinhas embaixo de um viaduto por causa do avanço da miséria? Voltar a Freud é sempre um exercício de autoconhecimento e uma forma de aprender a lidar com os motivos de nossas aflições. Algo que pode ser de grande ajuda neste tempo de pandemia, uma ameaça tão real que desmonta os nossos mecanismos de negação da morte — um motivo mais que suficiente para anos de divã.


+Confira mais sobre o tema através da entrevista de AH com Alexandre Carvalho: