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Os bastidores do desaparecimento da pintura de Robert Hooke

No século 17, o matemático fez diversas contribuições para a ciência. Seu rosto, contudo, permaneceu um mistério por bastante tempo — em um caso que envolve até Isaac Newton

Larry Griffing / Tradução: Pamela Malva Publicado em 22/09/2020, às 18h00

A suposta pintura de Robert Hooke por Mary Beale
A suposta pintura de Robert Hooke por Mary Beale - Divulgação

Grandes descobertas científicas normalmente vêm acompanhadas de duas imagens icônicas, uma representando qual foi o avanço e outra, seu respectivo descobridor. A página do diário de Darwin que esboça o padrão de ramificação da evolução é normalmente acompanhada por um retrato do cientista em seus primeiros anos, à época em que o caderno foi redigido. Da mesma forma, o desenho das órbitas das luas de Júpiter geralmente aparecem ao lado de uma representação de Galileu.

Nesse sentido, outra descoberta inovadora no universo da ciência foi a identificação das células, por Robert Hooke (1635-1703). Publicada no primeiro best-seller científico, “Micrographia”, de 1665, a imagem icônica do achado traz uma gravura das células que constituem um pedaço de cortiça. Em dois ângulos diferentes, as células foram cortadas através e ao longo do grão, mostrando não apenas as células, mas também sua polaridade. No entanto, a descoberta não trouxe imagens de Robert Hooke.

A ilustração da célula de cortiça e outros esquemas de Robert Hooke / Crédito: Wikimedia Commons

 

A falta de qualquer retrato contemporâneo do cientista segue um grande mistério até hoje, já que Hooke foi membro fundador, bolsista, curador e secretário da Royal Society of London, um grupo fundamental para o estabelecimento da nossa atual noção de ciência experimental e seus relatos, que persistem até os dias de hoje.

Como admirador de Hooke, não pude resistir a deixar de lado meu trabalho diurno como professor de biologia celular de plantas para investigar o que poderia se chamado de mistério do retrato desaparecido. E, mesmo sem colocar os pés em uma galeria de arte, acho que resolvi o caso. Comecei seguindo um boato por trás de sua ausência, que ninguém menos que Isaac Newton estava de alguma forma envolvido.

Retrato de Robert Hooke / Crédito: Wikimedia Commons

 

O que está dentro do quadro

Minha hipótese era que o retrato deveria mostrar alguém ilustrando um princípio matemático pelo qual Newton reivindicava o crédito. Tal teoria poderia sugerir o motivo pelo qual Isaac Newton escondeu a pintura de um rival científico.

Com relação à pintura em si, a melhor candidata para ter criado a obra era a conhecida retratista Mary Beale, que Hooke conheceu, embora não haja qualquer registro explícito que os dois tenham trabalhado juntos. Surpreendentemente, quando digitei os termos de pesquisa ‘Mary Beale e matemático’, o primeiro link que apareceu me levou até uma pintura intitulada “Portrait of a Mathematician” (ou Retrato de um matemático).

O homem na tela combinava com a descrição física de Hooke de fontes contemporâneas: ele era conhecido por ter olhos cinza e um cabelo castanho natural, que tinha um “um excelente cacho úmido” e caía sobre a testa. Na obra, a ausência de uma peruca indica que o homem não era nobre ou de grande importância social — Hooke, na verdade, foi um dos primeiros cientistas profissionais. Ainda que fosse conhecido por ter uma deficiência (uma curvatura espinhal), o grande manto usado pelo protagonista da pintura poderia ter coberto a característica.

O suposto retrato de Robert Hooke por Mary Beale / Crédito: Wikimedia Commons

 

Historiadores da arte, no entanto, acreditam que as descrições físicas correspondentes ao cientista são insuficientes para reconhecê-lo como modelo do quadro. Algo parecido já aconteceu em 2004, quando a historiadora Lisa Jardine identificou incorretamente um retrato do químico Jan Baptist Van Helmont como sendo Hooke.

Há, então, outra evidência na pintura de Mary Beale além da aparência do homem que possa apoiar a ideia de que a artista retratou o matemático na obra?

Na pintura, o homem olha para o público e aponta para um desenho elíptico que ele faz com um compasso. Ao melhorar digitalmente a imagem online, descobri que as linhas principais correspondem a um manuscrito não publicado que Hooke produziu em 1685. No documento, o cientista prova geometricamente que uma força central produz uma órbita elíptica, seja em função constante ou linear da distância entre dois corpos.

Em seu livro Principia Mathematica, de 1687, Isaac Newton provou o contrário e reivindicou a prioridade da descoberta. Na época, os dois cientistas estavam em conflito. Apenas Hooke, no entanto, possuía o desenho de sua versão para como as coisas funcionam. Estava começando a parecer que a pintura de Mary trazia princípios da física importantes para Newton que ele talvez não estivesse pronto para exibir ao público.

Retrato de Isaac Newton / Crédito: Wikimedia Commons

 

Pistas em primeiro plano a partir do fundo

Em sua pintura, Mary representou a vista parcial de um dispositivo na mesa à esquerda do modelo. Ainda mais, o homem está ao lado de um modelo mecânico do sistema solar que conta com Mercúrio, Vênus e Terra orbitando elipticamente o Sol. Essa é uma versão física do desenho exibido na mesa. Para mim, isso fornece mais evidências de que a obra realmente representa Hooke.

O fato de Mary ter incluído o dispositivo é interessante por si só, já a obra foi criada décadas antes do primeiro modelo moderno do sistema, cosntruído por por um fabricante de instrumentos e colaborador próximo de Hooke, Thomas Tompion, em 1704. Conhecido como Orrery, o instrumento recebeu o nome do 4º Conde de Orrery, um parente de Robert Boyle, para quem Hooke havia trabalhado antes de seu cargo na Royal Society. Assim, acredito que Mary tenha representado um protótipo do instrumento na pintura de propósito.

Ainda com relação aos itens inseridos na obra, a paisagem ao fundo — que é bastante incomum nas pinturas de Mary — apresenta uma pista final. Minha hipótese é que Hooke, o arquiteto da cidade de Londres, teria projetado os edifícios que foram retratados na pintura. Consultando a lista de encomendas arquitetônicas de Hooke entre os anos de 1675 e 1685, é possível encontrar construções parecidas com as da pintura — são elas o Castelo Lowther e sua Igreja de São Miguel. E, de fato, Hooke havia redesenhado o último, com reformas concluídas em 1686.

A questão, então, passou a ser se Maru Beale poderia ter desenhado o castelo e a igreja verdadeiros. Fiquei surpreso ao saber que ela havia recebido uma encomenda notável para 30 retratos da família Lowther , então de fato provavelmente conheceu e esboçou o castelo e seus terrenos.

Modelo moderno de um Orrery / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma reforma visual para um cientista do século 17

Se o homem da pintura realmente for Hooke, o retrato traz a imagem icônica de um importante cientista. O problema agora é saber por onde a pintura andou nos últimos 300 anos. Para descobrir a resposta, recorri ao boato de que Newton poderia estar envolvido no desaparecimento do retrato — isso porque, de fato, os dois cientistas tiveram uma história conflituosa.

Um dos maiores conflitos entre os dois foi sobre a natureza da luz. Hooke explicou seus experimentos com cores como luz viajando em ondas através de folhas finas de mica mineral. Newton, por sua vez, explicou seus experimentos com cores como luz viajando através de prismas como corpúsculos ou partículas. A comunidade científica, então, questionou: a luz é uma onda ou é composta por partículas?

Newton alegou vitória, mas admitiu: “Se eu vi mais longe, foi ficando sobre as costas de Gigantes” — uma frase infeliz, dada a pronunciada curvatura da coluna de Hooke. De qualquer forma, os dois estavam pelo menos parcialmente certos: os físicos de hoje apreciam a dualidade onda-partícula da luz.

Retrato de Robert Hooke com seus muitos experimentos / Crédito: Wikimedia Commons

 

Além da questão, ainda existia a discussão do retrato, sobre as órbitas elípticas dos planetas. Em 1684, Hooke afirmou que poderia demonstrar matematicamente o que é conhecido como a primeira lei de Kepler, que Newton publicou em seu famoso “Principia Mathematica” (1687). O resultado foi que Newton removeu a menção às importantes contribuições de Hooke de seu livro - e eles nunca se deram bem novamente.

Para piorar a desconfiança de muitos, Hooke morreu em 1703, mesmo ano em que Newton se tornou presidente da Royal Society. Não há registro da propriedade da Royal Society desta pintura de Beale. Tudo que Newton teve que fazer foi deixá-lo para trás quando a Sociedade mudou de residência oficial em 1710, livrando-se assim de evidências concretas da afirmação de Hooke.

Onde a pintura esteve durante os séculos intermediários é uma questão de conjectura. Quando apareceu pela primeira vez em um leilão da Christie's na década de 1960, foi ironicamente rotulado como um retrato de Isaac Newton. A Sotheby's, última leiloeira pública da obra em 2006, não revelou a identidade do comprador. Espero que o atual proprietário se apresente e venda o retrato para a Royal Society. É aí que ele pertence, finalmente. Eu adoraria ver o original.


Por Larry Griffing, professor associado de biologia, Universidade do Texas A&M.


Este artigo foi republicado no The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.


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