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Arte para o além: conheça o Livro dos Mortos do Egito Antigo

No passado, a civilização fez de tudo para garantir uma boa passagem após a morte

Redação Publicado em 08/01/2021, às 08h00

Registro do 'Livro da Morte'
Registro do 'Livro da Morte' - Wikimedia Commons

A maioria da arte do Egito Antigo tinha algo de paradoxal: não era para ser vista. Feita para passar a eternidade dentro de tumbas, sua função era ritual e mágica, garantir o bem-estar do falecido no pós-vida.

Por isso também toda a formalidade, com os personagens iconicamente de frente, parados e com a cabeça de perfil – a função disso era ajudar os deuses a reconhecê-los.

Mesmo com essas limitações, em escultura e pintura, foram os pioneiros egípcios que abririam caminho para o realismo fluido dos gregos, que viria séculos e séculos depois.

O Livro dos Mortos não é um só. Ele foi escrito e modificado ao longo de mil anos por diversos sacerdotes. Suas cópias em papiro, tidas por mágicas como todo o resto, cumpriam a mesma função que as pinturas nas tumbas. Os desenhos e os textos seguiam um modelo original, mas foram sendo modificados ao longo do tempo.

Página do Livro de Emergir na Luz / Crédito: Wikimedia Commons

 

Aqui na imagem, o livro que pertenceu ao escriba de Tebas, Ani. Ainda que ele fosse um escriba, acredita-se que o papiro, extremamente profissional, tenha sido encomendado a um especialista. É uma das peças de literatura e arte egípcias mais bem preservadas conhecidas.

Magia

O Livro dos Mortos não era como a Bíblia. Era uma coleção de feitiços, não histórias ou profecias. Esses encantamentos eram destinados a ajudar os mortos a cruzar com sucesso o caminho descrito na imagem, para o Duat, o submundo. O nome do livro em egípcio é mais bem traduzido para Livro de Emergir na Luz.

Na primeira cena (presente na imagem acima) fica o que parece ser uma fila de assentos de ônibus. Estes são os deuses que irão acompanhar o julgamento do escriba, postado de joelhos diante deles. Da direita para a esquerda, em ordem de importância: Ra, Atom, Shu, Tefnut, Geb, Nut, Isis e Néftis, Hórus, Hathor, Hu e Sai.

O livro também indica que caso a alma fracassasse no teste, seu coração seria consumido pelo demônio feminino Ammit. Esta era uma bizarra mistura de crocodilo, hipopótamo e leão. Que não era aleatória: são os maiores matadores de humanos que os egípcios conheciam. O que vinha depois tinha várias interpretações: alguns acreditavam ser o nada. Para outros, o tormento eterno num lago de fogo.

Deus dos mortos

Com cabeça de chacal (ou talvez um lobo) está Anúbis, o deus dos mortos, responsável por trazer as almas para o submundo. Ele opera a balança do julgamento. À esquerda da banca, mais três divindades prestam assistência: Shai (o destino) e as deusas Renenutet and Meskhenet.

O escriba Thoth – à direita na imagem, com cabeça de ave, o íbis – anota os resultados da pesagem conduzida por Anúbis. O babuíno sobre a balança é outra personificação de Thoth. O coração da pessoa deveria pesar exatamente o mesmo que uma pluma. Os antigos egípcios acreditavam que o coração, e não o cérebro, era o centro da consciência e das emoções.