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Desvio de dinheiro, violação sexual e terrorismo: 5 episódios sórdidos da ditadura de Muammar Kadhafi

Durante 42 anos, o tirano líbio foi responsável por inacreditáveis atos em nome da manutenção de seu poder

André Nogueira Publicado em 19/03/2020, às 11h24

Muammar Gaddafi
Muammar Gaddafi - Getty Images

O governo de Muammar Kadhafi na Líbia é um dos mais controversos do mundo. Durante seu tempo no poder, os malefícios de sua gestão foram diversos, resultados de uma ditadura paternalista iniciada em 1969. Kadhafi, que era um militar beduíno com fortes posições antiocidentais. Como todas as ditaduras, o preço da gestão resultou numa série de atentados contra populações, principalmente ligadas à oposição.

Conheça cinco infâmias desse período.

1. Rei dos Reis

Muammar Kadhafi / Crédito: Wikimedia Commons

 

Kadhafi criou sistemas de saúde, educação, segurança e lazer públicos, e sistemas de auxílio. Porém, o programa econômico líbio em seu governo colocava o próprio coronel como centro do comando patrimonial do país, significando que o dinheiro da nação era seu. O ato legitimou o desvio de grandes valores para contas privadas.

O fim foi que o beduíno, nascido numa pobre comunidade itinerante no deserto, acabou se tornando um dos homens mais ricos da África, acumulando um patrimônio bilionário e passando a ter um estilo de vida de ostentação e luxo.

2. Guerras entre vizinhos

Sadat (Egito), Kadhafi (Líbia) e Assad (Síria) na formação da República Árabe Unida / Crédito: Wikimedia Commons

 

Kadhafi iniciou guerras desnecessárias contra países africanos durante seu governo. A principal foi a campanha iniciada contra o Chade, cuja principal característica que levou ao conflito é o fato de que seu presidente, François Tombalbaye, era cristão e hostilizava com o programa pan-arabista do ditador. Além disso, o país é peça central da geopolítica e da economia norteafricana, assim como a Líbia.

Trípoli comandou a ocupação da Faixa de Aouzou, no Chade, em 1973, dando início a um conflito de 14 anos. O país invadido teve ajuda de tropas europeias e estadunidenses, diferentemente do Egito, que entrou em conflito com a Líbia em 1977. Nesse ano, Kadhafi ordenou o costeio da fronteira, gerando hostilidades que levaram a uma Guerra em que a Líbia saiu derrotada.

3. Terrorismo Internacional

Casa do Oriente, quartel-general da OLP / Crédito: Wikimedia Commons

 

Kadhafi liderava um projeto internacional que passava pela retaliação da Europa e fim da centralidade ocidental no mando do mundo, tendo como principais inimigos os EUA, Israel, França e Reino Unido. Por isso, o militar auxiliou diversos grupos violentos na realização de ataques terroristas, chegando a declarar que qualquer um que quisesse combater o sionismo na Palestina receberia treinamento de combate do governo.

Além de apoiar associações como a Frente Moro de Libertação Islâmica (Filipinas), a Organização pela Libertação da Palestina, a Facção do Exército Vermelho (Alemanha Ocidental), as Brigadas Vermelhas (Itália), o IRA (Irlanda) e as FARCs (Colômbia), ele chegou a financiar a guerrilha na Palestina, os sandinistas da Nicarágua e o Movimento Setembro Negro, responsável pelo ataque nas Olímpiadas de Munique de 1972.

4. Harém de violências

Algumas de suas guardas femininas eram também servas sexuais / Crédito: Getty Images

 

Obcecado em sexo e poder, Kadhafi possuía um harém sexual que incluía homens e mulheres que, muitas vezes, eram escolhidos pelo ditador ainda menores de idade e levados de suas casas por seu exército pessoal. Com pouco contato com a família, esses servos eram abordados como parte do círculo interno do militar, obrigados a obedecerem a suas ordens em troca de benefícios.

Além de sodomizar com ministros como forma de manutenção de seu podr, Kadhafi também usava drogas como forma de controle. Dormia com a esposa ou a filha de seus inimigos como forma de humilhação, e obrigava seus servos a consumirem álcool, cocaína e haxixe para de entorpecerem e serem mais fáceis de controlar. Por conta de um forte conservadorismo da população, o tema quase nunca era abordado.

5. Terra arrasada

Tanque destruído nos arredores de Misrata / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com um forte controle das Forças Armadas, o governo líbio tinha alta capacidade de repressão contra inimigos do regime, o que foi plenamente visto com o cerco de Misrata, cidade com alta concentração de opositores. O coronel, como fazia com núcleos conspiracionistas, ordenou inicialmente o bombardeamento da cidade sem anúncio prévio à população civil. Então, foi feito o cerco militar e o impedimento da entrada de alimentos por quatro meses.

Violando os acordos estabelecidos pela Convenção de Genebra (portanto, cometendo crimes de guerra), abordagem contra Misrata levou à morte e ao sofrimento milhares, que passam por fome e doenças sem o auxílio do governo. Kadhafi ordenou a destruição do local, que depois foi o cerne de sua derrubada, e, segundo documentos posteriormente revelados, exigiu que o “mar azul” ficasse “vermelho com o sangue dos opositores”.


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