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8 dias de desespero em um iglu: a congelante saga de Eric LeMarque

O francês naturalizado americano abusou das drogas e abandonou seu sucesso no hóquei. Mas, bastou o sofrimento em uma montanha gelada para que sua vida tivesse uma revira-volta

Vanessa Centamori Publicado em 28/08/2020, às 08h00

Foto de Eric LeMarque
Foto de Eric LeMarque - Divulgação/Twitter/Eric LeMarque

Se tinha algo com que Eric LeMarque estava acostumado era o gelo: o rapaz era jogador profissional de hóquei. A familiaridade do francês naturalizado americano com o ringue  era tanta que, em 1994, ele fez parte da seleção francesa da categoria e participou dos Jogos Olímpicos de Inverno, na Noruega.

Porém, ele mal imaginava que o futuro guardava uma experiência terrível, na qual o gelo seria seu pior inimigo. Antes disso, porém, LeMarque experimentou de grande sucesso e mergulhou no vício em metanfetamina, que o deixava eufórico. Um tipo de felicidade química e ligeira — e que o destruía. 

"A metanfetamina afetou meu julgamento. Isolei-me da minha família, meus amigos e fiz minhas próprias coisas quando quis, como quis e com quem eu queria. Nada mais importava além de mim", contou o ex-jogador de hóquei, segundo a CBN

Carreira 

Antes de abandonar a sua carreira nos ringues gelados, Eric LeMarque não só disputou os Jogos Olímpicos, como também ganhou três campeonatos nacionais consecutivos de hóquei no gelo, entre os anos de 1994 a 1996, na França. 

Fez parte também do hóquei em patins dos Los Angeles Blades. Até que na temporada de 1999-2000 ele se aposentou e começou a trabalhar em marketing em uma fabricante de artigos esportivos.

Eric LaMarque em entrevista ao Family Entourage  / Crédito: Family Entourage/Youtube/Divulgação 

 

A emoção que sentia em seus patins foi substituída pela adrenalina do snowboard, somada ao buzz da metanfetamina. Até que LeMarque, em 6 de fevereiro de 2004, foi praticar com sua prancha na Mammoth Mountain, na Califórnia, no oeste dos Estados Unidos. Porém, seus planos foram interrompidos por uma tempestade, que mudou a sua vida para sempre. 

A desventura 

Naquele dia, uma patrulha de esqui fechou as pistas por segurança. Rebelde, o franco-americano ignorou os alertas e quis dar mais um passeio de snowboarding. Entretanto, ele foi pego de surpresa por um nevoeiro, que o fez pegar um caminho errado. Ficou perdido, tendo que passar a noite no meio de um deserto muito frio

"Não preguei o olho. Fiquei ali sentado, tremendo, e os arrepios não pararam até que saí da montanha", relatou LeMarque, mais tarde. O pior era que naquele frio terrível, ele tinha apenas uma jaqueta leve, um pouco de chiclete, fósforos encharcados, um MP3 e um saquinho de metanfetamina.

Conforme o tempo foi passando, o ex-jogador mal podia sentir os pés e percebeu, ao tirar as meias, que eles estavam pretos e roxos. O franco-americano caminhava e caminhava... a jornada parecia inesgotável. Andava o que pareciam ser cerca de 11 quilômetros por dia. 

Mammoth Mountain, na Califórnia / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Ele teve que se alimentar de casca de árvore e se aninhou em um abrigo improvisado: um iglu, que o rapaz construiu com sua prancha de snowboarding. Passou uma semana. Durante esse período, a mãe dele, Susan LeMarque, ficou desesperada pelo fato do filho nunca ter retornado. 

Socorro

Certo dia, LeMarque ligou seu MP3 e conseguiu ouvir que havia uma equipe de busca à procura do seu corpo. Isso o deu gás para que pudesse ter vontade extra de sobreviver. "Não importa se eu tivesse que rastejar em minhas mãos e joelhos, Eu não ia desistir. Não há nenhuma maneira que eu vou deixar meus pais me enterrarem", relatou o ex-jogador. 

Cena do filme O Poder e o Impossível, de 2017 / Crédito: Tooley Productions / Divulgação 

 

No 8º dia em que permaneceu preso na montanha e dormindo no seu iglu, o sobrevivente finalmente ouviu um barulho alto. Eram as hélices de um helicóptero. Ele caiu de joelhos. 

“Eu vi e encontrei o espírito da morte na montanha, e era horrível e muito tangível. Eu vi sua presença ”, desabafou Eric LeMarque, segundo o Los Angeles Times. Mas, o sufoco tinha terminado: o rapaz foi levado às pressas a um hospital.

Cena do filme O Poder e o Impossível, de 2017 / Crédito: Tooley Productions / Divulgação 

 

Superação

Eric LeMarque saiu com vida, mas acabou perdendo grande parte das pernas, devido à uma severa ulceração pelo frio. Lidar com essa situação e recuperar a sua saúde foi um longo processo. Afinal, ele havia perdido muitos quilos naquilo tudo. Ainda assim, a experiência lhe rendeu muito espiritualmente. 

O sobrevivente largou as drogas e começou a ir à igreja em uma cadeira de rodas. Rendeu-se a Deus. E ganhou a companhia de sua esposa, Hope, o enteado Nick e teve um filho, Zach. Todos só conhecem LeMarque com suas próteses.

Sua história nas montanhas fez com que ele amadurecesse também. "Eu adorei quando coloquei o menino para dormir. E o homem em mim aprendeu como estender a mão e pedir ajuda e encontrar os recursos que podem ajudar a me fortalecer”, disse. 

Em 2017, o franco-americano virou produtor executivo do filme O Poder e o Impossível (6 Below: Miracle on the Mountain), que conta a sua jornada em busca da sobrevivência. Ao ver algumas cenas serem gravadas, Eric LeMarque chorou muito e teve que sair do set. 

Um fato emocionante sobre o episódio vivido por ele é que, logo após sair do hospital, o ex-jogador prometeu que retornaria a montanha que quase o matou. E realmente o fez, um ano depois. Até hoje, ele ainda gosta de snowboarding, mas nunca perdeu seu amor pelo hóquei. “Tem sido uma bênção em minha vida. Isso me manteve vivo na montanha ”, contou, ao Los Angeles Times. “Também me levou ao redor do mundo e me ensinou persistência e como falhar pra frente".


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