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Marighella instituiu uma universidade popular para 180 presos

Durante o período, dava aulas de português e matemática

Alexandre Carvalho Publicado em 06/11/2021, às 16h40 - Atualizado às 18h38

Carlos Marighella, guerrilheiro baiano
Carlos Marighella, guerrilheiro baiano - Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, via Wikimedia Commons

Carlos Marighella era tão ativo no Partido Comunista do Brasil que, em 1935, a direção do PCB orientou-o a partir para o Rio de Janeiro, pois já era muito visado pela polícia baiana. E chegou à então capital do país justamente quando Luís Carlos Prestes liderou uma tentativa de tomar o poder no Brasil a partir dos quartéis, insurreição que ficaria conhecida como a “Intentona Comunista”.

A revolução malfadada acabou sendo um tiro no pé. Gerou um forte sentimento anticomunista nos meios militares e deu munição retórica para Getúlio Vargas implantar o Estado Novo dois anos depois. 

Como era um militante civil do partido, Marighellanem sabia dos planos revolucionários de seus líderes. “A classe operária ficou de fora, com exceção dos tecelões de três fábricas, que fizeram greve em apoio aos rebeldes”, conta Mário Magalhães. Até descobrir que, diante da revanche do governo, a cúpula do partido deu no pé.

No Rio, os membros do Secretariado Nacional do PCB fugiram para Recife e Salvador. Sem eles e com muitos outros detidos, caiu nas mãos de Marighella um acúmulo de novas funções.

Passou a gerenciar a propaganda partidária e também ficou responsável pela distribuição do dinheiro aos camaradas que se dedicavam em tempo integral ao partido. Esses novos papéis chamaram atenção. Tanta que, em 1936, no Dia do Trabalhador, Carlos Marighella foi preso por subversão.

Caiu nas mãos da Polícia Especial do governo Vargas e foi brutalmente torturado. Os agentes queriam que ele desse nomes e endereços de outros militantes, mas Marighella nada disse. Não falou após sucessivos desmaios, resultantes dos espancamentos e dos golpes com canos de borracha, nem ao perder os sentidos após uma sessão de “tortura chinesa”, quando os policiais comprimiram seus testículos mais e mais enquanto exigiam confissões.

Ficou preso por um ano e então partiu para a clandestinidade. Em 1938, foi morar em São Paulo, onde se tornaria o número 1 do PCB. Na cidade, adotou métodos sofisticados para não ser preso. Pegava bondes em movimento, aleatoriamente, virava
de repente nas ruas, comia cada vez em um lugar. Mas não foi o suficiente.

Em 1939, ele carregava exemplares de um panfleto que havia escrito, associando o integralista Plínio Salgado a Hitler e Mussolini, quando foi detido na Avenida São João. Dessa vez, para seu alívio, não houve tortura. Mas a prisão duraria muito mais.

No ano seguinte, foi condenado a cinco anos de reclusão. E, em outro 1º de maio, embarcou para onde o Estado Novo mandava seus presos políticos: o presídio de Fernando de Noronha. Não foi o pior dos mundos.

Na ilha paradisíaca, Marighella podia andar livremente. Os comunistas fizeram um pacto com o diretor da prisão: ele os deixava em paz, eles não tentavam fugir. Até porque a fuga parecia improvável com  centenas de quilômetros de mar até o continente.

Seu Jorge como o guerrilheiro no filme "Marighella"  / Crédito: Divulgação/O2 Filmes

 

Lá os camaradas do revolucionário organizaram times de futebol, montaram peças de teatro. Tiveram uma horta, construíram um galinheiro e pescavam de tudo, até lagosta. Assim preparavam as próprias refeições, de modo que comiam melhor
do que em qualquer outra prisão do Brasil.

Marighella trabalhava como assistente de cozinha. Mas fez muito mais que isso: instituiu uma universidade popular para os 180 presos antifascistas de Noronha (havia integralistas também, os admiradores de Hitler, mas não se misturavam). O próprio Carlos ensinava português e matemática.

Quando o Brasil cedeu o arquipélago como base para os Aliados na Segunda Guerra, Marighella e seus companheiros foram transferidos para o presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, onde não gozariam da mesma liberdade — ainda que pudessem ter horas de banho de mar, praticar esportes e até receber visitas.

Finalmente, em 18 de abril de 1945, a ditadura de Getúlio Vargas concedeu anistia aos presos políticos, e Marighella, encarcerado havia quase seis anos, finalmente se viu homem livre. Até então tinha visto mais as restrições do cárcere que as ações para mudar a política do Brasil. Mas isso estava prestes a mudar.

Com a vitória da União Soviética sobre os nazistas a empolgar o mundo, o Partido Comunista ganhou popularidade inédita por aqui. No mês em que Marighella deixou a prisão, eram 6.800 membros. Em dois anos, esse número passaria a 220 mil.

O partido também se tornava mais pragmático: enquanto Getúlio lançava leis trabalhistas que mudaram a vida dos operários, como a instituição do salário-mínimo e o limite de horas na jornada, o PCB passou a pedir que os trabalhadores organizados evitassem fazer greves. Era uma trégua estratégica. E que deu certo.

Em 10 de novembro, o Tribunal Superior Eleitoral  finalmente concedeu o registro do Partido Comunista. Marighella não precisava mais atuar na clandestinidade. Candidatou-se, então, para um cargo público e foi eleito: de preso político passou a deputado federal. Mas, um spoiler: a alegria durou pouco.


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