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A saga de Charles Jenkins, o sargento que fugiu para a Coreia do Norte — e se arrependeu

Após uma decisão tomada na base do álcool e da depressão, Jenkins sofreu torturas, teve um de seus testículos removidos à força e se tornou estrela de propaganda comunista

Fabio Previdelli Publicado em 10/11/2020, às 18h25

O ex-sargento Charles Jenkins
O ex-sargento Charles Jenkins - Getty Images

Uma decisão inspirada no álcool, na depressão e na estupidez. Foi sob essas circunstâncias que, na madrugada entre 4 e 5 de janeiro de 1965, Charles Robert Jenkins, então sargento do Exército dos Estados Unidos, cruzou a zona desmilitarizada que ele deveria estar protegendo e desertou do Sul para a comunista Coreia do Norte

A escolha, segundo Jenkins, foi um erro que o acompanhou por todos seus 77 anos. Apenas em 2004, aos 64 anos, quando chegou ao Japão, ele se entregou ao Exército americano para enfrentar sua pena na Suprema Corte. Foi lá, inclusive, que ele revelou o preço horrível que pagou por sua loucura.  

O ex-sargento Charles Jenkins / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em seu discurso, deixou claro que suportou um pesadelo surreal em uma terra governada por “um sistema que é mau e um homem que é mau até os ossos”. Vítima de espancamentos, privações e até mesmo a remoção à força de um de seus testículos, ele se tornou uma estrela de cinema — graças à sua interpretação de um capitalista belicista americano.  

Quem era Charles Robert Jenkins? 

Natural da Carolina do Norte, Robert ingressou no Exército aos 18 anos, em 1958, sem nunca ter se formado no ensino médio. Durante seu segundo posto na Coreia do Norte, o sargento, com 24 anos na época, começou a beber muito e passou a sofrer com a depressão. Muitos dos seus anseios eram de ser morto por soldados norte-coreanos ou, caso sobrevivesse, de ser enviado à Guerra do Vietnã.  

Assim, pensou que seria mais fácil conquistar a segurança em seu país através da Coreia do Norte. Seu plano era de desertar e depois pedir asilo na embaixada da União Soviética. De lá, imaginou que isso abriria caminho para ser devolvido à América pelos comunistas russos em troca de prisioneiros da Guerra Fria.  

“Eu não estava pensando com clareza”, admitiu em seu livro de memórias The Reluctant Communist (O Comunista Relutante, em tradução livre). “Mas na época minhas decisões tinham uma lógica que fazia minhas ações parecerem quase inevitáveis”. 

Charles Jenkins / Crédito: Wikimedia Commons

 

Tentando se acalmar após beber dez latas de cerveja, se aproximou das bases norte-coreanas removendo as balas de seu rifle, como uma demonstração de que estava ali em paz. No entanto, acabou indo até a Corte Marcial do país naquele mesmo dia. Foi lá que percebeu a besteira que havia cometido.  

Prisão, tortura e agressões 

Efetivamente encarcerado, dividia a cela com outros três soldados desertores. Supervisionados por comunistas, eles eram forçados a passar 10 horas por dia memorizando os escritos do fundador da Coreia do Norte e então líder supremo, Kim Il Sung. A falha de um homem em recitar as palavras corretamente — em coreano — poderia ocasionar no espancamento do grupo ou na punição sendo aumentada para 16 horas diárias.  

“Aqueles bastardos cruéis odiavam a mim e aos outros americanos tão profundamente que se recusavam a nos ver como humanos e gostavam de tornar nossas vidas um inferno”, disse em seu livro de memórias. Sobre os escritos, ele os classificou como a "luta de classes da perspectiva de um homem louco". 

Após sete anos de confinamentos, brigas e surras, as coisas começaram a mudar — aos poucos é verdade — quando ele foi declarado cidadão norte-coreano, recebendo uma casa própria do governo. Isso, entretanto, não o impediu de ser alvo de constante vigília e de surras causais.  

Os procedimentos cirúrgicos forçados  

Segundo conta, quando os soldados norte-coreanos avistaram uma tatuagem do Exército americano em seu braço, a mesma foi arrancada com uma faca, tesoura e sem o uso de anestésicos. Enquanto gritava de dor, os oficiais riam de seu sofrimento.  

Jenkins em setembro de 2004, recebendo um corte de cabelo para se adequar aos regulamentos de higiene do Exército dos EUA / Crédito: Getty Images

 

Entretanto, não foi a única operação a qual fora submetido. Em entrevista ao The Independent, Jenkins diz que, em um único dia, os médicos removeram seu apêndice e, em seguida, um de seus testículos (conforme mencionado anteriormente). 

Os trabalhos aos norte-coreanos 

Então, o desertor foi enviado para trabalhar como professor de inglês em uma escola militar dirigida pelo Escritório de Reconhecimento do Partido Comunista da Coreia do Norte. A ideia era ensinar a pronúncia americana aos norte-coreanos, porém, seu forte sotaque sulista mais atrapalhava que ajudava no processo. Isso só teria sido percebido em 1985.  

Além de docente, Charles enfrentou um emprego bizarro: o de ator. Como o filho de Kim Il Sung e eventual sucessor Kim Jong-il se convencendo do valor dos filmes de propaganda para a luta revolucionária, os americanos foram convocados para interpretar ocidentais malignos no que se tornou uma série épica de 20 partes chamada Heróis Unsung. 

“Depois do primeiro filme”, lembrou Jenkins, “eu andava pela rua e alguém gritava, todo animado e feliz, 'Kelton Bac-Sa [nome de seu personagem]!' e até mesmo norte-coreanos comuns pediria meu autógrafo”.  

Casamento arranjado 

Tempos depois, o governo havia encontrado uma esposa para ele, tratava-se de Hitomi Soga, uma japonesa que havia sido sequestrada em 1978, aos 19 anos, e obrigada pelo partido comunista a ensinar seus espiões a falarem sua língua nativa. Os dois se conheceram em 1980, quando ele tinha 40 e ela 21.  

Charles e Hitomi / Crédito: Getty Images

 

O primeiro encontro foi como uma reunião onde os dois concordaram que se casariam. Anos depois, Jenkins se convenceu de que fazia parte de um plano para produzir filhos que os norte-coreanos pudessem usar como espiões. Entretanto, como ele mesmo diz, “pouco a pouco começamos a nos amar”. Assim, eles se uniram devido a um ódio mútuo: a Coreia do Norte.  

“Pouco depois de nos casarmos, perguntei a ela qual era a palavra japonesa para 'boa noite'”, recordou.“Depois disso, todas as noites, antes de irmos para a cama, eu a beijava três vezes e dizia: 'Oyasumi'. Em seguida, ela dizia de volta para mim, 'Boa noite', em inglês”, “Fizemos isso para nunca esquecer quem realmente éramos e de onde viemos.” 

A primeira filha do casal, Mika, nasceu em 1983. Depois, o casal foi agraciado com uma segunda filha, Brinda, em 1985. 

A saída da Coreia e sua rendição ao Exército americano 

Em 2002, a sequência de eventos que levaria Jenkins a sair da Coreia do Norte começou. Depois que Kim Jong-il se encontrou com o primeiro-ministro japonês Junichiro Koizumi em Pyongyang, Soga e quatro outros sequestrados foram autorizados a retornar ao Japão. 

Charles ficou na Coreia com as filhas, contudo, os diplomatas japoneses fizeram um lobby para que ele e as garotas fossem liberados para irem ao Japão. A espera durou dois longos anos.  

Já na terra do sol nascente, na esperança de limpar sua consciência, em 11 de setembro de 2004, o homem de 64 anos marchou até os portões do acampamento Zama, uma base do Exército dos EUA — uma hora de carro de Tóquio —, fez uma saudação e disse ao tenente-coronel Paul Nigara: “Senhor, sou o sargento Jenkins e estou relatando”.  

Depois de mais de 39 anos, o desertor americano desaparecido há mais tempo a retornar ao Exército dos EUA estava de volta. A princípio, ele foi acusado de deserção, ajuda ao inimigo, encorajamento a outros soldados a desertarem e deslealdade — uma ficha de acusação que acarretava uma possível pena de morte. 

Hitomi, Charles, Mika e Belinda / Crédito: Getty Images

 

No entanto, as autoridades dos EUA tiveram que ser sensíveis aos sentimentos de seu aliado Japão, onde o sentimento público por Soga e outros sequestrados pela Coreia do Norte garantiram uma grande simpatia por Jenkins. Também houve especulação, nunca confirmada, de que Charles se beneficiou de poder contar aos serviços de inteligência dos EUA sobre os programas de espionagem norte-coreanos. 

Assim, ele garantiu um acordo pré-julgamento segundo o qual se declararia culpado apenas por deserção e ajuda ao inimigo — ensinando seu inglês com forte sotaque — e, em troca, sua punição seria limitada ao rebaixamento para dispensa privada desonrosa, perda de 40 anos de salários atrasados e 30 dias de prisão.

Jenkins foi libertado 25 dias depois, cinco dias antes do prazo, devido ao seu bom comportamento. Pouco depois, conforme relatado pela revista Time, ele desatou a chorar ao dizer: “Cometi um grande erro da minha vida, mas tirar minhas filhas de lá foi a coisa certa que fiz”. 

Posteriormente, ele e sua família foram morar na ilha natal de sua esposa, em Sado.Em 15 de julho de 2008, Charles obteve o status de residência permanente no Japão, um mês depois de solicitá-lo.

Com a conquista, comentou que queria ficar no Japão pelo resto de sua vida e também gostaria de obter a cidadania japonesa. O primeiro desejo de fato aconteceu, afinal, o ex-sargento morreu em solo japonês em 11 de dezembro de 2017, aos 77 anos.


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