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65 anos sem Frida Kahlo: Dor e orgulho

Neste dia, em 1954, morria aquela que revolucionou a história da arte do México.

André Nogueira Publicado em 13/07/2019, às 00h00

Las dos Fridas
Las dos Fridas - Crédito: Reprodução

Frida Kahlo foi uma das mais importantes artistas da história do México, marcada pela tradição vanguardista do modernismo surrealista. Nascida em 1907, na Cidade do México, era filha de uma família alemã com indígenas catequizados.

Frida teve uma vida conturbada. Aos seis anos, ela contraiu paralisia infantil, fazendo com que perdesse parte da mobilidade dos pés. Aos 18, sofreu um grave acidente de ônibus, resultando em graves fraturas nas costas e o seu quadril quebrado. Como consequência, foi obrigada a usar roupas ortopédicas e cadeiras de rodas, além de passar meses entre a vida e a morte num hospital.

Pouco tempo depois, a pintora se envolveu com o Partido Comunista Mexicano e, assim, conheceu Diego Rivera, com quem se casou duas vezes e viveu um relacionamento abusivo baseado em traições e negligência.

Crédito: Reprodução

 

Em 1937, a artista recebeu em sua casa, em Coyocán, o revolucionário exilado Leon Trotsky, com quem teve um caso amoroso durante dois anos. Na mesma época, um primeiro destaque de sua carreira: o pioneiro do surrealismo, André Breton, reconheceu seu trabalho como surrealista (mesmo que Frida negasse, pois, segundo ela, sua obra trata da realidade e não do mundo onírico).

Frida teve uma vida marcada pela dor. Mesmo debilitada, ela nunca se deixou padecer no sofrimento, se permitindo viver os gozos da vida. A artista era, acima de tudo, transgressora. Morreria aos 47 anos, de pneumonia.

Afrontosa, Frida se vestiu de terno para essa foto / Crédito: Reprodução

 

Legado

Era um mundo de homens. Vinte anos após sua morte, Frida Kahlo parecia ter entrado para a história da arte como a mulher do Diego Rivera. Foi quando, no final dos anos 1970, primeiro feministas e militantes latinoamericanas, depois críticos de arte, a notaram.

E uma grande descoberta fizeram: uma artista que não tem similares, que retratava de forma visceral uma dor que era só dela e toda uma teia de significados caros à cultura mexicana. Desde então, ela se tornou ícone pop - não sem ironia, porque, comunista, provavelmente abominaria a comercialização de sua imagem.

Os quadros misturando imagens médicas a cenas folclóricas e surreais podem dar a impressão de uma mártir, uma sofredora. Mas Frida, se sempre atormentada por seus problemas físicos, viveu a vida como quis. Não lhe faltaram amigos, festa e diversão, sendo o centro de um grupo boêmio, passando por muitos amantes de ambos os gêneros. Frida não gostava da dor, mas amava ser Frida.

Os detalhes da obra 

La Columna Rota / Crédito: Frida Kahlo

 

Sempre exagerada nos quadros, a monocelha pode ser vista superficialmente como algo cômico ou desleixado, mas ela a usava com orgulho. A artista tinha uma imagem cuidadosamente trabalhada - seu visual era um statement, uma afirmação artística. Os vestidos e joias folclóricos eram por identificação com o povo e pátria mexicanos. Longe de se achar feia, ela considerava a sobrancelha, com os olhos, as duas melhores partes de seu rosto.

As lágrimas eram bem reais. Aos 18 anos, a artista sobreviveu a um grave acidente de ônibus, que matou a maioria dos ocupantes. Uma coluna de ferro atravessou seu quadril e ela teve três vértebras deslocadas. Passou a vida toda sofrendo de dores constantes, passando por várias internações e cirurgias.

A coluna grega partida e prestes a despencar, no lugar de sua coluna vertebral, fala tanto da autoestima no fundo elevada de Frida - é um precioso interior, e sua pele, o exterior, aparece intocada - quanto de seu precário estado de saúde. O quadro foi feito após uma de suas cirurgias na coluna, na tentativa de melhorar sua mobilidade.

No quadro, Frida usa um suporte médico para pólio, que a atingiu na infância, deixando sua perna direita atrofiada - algo que a incentivou a decidir pelos vestidos longos. Seus problemas de saúde impediram-na de seguir seu sonho, tornar-se médica. Mas seu interesse e conhecimento na área são evidentes em suas obras, várias das quais com elementos que parecem saídos de manuais de medicina.

O pano não está aí para esconder nada. É, junto com os pregos, referência a outro sofredor e tema constante da arte, Jesus Cristo. Referência artística, não religiosa: Frida era comunista e ateia, mas a religiosidade popular inspirou sua arte, que faz referência a ex-votos mexicanos (retablos) e outros símbolos.