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Acidentes e ataques nas linhas de Nazca deixam danos irreversíveis

Sítio arqueológico no deserto do Peru é patrimônio mundial da UNESCO

Joseane Pereira Publicado em 23/04/2019, às 11h07

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- Reprodução

A Aranha e o Colibri são figuras icônicas presentes no deserto de Nazca, ao sul do Peru. Além delas, outras centenas de geoglifos foram conservadas na aridez do deserto, dentre figuras de animais, plantas e formas geométricas. E outras têm sido recentemente encontradas, como o desenho de seres antropomorfos em um local conhecido como Pampa de Nazca, a 50 km das linhas mais conhecidas. 

Esse sítio arqueológico gigantesco, um dos mais misteriosos da América Latina, é atravessado pela estrada Panamericana, que contém uma série de placas e avisos sobre a importância do local. E ainda que as espetaculares figuras só possam ser vistas em sua totalidade do céu, muitos trechos podem ser observados a partir da terra.

Mas isso não impediu um motorista de caminhão de adentrar a área com seu veículo, danificando três figuras gravadas no solo. Segundo o Ministério da Cultura do Peru, que fez uma inspeção no local, a passagem do caminhão criou "faixas profundas" em uma área de aproximadamente 50 metros de largura por 100 metros de comprimento.

Imagem do acidente cedida pelo Ministério da Cultura do Peru / Créditos: Reprodução

Após danificar as linhas, o motorista voltou para a estrada e continuou seu caminho, sem saber que outra pessoa que também viajava pelo local havia registrado o ocorrido -- gravação que se tornou viral após ser publicada em redes sociais, gerando comoção e revolta popular. O motorista, chamado Jainer Vigo, foi capturado por autoridades peruanas próximo à cidade de Nazca, alegando ter entrado na área devido a problemas com as rodas do caminhão e que não sabia da importância do local.

Confira abaixo o vídeo do acidente, em reportagem do canal de televisão Peru Noticias:

De acordo com o arqueólogo Jhony Isla, representante do projeto Gestión Nazca do Ministério da Cultura peruano, episódios como esse ocorrem com relativa frequência. "A diferença é que desta vez havia uma testemunha no local, que gravou e colocou o vídeo nas redes sociais. Mas essa é uma situação que ocorre constantemente. Também há pessoas que deixam lixo no local", afirmou Isla para a emissora Radio Programas del Perú.

Entre os danos mais conhecidos às linhas de Nazca está o protagonizado pelo Greenpeace em 2014. Os ativistas ocuparam a área do famoso colibri colocando banners que reivindicam a proteção ambiental, em protesto durante a realização, em Lima, de uma conferência da ONU sobre clima e ambiente.

No ano de 2015, outro dano envolveu um desejo artístico: um homem não identificado escreveu "Dibujador: Luis Tadeo" no geoglifo de um pelicano, assinando que ele teria sido o desenhista da obra. Segundo os funcionários do Ministério da Cultura, Luis Tadeo Cruz, supostamente sofria de uma doença terminal e "gravaria seu nome para que as pessoas se lembrassem dele". Isla detalhou que a primeira denúncia contra ele teria ocorrido seis anos atrás.

Frase "Dibujador Luis Tadeo" próxima ao geogrifo do Pelicano / Créditos: Reprodução

Consideradas patrimônio mundial pela UNESCO desde 1994, os geoglifos de Nazca foram avistados pela primeira vez em 1927, quando o piloto peruano Toribio Mejia Xespe os avistou sobrevoando a região. São mais de 13 mil traços que formam 800 figuras, algumas delas se estendendo por mais de 65 quilômetros, e que cobrem uma área total de 450 km².

Uma das teorias mais aceitas para a criação desses símbolos, datados de 200 a.C. a 500 d.C., é a de que eles teriam composto rotas de peregrinação das culturas pré-incaicas Paracas e Nasca, com objetivos rituais. As linhas e as figuras seriam parte essencial do culto a divindades associadas à água, cuja disponibilidade era necessária ao florescimento dessas culturas.