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Beck Weathers: o homem deixado — duas vezes — para morte certa no Monte Everest

O experiente alpinista tinha a missão de escalar os sete picos mais altos de cada continente, mas um trágico acidente quase custou sua vida

Fabio Previdelli Publicado em 31/05/2020, às 12h00

Cena do filme Everest, que retrata a história de Beck Weathers
Cena do filme Everest, que retrata a história de Beck Weathers - Divulgação

Seu braço direito jamais será como era antes, fora amputado em alguma parte entre o pulso e o cotovelo. Sua mão esquerda já não tem mais dedos. Seu nariz teve que ser totalmente reconstruído. No entanto, apesar de tudo isso, Beck Weathers não tem ressentimentos por ter sido deixado para morrer no cume do Monte Everest —não apenas uma vez, mas duas vezes.

Tudo começou na primavera de 1996, quando o patologista do Texas se juntou a um grupo de oito alpinistas ambiciosos que queriam chegar ao pico mais alto do mundo. Weathers já tinha experiência na prática e participava de uma missa para alcanças os “sete picos” — uma aventura de montanhismo que envolvia o cume da montanha mais alta de cada continente.

Fotografia do Monte Everest / Crédito: Wikimedia Commons

 

Até agora, ele havia completado apenas uma subida guiada: a do Maciço Vinson, na Antártica. O Everest seria o segundo dele.

Beck estava pronto para dedicar toda sua energia nessa subida e se esforçaria o máximo para isso. Afinal, não tinha nada a perder: sua esposa, enfurecida por sua devoção a escalar montanhas durante seu casamento de 20 anos, já havia o ameaçado deixá-lo antes de concluir a subida. E, dessa vez, ela garantiu que, assim que voltasse do Everest, o casamento realmente terminaria.

Então, Weathers decidiu fazer uma subida memorável, jogando a cautela ao vento. No entanto, esse vento em particular pairava a uma temperatura média de 30 graus negativos e soprava a velocidades de até 250 quilômetros por hora. Mesmo assim, o aventureiro estava pronto para a missão no dia 10 de maio de 1966.

A trágica escalada

A expedição fatídica de Beck foi encabeçada pelo veterano Rob Hall — um alpinista experiente, originário da Nova Zelândia, que havia formado uma empresa de escalada de aventura, e que já havia escalado o Everest cinco vezes.

Assim, oito alpinistas partiram naquela manhã de maio. O tempo estava limpo, mas, em pouco tempo, Weathers e sua equipe perceberiam o quão brutal a montanha poderia ser. Pouco antes da escalada, Beck havia passado por uma cirurgia de rotina para corrigir um problema de miopia. Porém, a altitude deformava ainda mais suas córneas que ainda estavam em recuperação, deixando-o quase totalmente cego quando a escuridão caía.

Beck Weathers em recuperação, seu braço direito em uma prótese / Crédito: Divulgação

 

Quando Hall descobriu que ele não podia mais ver, o proibiu de continuar subindo a montanha, ordenando que permanecesse no lado da trilha enquanto levava os outros ao topo. No caminho de volta, Weathers seria resgatado. De má vontade, acabou concordando. Mas Rob jamais voltou.

Ao chegar ao cume, um membro da equipe ficou fraco demais para continuar. Recusando-se a abandoná-lo, Hall escolheu esperá-lo, mas acabou sucumbindo ao frio e pereceu nas encostas. Até hoje, seu corpo permanece congelado logo abaixo da Cúpula Sul.

Weathers, que havia sido abandonado, percebeu a demora e notou que algo estava errado, mas manteve a fidelidade na equipe mesmo após outra caravana informá-lo sobre o ocorrido.

Só tomou outro rumo quando Mike Groom, líder da equipe de Hall, apareceu. Quando acamparam para se abrigarem durante a noite longa e fria, foram surpreendidos por uma tempestade de neve, que deixou a visibilidade ainda menor. Nesse meio tempo, Beck perdeu suas luvas e foi jogado por uma rajada de vento que o arremessou na neve.

Mais tarde, um guia russo resgatou o resto de sua equipe, mas Weathers foi considerado sem salvação e, como é de costume entre as pessoas que morrem no Everest, ele foi deixado para trás. Mas na manhã seguinte, uma equipe de resgate foi enviada para socorrer ele e outra japonesa deixada no local.

Beck Weathers depois de ser resgatado. A picada do gelo obscurece grande parte do rosto e as mãos estão enfaixadas / Crédito: Divulgação

 

Ela foi desacreditada e o mesmo se dizia de Beck, que tinha várias partes do corpo congeladas e estava a um passo de um quadro de queimadura por frio. Considerado “perto da morte, mas ainda respirando”, ele foi deixado para morrer pela segunda vez.

Mas, por algum milagre, seu corpo despertou de um coma hipotérmico e uma onda de adrenalina percorreu seu corpo. De alguma forma, se recompôs e desceu a montanha, tropeçando nos pés que pareciam porcelana e quase não tinham mais nenhuma sensação tátil.

Quando ele entrou em um acampamento de baixo nível, os alpinistas ficaram atordoados. Embora seu rosto estivesse enegrecido pelo frio e os membros provavelmente nunca mais fossem os mesmos, Beck Weathers estava andando e conversando. À medida que as notícias de sua sobrevivência voltavam ao acampamento base, mais choque se seguiu.

O alpinista não apenas estava andando e conversando, mas parecia que ele havia voltado dos mortos. Imediatamente, ele foi encaminhado para um hospital. Lá, o braço direito, os dedos da mão esquerda e vários pedaços dos pés tiveram que ser amputados, assim como seu nariz — que foi reconstruído com tecido do pescoço e do nariz.

O nariz novo de Beck Weathers, configurado a partir de um pedaço de sua orelha / Crédito: Divulgação

 

"Eles me disseram que essa viagem me custaria um braço e uma perna", brincou aos socorristas enquanto o ajudavam a descer. "Até agora, consegui um acordo um pouco melhor."

Hoje, Beck Weathers se aposentou do alpinismo. Embora nunca tenha escalado todos os Sete Picos, ainda sente que saiu por cima. Sua esposa, enfurecida por ter sido abandonada, concordou em não se divorciar e ficou ao seu lado para cuidar dele.


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