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Bruxas na vida real

Dezenas de milhares queimaram sob a acusação de bruxaria. Haveria algo de verdadeiro por trás do pânico? As bruxas eram reais?

quinta 1 novembro, 2018
Na Idade Média, milhares de mulheres foram acusadas de bruxaria
Na Idade Média, milhares de mulheres foram acusadas de bruxaria Foto:Getty Images

Já entrado nos 50, o burgomestre (prefeito) de Bamberg estava em profunda depressão quando decidiu passear pelo campo de sua propriedade. Sentou-se no chão para chorar. Então foi interrompido por uma estranha aparição, um súcubo, um demônio que se fantasia de mulher para seduzir os homens. Que perguntou por que estava tão triste. Ele retornou que simplesmente não sabia. Então a criatura se aproximou. E se transformou num bode, que falou: “Agora você sabe com quem está lidando”.

O bode exigiu a Johannes Junius – esse era seu nome – que se entregasse a ele, ou seria morto. O burgomestre gritou “Deus, me salve disso!”, e o monstro sumiu. Apenas para retornar com mais demônios. Junius então cedeu, negou a Deus e passou pelo batismo negro. Depois disso, uma rede de satanistas na cidade de Bamberg se revelou a ele, e o convidou a celebrar sabás negros com eles.

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O que vai acima contou Junius a seus inquisidores, em 5 de julho de 1628, após uma semana sendo pendurado pelos punhos com as mãos para trás, tendo os dedos apertados até sangrarem, e as pernas pressionadas até quase seus ossos se partirem. Segundo ele próprio, na carta final à sua filha, apenas uma história que ele inventou para parar o suplício.

Junius sabia o que os caçadores de bruxas queriam ouvir. Sua colorida narrativa foi aceita como realidade. Mas seus acusadores não estavam satisfeitos. Queriam nomes, quais eram esses satanistas que encontrou, ou haveria mais tortura. E nomes ele teve de dar.

Foi por essa mesma armadilha viciosa que o próprio Junius havia caído. Sua esposa e um amigo o haviam denunciado antes de queimarem. Bamberg arderia por mais três anos, até que a população começou a questionar o tribunal, pois ninguém estava seguro. A loucura terminaria quando tropas protestantes invadiram a cidade, em meio à Guerra dos 30 Anos.

Ninguém esperava a inquisição

O prefeito em desgraça não era o caso mais típico – ele era homem e rico. A grande maioria dos até 100 mil mortos acusados de bruxaria era de mulheres, muitas delas pobres.

Bruxas, mulheres com poderes mágicos e más intenções, são parte do folclore de quase todas as culturas, dos astecas aos zulus. Na Europa, em meio ao declínio do feudalismo, a partir do século 13, inicia-se um processo de êxodo para as cidades, que duraria séculos, acompanhado por uma série de revoltas camponesas por toda a Europa, que alteram a relação entre servos e senhores feudais. E a relação das mulheres com as normas sociais vigentes.

À medida que os camponeses passam a conquistar mais liberdades – seja passando de uma relação feudal a uma relação dinheiro-aluguel, seja funcionando como contratados, e não como semiescravos a serviço perpétuo de um senhor –, as mulheres passam a conquistar mais liberdades também. O que não necessariamente significava uma vida materialmente melhor, pois com ela vinha a perda de garantia de alimentos e moradia. Daí as revoltas.

O processo de substituição do modelo feudal pelo capitalista, como explica a historiadora ítalo-americana Silvia Federici em seu livro Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva, levou ao êxodo das aldeias para as cidades e, nesse ínterim, mulheres começaram a exercer funções e profissões para além das casas e terrenos familiares, seja como pedreiras, seja até mesmo como cirurgiãs. E comumente como prostitutas. Essa aparente liberdade das mulheres, que mesmo exercendo em geral atividades inferiores estavam menos sujeitas ao controle dos homens, não passou desapercebida pela Igreja.

A Inquisição havia nascido no século 12 como forma de eliminar heresias como o catarismo e o valdismo. Mais de um século depois, passou a olhar para a “bruxaria” como uma forma de heresia. Até então, muitos dos próprios papas poderiam ser acusados de tal prática, dado o enorme interesse de alguns deles pela alquimia e pura e simples magia.

As primeiras medidas que dariam início à Inquisição começam a ser postas em prática em 1184 com o papa Lúcio III (a chamada Inquisição Episcopal). Com o papa Inocêncio II acontece a primeira cruzada inquisitória, contra os cátaros (também chamados albigenses), em 1198. O Tribunal do Santo Ofício, ou a Inquisição Papal, é criado oficialmente em 1229-1230 pelo papa Gregório IX durante o Concílio de Toulouse. Em 1320, finalmente, o papa João XXII inclui a bruxaria no hall de heresias.

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As “bruxas” passam a ser o alvo preferencial da Inquisição a partir do século 14, após o surto de Peste Negra, que dizimou um terço da população europeia e foi lido por líderes religiosos como uma forma de punição pela leniência a heresias e comportamentos não cristãos. Obra indireta e direta de bruxas e magia negra.

O best-seller assassino

A criação da prensa de Guttenberg é comumente vista com um instrumento de elucidação das massas. Uma visão idílica. Veja o caso do clérigo católico Heinrich Kramer. Em 1487, ele lançaria Malleus Maleficarum. Um livro que deveu seu sucesso ao revolucionário método de reproduzir livros e, por dois séculos, o segundo mais vendido na Europa após a própria Bíblia.

É um guia de caça às bruxas e heresias afins. Nele, Kramer endossa o extermínio, valendo-se de detalhadas análises legais e teológicas, louvando a prática da tortura para obter confissões. E, um ponto central, afirma que mulheres têm tendência natural a se tornarem bruxas.

O Malleus, diz Diarmaid MacCulloch no livro Reformation: Europe’s House Divided, foi escrito como uma forma de vingança e autojustificação por Kramer ter sido impedido de levar adiante um dos primeiros processos contra bruxas na região do Tirol. Kramer foi expulso da cidade de Innsbruck e, após apelar ao papa Inocêncio VIII, este lhe atendeu com uma bula, em 1484, a Summis Desiderantes Affectibus, que lhe garantia jurisdição para atuar na Alemanha.

Até a publicação do livro, a bruxaria era considerada um crime menor, punido com castigos físicos diversos. Uma esquisitice folclórica de velhinhas mal-orientadas pelos padres. Após a publicação do Malleus, autoridades católicas e protestantes passaram a usá-lo no julgamento e condenação de suspeitas de bruxaria, tornando mais brutal a perseguição.

O livro não era usado por inquisidores, mas sim por tribunais seculares, em especial durante a Renascença. Quem queimava os acusados de bruxaria era o Estado, não o clero – o governo da Espanha, Portugal, dos vários Estados alemães etc. Só nos Estados Papais, onde a Igreja também era a autoridade secular, a Inquisição tinha poder para executar – como no célebre caso do teólogo Giordano Bruno, que queimou em Roma, em 1600.

Simpatia pelo Diabo

Não era só a negação a Cristo que movia a fúria contra as bruxas. O escândalo andava de mãos dadas com a fé em ceifar vidas inocentes.

Acusações de sexo com demônios eram lugar-comum durante o auge da perseguição à mulheres consideradas bruxas, entre os séculos 14 e 17, uma época em que sexo era um tabu, como conta o historiador David M. Friedman, em Cultural History of the Penis.

Não era incomum que os juízes nos julgamentos das bruxas exigissem detalhes minuciosos das alegadas práticas sexuais. Quanto mais inventivos os atos, maior a sensação nas seções de tortura a que submetiam as acusadas e que prenunciavam o auto de fé.

Além de curandeiras, aquelas mulheres que não seguiam à risca normas sociais da época (como se portar de maneira recatada, obedecer aos pais e marido etc.) eram alvos dos inquisidores, assim como as mentalmente insanas ou perturbadas. Ou, sem fazer nada, as que tivessem o azar de serem denunciadas por inveja, ciúme ou, como no caso do prefeito, alguém forçado a dar um nome.

Também escandalosa é a origem do veículo favorito das bruxas, a vassoura. Atestado por múltiplas fontes e em múltiplas receitas, o unguento voador era um composto tradicional alucinógeno feito de plantas venenosas como a mandrágora, a beladona e a figueira-do-diabo. Provável vestígio da era dos druidas, era usado em rituais noturnos, que envolviam vassouras de um jeito peculiar. No julgamento da nobre irlandesa Alice Kyteler, em 1324, é mencionado que “as bruxas confessaram besuntar o cabo com o unguento e cavalgá-lo até o ponto de encontro, ou ungirem-se nas axilias e em outros locais peludos”. Não ria. Alice foi queimada viva.

Histeria e Hecatombe

O livro European Witch Trials: Their Foundationsin Popular and Learned Culture, de Richard Kieckhefer, traz uma longa e assustadora lista de julgamentos de bruxas a partir do século 14, como por exemplo o julgamento de 600 pessoas acusadas de bruxaria na cidade de Toulouse entre 1320 e 1350, sendo 400 delas condenadas e executadas. Ou 400 pessoas julgadas e 200 condenadas e executadas na vizinha Carcassonne, na mesma época.

Além das torturas, havia ainda os métodos práticos para encontrar bruxas. O mais comum era o teste da água. Uma mulher era arrastada para um lago ou rio, despida e amarrada. Ao ser atirada, se flutuasse, era bruxa. Se afundasse, eles até tentavam puxar de volta. A explicação é que bruxas repeliam a água por terem rejeitado seu batismo ao aceitarem Satã. Mas não era a única: também disseram que era por serem anormalmente leves. E assim surgiu o teste do peso: se a ré pesasse menos do que se imaginava normal, era bruxa.

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A Alemanha do fim do século 16 e começo do 17 viu alguns dos maiores autos de fé registrados na História. Junto a Johannes Junius, pelo menos mil pessoas foram executadas em Bamberg (1626- 1631) e em Trier (1581-1593). Na mesma época, mais 250 em Fulda (1603-1606) e 900 em Würzburg (1626-1631).

No século seguinte, a caça às bruxas se tornou a peça número um da denúncia dos iluministas aos abusos da religião e superstição. Aos poucos, a loucura iria se arrefecendo. A última pessoa a ser morta por acusação de bruxaria foi Anna Göldi, na Suíça. Foi acusada de materializar magicamente vidro e agulhas no pão e leite da filha de Jakob Tschudi, para quem trabalhava como doméstica. Torturada, falou ter feito um pacto com o diabo, na forma de um cachorro preto que se materializou do nada.

A caça às bruxas então já era bem desmoralizada. Göldi foi acusada formalmente de envenenamento, não bruxaria – ainda que a lei não prescrevesse pena de morte para tentativa de envenenamento. Era 1784, oito anos após a morte de David Hume, seis anos da de Voltaire e Rosseau, um após a de D’Alembert e o mesmo da de Diderot, filósofos anticlericais que dariam origem ao jeito moderno e secular de pensar. Antes do fim do século, em 1798, os Estados Papais seriam capturados pela França, restaurados em 1800 e novamente capturados sob Napoleão, em 1808.

O total de mortos por acusações de bruxaria desde a Idade Média é controverso. A cifra mais baixa, 35 mil, é defendida pelo historiador William Monter, da Northwestern University (EUA). Em seu livro Witchcraze (sem tradução), de 1994, a historiadora Anne Llewellyn Barstow chegou a 100 mil.

O Dia das Bruxas

A festa de Halloween comemora-se todos os anos na passagem do dia 31 de outubro para o 1º de novembro. É um momento tão central na cultura dos EUA quanto o Carnaval aqui, uma celebração exportada para todo o mundo, irritando nacionalistas.

O Halloween tem sua origem no Samhain, uma festa celta que marcava o fim da colheita e o começo do inverno e que durava toda a noite. Acreditava-se que durante essa noite a fronteira entre o nosso mundo e o outro mundo, o dos mortos, podia ser cruzada, que fadas e os espíritos dos que foram vinham ao nosso mundo. Alimentos eram deixados para os fantasmas que porventura visitassem suas antigas casas e famílias. Grandes fogueiras eram acesas onde eram feitos sacrifícios animais. Druidas buscavam adivinhar o futuro.

Em 609 d.C., o papa Bonifácio IV dedicou um panteão em Roma à honra dos mártires cristãos, dando início à comemoração do Dia de Todos os Mártires. No século 8 o papa Gregório III designou o dia 1º de novembro como Dia de Todos os Santos e Mártires. A partir do século 9, com a cristianização das regiões celtas já virtualmente completa, o Samhain e o Dia de Todos os Santos acabaram se fundindo, criando o Halloween. O nome inglês vem de All Hallows’ Even (“noite de todos os santos”).

A rogada proteção dos deuses virou a dos santos. Agora contra as bruxas, que aproveitavam o tal portal do outro mundo para se encontrarem com seu mestre.

Durante o Samhain celta era comum que pessoas vestissem fantasias ou se disfarçassem, buscando comida pelas casas das cidades em que viviam, costume esse que acabou sobrevivendo e se tornando o ponto culminante.

A partir da primeira metade do século 19, com a imigração em massa de irlandeses fugindo da fome em sua terra natal, a tradição celta se implantou nos EUA.

¿Las Hay?

Mas, afinal, tudo isso foi mesmo por nada? As bruxas existiam? A resposta é sim. Havia de fato satanistas na Idade Média. Ao menos um caso é bem registrado: o dos luciferianos, um grupo derivado dos cátaros que viveu na Alemanha do século 13. Acreditavam que Satã havia sido injustiçado e na verdade era o lado bom da guerra com Deus.

Mesmo se satanistas reais fossem raros ao ponto da irrelevância, o que não faltava era candidatos a mago. Alquimistas ganhavam fortunas não só por fórmulas como por rituais secretos. Os grimórios, livros de feitiços, circulavam por mãos cobiçosas por toda a Europa. O Grimório de Honório, do século 13, era atribuído a um papa. Ele ensinava como escapar do purgatório e invocar demônios, entre outras.

A diferença entre alquimistas e bruxas é que os primeiros eram homens, ricos, educados e próximos ao poder, conselheiros de reis e papas, justificando sua atividade como uma manipulação da natureza. As bruxas eram conhecedorasde ritos e poções de tempos pagãos, sem entender como isso poderia ser visto como adoração a Satã.

Como os alquimistas, todas (ou quase todas) deviam se ver como boas cristãs. Certamente, algumas delas e alguns deles usaram seus poderes – bem reais, no caso de venenos – para o mal. Mas quem teve uma vovozinha tradicional, daquelas que fazem rezas, simpatias e garrafadas, conheceu a bruxa típica.

Raphael Tsavkko


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