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Choi Eun-hee: a atriz sequestrada pela Coreia do Norte para criar uma nova Hollywood

Enganada por espiões, a sul-coreana foi uma das armas usadas pelo Líder Supremo Kim Jong-il para transformar seu país em uma potência no cinema

Isabela Barreiros Publicado em 24/09/2020, às 16h26

A atriz sul-coreana Choi Eun-hee
A atriz sul-coreana Choi Eun-hee - Wikimedia Commons

Nos anos 1990, o cinema se tornou uma arma importante para a propaganda norte-coreana, sob as mãos de Kim Jong-il, o já falecido pai do ditador Kim-Jong-Un. Naquele período, a Divisão de Cinema e Artes da Coreia do Norte passou a ser comandada pelo próprio Líder Supremo, que era, por sinal, apaixonado por filmes.

No entanto, a megalomania da operação ultrapassou todos os limites esperados. Aficionado pelo mundo audiovisual e querendo divulgar a ideologia pelo norte da península coreana, Jong-il mandou até mesmo sequestrar um casal, um diretor e uma atriz, com o intuito de transformar seu país em uma potência no cenário cinematográfico mundial. 

Essas pessoas, que foram enganadas por oficiais norte-coreanos, foram, primeiramente, a atriz sul-coreana Choi Eun-hee, que mais tarde recebeu a companhia de seu ex-marido, o diretor Shin Sang-ok, no país sob regime ditatorial. A saga bizarra demonstra que o então chefe de Estado iria muito longe para alcançar seus objetivos.

 Kim Jong-il com apoiadores / Crédito: WIkimedia Commons 

 

Trajetória

A artista Choi Eun-hee nasceu na cidade de Gwangju, localizada na província de Gyeonggi, na Coreia do Sul, no dia 20 de novembro de 1926. Em 1947, iniciou sua carreira no cinema no filme A New Oath, em um período tenso durante a Guerra da Coreia, que durou de 1950 e 1953, dividindo a península coreana.

Choi alcançou o estrelato muito rapidamente, já no ano seguinte, quando atuou no filme The Sun of Night, lançado em 1948. Durante as décadas de 1960 e 1970, ela se tornou uma das mais importantes atrizes da Coreia do Sul, ao lado de nomes notórios como Kim Ji-mee e Um Aing-ran.

Seu sucesso aconteceu principalmente devido aos icônicos longa-metragens dirigidos por Shin Sang-ok, considerado na época o Príncipe do Cinema Sul-Coreano. A combinação do diretor e da atriz de sucesso foi ainda melhor que o esperado e o casal, que se uniu em 1954, fundou a Shin Film, uma espécie de produtora de filmes criada por eles que foi responsável por muitos filmes líderes de bilheteria.

Nesse período de ouro para sua carreira, Choi chegou a estrelar mais de 100 produções cinematográficas, entre muitas dirigidas por seu marido, como A Flower in Hell, de 1958, e The Houseguest and My Mother, de 1961. Mas as coisas já não estavam tão boas para a mulher que já havia sido considerada uma das maiores estrelas do cinema sul-coreano.

O casal havia adotado dois filhos juntos, Jeong-kyun e Myung-kim, e já estavam juntos fazia um bom tempo. No entanto, a esposa descobriu que o marido estava a traindo com a jovem atriz Oh Su-mi, e os dois se divorciaram em 1976. A carreira da atriz também começou a sofrer com uma queda depois desse episódio.

O sequestro

Choi Eun-hee e Shin Sang-ok / Crédito: Divulgação/Magnolia Pictures & Magnet Releasing

 

Com a carreira em decadência, a artista tinha que buscar novas opções para conseguir manter-se relevante no mundo do cinema. Foi quando Wang Dong-Il, que dizia ser um produtor de Hong Kong, contatou a atriz e disse que tinha um papel em uma de suas produções para ela. 

Segundo descrito por Paul Fischer em seu livro livro Uma Produção de Kim Jong-il (2016), Choi decidiu ir até o território, esperando que pudesse voltar para a posição que ocupava anteriormente na cinematografia sul-coreana. O que ela não esperava era que aquilo não passava de uma armadilha. 

A caminho da falsa reunião, foi transferida pelo seu suposto guia, que era um espião que trabalhava para a Coreia do Norte, para um navio cargueiro. Sedada, acordou e percebeu quem havia ordenado o sequestro ao observar a fotografia do Líder Supremo Kim Jong-il no camarote em que estava. Assim, ela entendeu seu destino. 

Quando o caso do desaparecimento da mulher se tornou notícia, seu ex-marido se tornou o principal suspeito do seu sumiço. Decidido a colocar um fim nesses questionamentos, Shin foi até Hong Kong. Lá, porém, circunstâncias misteriosas fizeram com que ele também fosse levado contra sua vontade ao mesmo país de sua ex-esposa.

Fischer afirmou em sua obra sobre o caso que a rotina dos prisioneiros "era a mesma, dia após dia, confinados em casa e assistindo a cerca de quatro filmes por dia. Os filmes eram escolhidos para eles, sem que fossem consultados, e incluíam títulos da União Soviética e do Leste Europeu, assim como dois americanos, Dr. Jivago e, estranhamente, Papillon". 

O chefe de Estado os apresentou a sua enorme coleção de filmes, levou-os para ver filmes, óperas, musicais e festas. Durante oito anos, a artista teve que atuar em suas produções e o diretor teve que criar filmes, desenvolvidos com o intuito de tornar um país o palco de uma nova Hollywood. 

Fuga e fim da vida

Durante muitos anos, os dois permaneceram como marionetes nas mãos de Kim Jong-il, fazendo todos os filmes que ele queriam sem manifestar nenhuma reclamação. No entanto, isso estava chegando ao fim.

Depois de uma participação no Festival de Berlim, em 1986, a atriz e o diretor lideraram uma fuga espetacular com a ajuda da embaixada dos Estados Unidos em Viena. Segundo a própria Choi, um repórter japonês a colocou em um táxi que a levou para a missão diplomática. 

"Quando cheguei à embaixada dos Estados Unidos na Áustria, e me disseram 'Bem-vinda ao Ocidente', comecei a chorar. Ainda tenho pesadelos com agentes norte-coreanos me perseguindo”, disse a atriz em entrevista em 2015. Ela estava finalmente livre das exigências extravagantes do Líder Supremo da Coreia do Norte.

Choi e Shin viveram nos Estados Unidos por mais de uma década e voltaram a Coreia do Sul em 1999. Tiveram finais de vida longe das amarras da Coreia do Norte. Ele faleceu aos 79 anos em 2006 e ela morreu em 2018, aos 91 anos.


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