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Da explosão de um avião a alvo da Coreia do Norte: a insana vida de Kim Hyun-hui

Quando adolescente, a jovem tornou-se uma agente da nação e, assim, protagonizou uma das missões mais cruéis da época

Pamela Malva Publicado em 26/08/2020, às 19h00

Kim Hyun-hui durante entrevista coletiva
Kim Hyun-hui durante entrevista coletiva - Divulgação/Youtube

Quando tinha apenas 19 anos, Kim Hyun-hui foi apresentada a um dos mundos mais perigosos da Coreia do Norte: o de agente. Na época, ela estudava em uma universidade de elite de Pyongyang, a capital do país, onde aprendia japonês.

Nascida em terras norte-coreanas, ela era, assim como a grande parte da população, programada para adorar sua nação. "O país inteiro está configurado para mostrar lealdade à família real Kim. É como uma religião", ela explicou à BBC, em 2013.

Acostumada com as tradições da Coreia do Norte, então, a jovem aceitou todos os comandos que recebia de olhos fechados. Durante as Olimpíadas de 1987 em Seul, no entanto, uma das ordens representou o fim da vida que Kim Hyun-hui conhecia.

Kim Hyun-hui durante entrevista / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Treinos intensos

Em 1987, já faziam seis anos que a jovem norte-coreana treinava a lado de outros agentes que, assim como ela, foram recrutados pelo país. Por metade do período, Kim foi a dupla de uma menina japonesa que havia sido sequestrada pela Coreia do Norte.

Chamada Yaeko Taguchi, a jovem foi arrancada de sua casa e levada à força para os campos de treinamento norte-coreanos. Lá, sua função era ensinar meninas como Kim a se comportarem e falarem como típicas japonesas. E assim ela fez.

Tudo foi colocado em risco naquele ano de 1987, quando as Olimpíadas seriam sediadas em Seul — fato que Kim Il-sung e seu filho Kim Jong-il estavam dispostos a impedir. "Um oficial sênior me disse que derrubaríamos um avião sul-coreano", explicou Kim, ainda na entrevista de 2013.

Fotografia de Kim Hyun-hui já sob custódia do governo da Coreia do Sul / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Plano delirante

Na época, Kim lembra que seus comandantes definiram a missão como “ratificada” — uma palavra usada apenas para distinguir as ordens que vinham direto de Kim Il-sung. Dessa forma, o comando deveria ser “executado com extrema lealdade”.

"Kim Il-sung era uma figura divina", ela conta. "Qualquer coisa que fosse ordenada por ele poderia ser justificada. Você estava pronto para sacrificar sua vida." Com isso, Kim seguiu as ordens e, acompanhada por um agente mais velho, partiu de seu país.

O plano era simples: os dois norte-coreanos entraríam em um avião da Korean Airlines, em Bagdá, plantariam uma bomba e, logo em seguida, fugiram da aeronave em uma escala em Abu Dhabi. Mas as coisas não saíram da forma que deveriam.

Fotografia de Kim Hyun-hui durante entrevista / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Por água abaixo

No dia do atentado, Kim e seu comparsa realmente subiram no avião e colocaram um explosivo no compartimento destinado para malas de mão. Também com êxito, os agentes fugiram e a bomba foi acionada, matando as 115 pessoas a bordo do avião.

Mais tarde, no entanto, os dois foram capturados pelo governo da Coreia do Sul. Uma vez nas mãos dos inimigos, o parceiro de Kim cometeu suicídio usando cianeto, coisa que a própria norte-coreana não conseguiu fazer.

Agora, a agente estava sob custódia do governo sul-coreano, nação que ela aprendeu a odiar. Escoltada por oficiais, Kim foi levada até Seul. "Quando desci os degraus do avião, não vi nada. Eu apenas olhei para o chão. Eles haviam fechado minha boca com fita adesiva. Eu tinha certeza que eles iam me matar", conta.

Kim Hyun-hui descendo do avião, já sob custódia do governo da Coreia do Sul / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Sala escura

Ao contrário do que Kim imaginava, entretanto, os sul-coreanos a levaram até um bunker, onde longas sessões de interrogatório começaram. No início das perguntas, ela lembra, a agente tentou fingir-se de japonesa, mas a máscara logo caiu.

Não demorou muito para que Kim assumisse o atentado, pensando nas famílias das vítimas que ela mesma matou. "Quando confessei, o fiz com relutância", ela afirma, "achei que minha família na Coreia do Norte estaria em perigo; foi uma grande decisão."

Convicta, ela fez questão de afirmar que a missão teria sido ordenada por Kim Il-sung e Kim Jong-il. Em 1989, já como alvo de perseguições da Coreia do Norte — ela, afinal, havia traído sua nação —, a agente foi condenada à morte por um tribunal sul-coreano, mas acabou sendo perdoada pelo presidente na época, Roe Tae-Woo.

Kim Hyun-hui durante entrevista / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Liberdade fingida

Sob os cuidados da Coreia do Sul, a mulher nunca mais voltou para sua antiga nação e tem medo de perseguições até hoje. Casada com um oficial da inteligência sul-coreana, Kim Hyun-hui não sabe qual foi o destino de sua família. Hoje, a mulher tem dois filhos e sonha com o fim da dinastia norte-coreana dos Kim.

"Quando eu olho para trás, fico triste. Por que eu tive que nascer na Coreia do Norte?", ela se questiona diariamente. "Veja o que isso fez comigo. As pessoas são tão doutrinadas. Não existem direitos humanos, nem liberdades." Para a antiga agente, a situação do país onde nasceu nada mais é do que puramente "desesperadora".


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